
Por ROBERTO VIEIRA
Telê Santana estava de volta. Um Telê mais velho e desconfiado. Mais mineiro que nunca. E, junto com o Mestre, estava de volta parte da geração de 1982.
Leandro, Oscar, Júnior, Cerezo, Sócrates, Zico e Éder. Sete homens e um destino, tentando resgatar a seleção brasileira do fundo do poço.
Pois o Brasil, após o desastre de Sarriá, não hesitou em condenar sua seleção.
O Brasil renegou durante três anos o trabalho de Telê Santana e saiu feito saltimbanco pelos gramados do mundo.
Até que num momento de lucidez, exclamou: Volta, Telê. A coisa aqui tá preta!
E lá se foi Telê enfrentar as eliminatórias contra Bolívia, Chile e Paraguai.
A Bolívia perdeu por 2 x 0 na altitude de La Paz. O Chile caiu por 3 x 1 no Beira-Rio.
Então, chegou a hora do Paraguai. O Paraguai dentro do Defensores del Chaco. O Paraguai de Romerito.
O Brasil inteiro parou naquele domingo 16 de junho de 1985. Parou para ver, ouvir e dar passagem para aquele time três anos envelhecido.
O time enxovalhado pela maioria dos torcedores brasileiros. Do magnata ao varredor de rua.
Mas naquele dia 16 de junho de 1985 era aquele time que jogaria contra um estádio lotado, hostil. Faminto.
Era o mesmo Brasil do Sarriá, com quatro mudanças. No gol, Carlos. Na zaga, Edinho. Na ponta direita, Renato Gaúcho.
E no comando do ataque, no lugar de Serginho Chulapa, Walter Casagrande Júnior. O artilheiro do campeonato paulista daquele fatídico 1982 com 19 anos e 28 gols.
O jogo começou encardido, violento, navalhado. O gramado e os cravos das chuteiras barravam os avanços brasileiros. Romerito colou em Zico.
Delgada e Zagala eram a sombra de Casagrande.
Telê mastigava um palito no banco. Nervoso.
Então, a bola encontrou Renato Gaucho aos 26' do primeiro tempo. E Renato driblou Jaquet e Benitez.
A platéia prendeu a respiração, o cruzamento vinha pelo alto, inatingível.
Quando de repente, silêncio. Casagrande surge como Baltasar em 1954 e cabeceia forte, no canto de Almeida. Indefensável.
Gol.
Gol.
Gol de Walter Casagrande. Vinte e um anos depois de 1954, um outro corintiano abria o caminho para a Copa do Mundo em Assunção.
No segundo tempo, o genial Zico dominaria com o calcanhar, com Romerito em seus calcanhares, e marcaria os definitivos 2 x 0.
O Brasil rumava para a Copa do Mundo de 1986. Ironicamente, para um novo Sarriá. Desta vez em terras mexicanas.
Muitos imaginam aquele time um triunfo da imaginação. Outros, um bando de derrotados.
Como muitos julgam a assunção e cabeçada de Casagrande um lance do acaso. Fortuito. Arcaico.
Não é nada, não é nada. Mas, desde aquela Assunção de Casagrande, o Brasil não vence os paraguaios em terras guaranis.
E lá se vão vinte e dois anos e trezentos e sessenta e quatro dias...
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