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2 de nov. de 2014








Por ROBERTO VIEIRA


Craque de bola e de verbo.

Canhota mágica.

Gerson sabia das coisas.

Primeira partida do triangular final de 1971.

Atlético-MG e São Paulo.

Mineirão.

Um empate estava excelente pro tricolor.

Telê Santana aperreado no banco.

Segunda etapa.

Falta na entrada da área.

Gerson reclama de Armandinho.

Odair se prepara pra bater.

Odair que tinha uma bomba santa no pé direito.

Gerson percebe a jogada ensaiada.

Gerson caminha para o buraco na barreira armada por Sérgio.

Mas... quando a bomba sai venenosa.

Gerson que nunca foi bobo.

Baixa a cabeça.

Coloca as duas mãos na frente do rosto.

E sente apenas o vento raspando sua calvície.

Sérgio salta por desencargo de pensamento, segundo a Placar.

A bola explode na redes.

E o Galo dá um passo imenso na direção do seu sonho impossível.

O título do primeiro Brasileirão.

E ninguém reclamou nadinha do Papagaio...


23 de mar. de 2013





Torcida é coisa séria.

Séria e burra.

Duas semanas após Sarriá.

O Rio de Janeiro vaia Telê Santana.



31 de jan. de 2013






Há 40 anos.

Discutia-se o cabelo no futebol.

Antes de Passarella.

Depois do musical.

O Santos mandou todo mundo aparar a juba.

Senão ficava em casa.

Não viajava pra Europa.

Nos jornais, as opiniões se dividiam.

Telê falava em democracia.

Rivelino falava que deixaria o seu mais comprido ainda.

Forlan afirmava socraticamente:

'Futebol se joga com os pés...'

Leão se defendia dizendo que era jovem.

Ninguém percebia.

Mas o cabelo militar da Copa de 70.

Cedia lugar ao encaracolado Marinho Chagas em 1974.

Era o protesto permitido.

Em uma sociedade fechada hermeticamente aos neurônios.

Afonsinho de longe, ria.

I've got my hair...

15 de set. de 2012





2 de ago. de 2012





24 de nov. de 2008



Por ROBERTO VIEIRA

"Volver a los diecisiete

después de vivir un siglo

es como descifrar signos

sin ser sabio competente..."

Março de 1980.

O Brasil é o silêncio dos generais e das ruas.

Nas entrelinhas, chega ao Recife o ex-líder sindical Manoel da Conceição para fundar o PT em Pernambuco.

Com ele, o líder metalúrgico Luís Inácio da Silva.

PT que reuniu 300 militantes no Centro de Trabalho e Cultura.

Do outro lado, chega José Sarney. Vem fincar as raízes do PDS.

Sarney que reuniu os amigos na Assembléia Legislativa.

Por caminhos diversos, Lula e Sarney chegariam ao Palácio do Planalto.

[IMAGEM]

Nos jornais, um pequeno aviso: A tucumana Mercedes Sosa vai cantar no Geraldão.

Lembrando aqueles tempos, voltamos a nos sentir profundos, frágeis como um segundo.

Voltamos a ouvir as canções de Violeta Parra na voz de Mercedes Sosa.

Voltamos a um tempo onde o sonho havia morrido, nas palavras de John Lennon.

Lennon que foi se juntar ao sonho, meses depois.

Porque ter dezessete anos no Brasil de 1980 era confiar em Telê Santana.

Telê que assumiu a canarinha naquele mês.

Cortando, de cara, o goleiro Leão.

Mero futebol?

Não.

Telê concede uma entrevista ao jornalista Gilson Vieira do Diario de Pernambuco com a seguinte frase:

"Não sou torturador!"

Sinal do tempos.

[IMAGEM]


Porque ter dezessete anos no Brasil de 1980 era ler sobre uma bomba em Brasília.

Bomba descoberta momentos antes da palestra do antigo militante Gregório Bezerra.

Bomba revidada com outra bomba, descoberta no Aeroporto dos Guararapes em Recife.

Bomba cujo alvo era o ministro da Educação Eduardo Portela.

Embora esta segunda bomba não fosse bomba.

Fosse apenas uma pedra.

Coisa de quem queria empatar o jogo em 1 x 1.

Porque ter dezessete anos no Brasil era curtir Mulher Nota 10.

Ou aguardar a liberação do filme Z, de Costa-Gravas.

O show de Mercedes Sosa foi silencioso.

Uma briga com os jornalistas causou o boicote no noticiário.

O sistema de som perdeu-se na imensidão do ginásio do Geraldão.

Geraldão que recebeu um pequeno público alternativo.

Público de jeans, camisas velhas e cabelos ao vento.

Nada que se comparasse a multidão do show de Rick Wakeman um ano depois.

Recife ouviu clássicos como 'Gracias a la vida' da chilena Violeta Parra.

Recife ouviu e calou-se, na memória dos anos em que Recife era livre.

E o Recife foi dormir em silêncio.

Mas não era o silêncio dos generais e das ruas.

Era o silêncio de um menino de dezessete anos.

Condenado a sonhar.

Novembro de 2008.

Vinte e oito anos depois, o menino tem cabelos brancos.

Contrastando com os cabelos negros eternos de Mercedes.

E o Recife encontra-se novamente com Mercedes, graças a vida.

Esta senhora indomável, dona do tempo.

Vida que através da arte nos faz decifrar a própria vida.

Sem sermos sábios, competentes.

Apenas com o coração...



19 de set. de 2008




Em 1972, o campeão brasileiro chega no Recife.

No gol, Mazurkiewicz (FOTO), um dos 3 melhores do mundo.

Escada de Pelé na Copa de 70 em um lance antológico.

