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27 de jul. de 2013





Por WASHINGTON VAZ

Quando a gente menos espera, o futebol nos traz surpresas que emocionam.

Surpresas nas quais guerras, ditaduras e preconceitos perdem de goleada.

O Oriente Médio e o Norte da África vêm sofrendo desde 2010 uma forte onda revolucionária de manifestações e protestos conhecido como Primavera Árabe.

Desde 18 de dezembro de 2010 vem ocorrendo revoluções no Egito.

Guerra civil na Líbia e Síria.

Grandes protestos em países como  Argélia, Bahrein, Djibuti, Iraque, Jordânia, Omã e Iémen .

Todas com o uso maciço de mídias sociais contra a repressão por parte dos Estados.

Na Tunísia não é diferente, palco de protestos e atos revolucionários envolvendo greves, manifestações, passeatas e comícios.


Esta mobilização chegou ao cúmulo de torcedores serem proibidos de ir ao estádio para apoiar os times nas partidas da Liga Tunisiana de futebol. 

Em  meio ao terror e a proibição do Estado, a situação CS Hammam-Lif era tão desesperadora, correndo sérios riscos de cair para segunda divisão da Liga.

Partida válida pela antepenúltima rodada do campeonato nacional, dentro do Stade Bou Kornine.

O adversário a ser batido era o Stade Tunisien e uma vitória era importante para afastar de vez o fantasma do rebaixamento.

Para isso, o apoio da torcida era essencial para fugir da degola, mas como driblar a proibição do governo?

O CS Hammam-Lif tomou uso da criatividade e se apoiou nas benesses da tecnologia.

Pensando em "levar a torcida" pro estadio, lançou um aplicativo para Android.

Nele, permitia aos torcedores enviar músicas e gritos de incentivo para dentro do estádio.

Ao todo, foram distribuídas 40 enormes caixas de som pelo estádio.



Um simples toque nos ícones do aplicativo fazia com que os torcedores realizassem seu apoio, com aplausos, batucadas, buzinas e cantos de guerra.

Quanto mais toques, maior o barulho provocado durante a partida. 

E claro, a torcida abraçou a causa!

No estádio que comporta 8 mil torcedores, o aplicativo mobile multiplicou de forma considerável!

Cerca de 93 mil pessoas fizeram cantos e gritos ecoarem pelo estádio, ajudando o CS Hammam-Lif  a vencer por 1x0 o Stade Tunisien.

Resultado o suficiente para livrar os donos da casa do rebaixamento, por uma diferença de 4 pontos.

A ideia deu tão certa, que dois dias após a partida, o Stade Tunisien lançou a sua versão do aplicativo.

Vale a pena ver o vídeo abaixo pra se ter idéia do "espetáculo".



2 de abr. de 2013






Rigoberto Souza regressa a um novo mundo.

Seis anos de exército.

Um ir e vir constante. Chegadas e despedidas.

Pediu pra sair.

Recife, Campina Grande, João Pessoa, Rio de Janeiro.

Itália.

Pede baixa.

A Constituição permitia a quem lutara na Itália um bom emprego na Previdência. 

As noites eram longas.

Tiros. 

Fuzis.

Você deixa a guerra mas a guerra se recusa a abandonar você.

Serão quarenta e dois anos comissionado como fiscal na Previdência.

Artigo Suplementar. 

Um ano. 

Concurso e exame de admissão no colégio estadual de Natal.

Aprovado, faz curso científico em Recife, cursando os três anos no colégio Pedro Augusto.

Vestibular para odontologia.

Medicina ia demorar muito tempo. 

Também pensou fazer engenharia em Coritiba.

Mas chega o Ano Santo de 1951.

E em fevereiro de 1951 chega a Faculdade de Odontologia. 

1951 que também trouxe o amor ao coração de Rigoberto...

20 de nov. de 2012





Novembro de 1938. A solução final era segredo? Nada se sabia no Brasil sobre os planos de Hitler para os judeus? E Mussolini.

Pois é exatamente em novembro de 1938 que Mussolini aumenta sua perseguição as minorias na Velha Bota. A lei que proíbe casamentos entre judeus e arianos, o confisco de propriedades e o cerceamento das atividades econômicas é brutal. A pequena comunidade judaica não tem para onde fugir, muitos buscam o recurso da apostasia na tentativa de se salvar. 