No ataque, Dario.

No banco, Telê Santana. Reclamando do atraso do Galo no Galeão.

O Náutico tem Lula, Gena, Paraguaio e Vasconcelos.

O que foi e o que ainda seria.

Todos esperavam a vitória do campeão brasileiro.

Todos, menos a torcida alvirrubra.

O Náutico vinha de vitória sobre Sergipe e Vitória. Empate com o Bahia.

E o Náutico do técnico Gradim nem tomou conhecimento de Mazurkiewicz.

A noite foi dos ponteiros.

Dedeu enlouqueceu Oldair e Vantuir. Bola debaixo das pernas. Drible da vaca.

Os cravos das chuteiras vinham e Dedeu já tinha passado.

Do outro lado, carnaval fora de época.

Elói deitava e rolava em cima de Grapete.

Dedeu marcou dois. E podia ter marcado muito mais.

Elói completou o marcador: 3 x 0!

O campeão brasileiro voltou depenado para Minas Gerais.

Telê Santana quase endoideceu. Ou seria 'endoidedeu'?

Dario passou em brancas nuvens.

E Dedeu?

Dedeu recebeu um moto-rádio de presente como o melhor em campo.

Na hora da entrevista cometeu uma das suas mais famosas frases:

"Obrigado pelo presente, agora só falta comprar uma moto pra poder ouvir o rádio!"


2 de set. de 2008



Em pé: Pindaro - Jair Santana - Adalberto - Edson - Duque e Bigode.
Agachados: Telê Santana - Robson - Vilalobos - João Carlos e Escurinho.

FLU

Laranjeiras, 2 de setembro de 1954.

Um ataque arrasador se reúne no gramado.

Pra quem vive implicando que o Fluminense vivia de 'timinhos'.

Na ponta-direita, Telê Santana. Cérebro e suor do tricolor.

Na meia-direita, Didi. Precisa explicar?

No comando do ataque, Ambrois. Atacante contratado ao Nacional de Montevidéu.

Titular do Uruguai na Copa da Suiça.

Na meia-esquerda, Robson.

E na ponta-esquerda, Escurinho. Símbolo de uma época no Fluminense.

Títulos?

Pra você ver como é a história.

Em 1954 o Fluminense só venceu o Torneio Início e o campeonato carioca. De aspirantes...

Teve também uma taça de um desafio Fluminense x Uberaba.

Mas essa ninguém viu, ninguém sabe onde está.


15 de jun. de 2008





Por ROBERTO VIEIRA

Telê Santana estava de volta. Um Telê mais velho e desconfiado. Mais mineiro que nunca. E, junto com o Mestre, estava de volta parte da geração de 1982.

Leandro, Oscar, Júnior, Cerezo, Sócrates, Zico e Éder. Sete homens e um destino, tentando resgatar a seleção brasileira do fundo do poço.

Pois o Brasil, após o desastre de Sarriá, não hesitou em condenar sua seleção.

O Brasil renegou durante três anos o trabalho de Telê Santana e saiu feito saltimbanco pelos gramados do mundo.

Até que num momento de lucidez, exclamou: Volta, Telê. A coisa aqui tá preta!

E lá se foi Telê enfrentar as eliminatórias contra Bolívia, Chile e Paraguai.

A Bolívia perdeu por 2 x 0 na altitude de La Paz. O Chile caiu por 3 x 1 no Beira-Rio.

Então, chegou a hora do Paraguai. O Paraguai dentro do Defensores del Chaco. O Paraguai de Romerito.

O Brasil inteiro parou naquele domingo 16 de junho de 1985. Parou para ver, ouvir e dar passagem para aquele time três anos envelhecido.

O time enxovalhado pela maioria dos torcedores brasileiros. Do magnata ao varredor de rua.

Mas naquele dia 16 de junho de 1985 era aquele time que jogaria contra um estádio lotado, hostil. Faminto.

Era o mesmo Brasil do Sarriá, com quatro mudanças. No gol, Carlos. Na zaga, Edinho. Na ponta direita, Renato Gaúcho.

E no comando do ataque, no lugar de Serginho Chulapa, Walter Casagrande Júnior. O artilheiro do campeonato paulista daquele fatídico 1982 com 19 anos e 28 gols.

O jogo começou encardido, violento, navalhado. O gramado e os cravos das chuteiras barravam os avanços brasileiros. Romerito colou em Zico.

Delgada e Zagala eram a sombra de Casagrande.

Telê mastigava um palito no banco. Nervoso.

Então, a bola encontrou Renato Gaucho aos 26' do primeiro tempo. E Renato driblou Jaquet e Benitez.

A platéia prendeu a respiração, o cruzamento vinha pelo alto, inatingível.

Quando de repente, silêncio. Casagrande surge como Baltasar em 1954 e cabeceia forte, no canto de Almeida. Indefensável.

Gol.

Gol.

Gol de Walter Casagrande. Vinte e um anos depois de 1954, um outro corintiano abria o caminho para a Copa do Mundo em Assunção.

No segundo tempo, o genial Zico dominaria com o calcanhar, com Romerito em seus calcanhares, e marcaria os definitivos 2 x 0.

O Brasil rumava para a Copa do Mundo de 1986. Ironicamente, para um novo Sarriá. Desta vez em terras mexicanas.

Muitos imaginam aquele time um triunfo da imaginação. Outros, um bando de derrotados.

Como muitos julgam a assunção e cabeçada de Casagrande um lance do acaso. Fortuito. Arcaico.

Não é nada, não é nada. Mas, desde aquela Assunção de Casagrande, o Brasil não vence os paraguaios em terras guaranis.

E lá se vão vinte e dois anos e trezentos e sessenta e quatro dias...