Getúlio Vargas na manchete da Folha da Manhã pernambucana é enfático, falando por toda a América do Sul: 'Nenhuma negociação entre o Reich e a América do Sul'.

As portas estão fechadas para os judeus. 

Rigoberto Souza chega na Itália no dia 6 de outubro de 1944. O último campo de concentração sob comando italiano mudou de mãos em 1943. Agora a administração é tedesca.

Rigoberto deseja pisar em terra firme, mas o mar não está tão inocente assim. Para chegar na cidade somente à bordo de LTIs (Lançamento de Tropa de Infantaria). O LTI jogando violentamente no Mediterrâneo, vômito.

9 de outubro de 1944. Nápoles arrasada e faminta. Bombardeada. As tropas brasileiras têm o primeiro contato com a guerra. Tempestade. Lama e mau cheiro impregnam o ar. Os militares recebem finalmente seu armamento: capa de plástico e capote americanos, fardamento meio brasileiro e meio ianque, capacete de fibra e de aço causando violentas dores no pescoço.

Furúnculo. A dor lancinante em em meio ao frio. Um marinheiro pega um chumaço de algodão, um fogareiro e um bisturi. Corte em cruz, gaze, esparadrapo e o furúnculo desaparece.

Livorno.

Uma passagem feita de tábuas e a caminhada se faz com dois sacos pesados nas costas. Um caminhão recebe a tropa. Frio intenso e o motorista voa na lama até o antigo campo de caça do rei.

Os brasileiros descobrem que foram substituir a Sétima Divisão americana que invadira a Normandia.





17 de out. de 2012




1943.

Uma notícia triste atinge Rigoberto. Sem mais nem menos, ele é transferido para Campo Grande, no distante Mato Grosso. Antes que a transferência seja concluída, e por um golpe do destino, Rigoberto é enviado para Recife onde trava contato com o Capitão Reinaldo de Oliveira Reis, comandante da Companhia de Guardas.

Reinaldo é considerado osso duro de roer, um militar extremamente exigente no confronto com os subordinados. No entanto, Rigoberto descobre que o Comandante é pessoa de fino trato e seu rigor era apenas o rigor da lei.

A viagem de Rigoberto até Campo Grande revela a geografia de um país continental e desprovido de comunicações entre suas diversas regiões. O trajeto obrigatório por terra se justificava, porém: os submarinos alemães infestavam as águas territoriais brasileiras.

Rigoberto recebe o aviso para viajar pela rede ferroviária até Rio Branco, atual Arcoverde. O trem sai às cinco da manhã e chega em Rio Branco no final da tarde. Lá estavam as tropas que seguiriam  até Campo Grande passando por Petrolina. A viagem foi tenebrosa pelo sertão até Petrolina e durou três dias de rios transbordando, lama, deserto e comida improvisada.

Petrolina era na época uma cidade pequena sem local para dormir. Dali a viagem iria prosseguir pelo Rio São Francisco no navio Rio Branco, movido à roda d'água e com lotação acima do permitido. O próximo destino era Pirapora, Minas Gerais de onde partiria o trem até São Paulo.

Pena que o trem que Rigoberto pegou para chegar em São Paulo foi dar no... Rio de Janeiro. Quem salvou a situação foi o fato da existência de um tio de Rigoberto que morava na Tijuca, no Distrito Federal.

De bolsa de couro na mão com as iniciais R.S., Rigoberto chegou na casa do Tio Abdias e de sua esposa, Dona Laura, às quatro da tarde. Recepcionado por Laura, Rigoberto se apresenta como o filho de João Alfredo. A alegria foi grande no reencontro. Tio Abdias era advogado, procurador,  professor e tinha sete filhos.

No dia seguinte, Rigoberto foi correndo se apresentar no Quartel General, ao Coronel Ademar Queiroz, chefe da quinta seção.

O medo?

Ser considerado desertor.

A esperança?

Com uma carta do governador da Paraíba, Rigoberto iria tentar uma mudança no destino.

Quem sabe alguém não queria seguir viagem para Campo Grande em seu lugar?

No Quartel General, Rigoberto descobre que havia sido transferido por conveniência militar. Como recebera ajuda de custo, estava obrigado a se apresentar em Campo Grande. Pegando um ônibus, nosso herói viaja por Bauru e Cuiabá até Campo Grande.

Excelente militar, Rigoberto demorou 45 dias em Campo Grande.

O Exército tinha outros planos para ele...


9 de out. de 2012




Rigoberto observa a metralhadora francesa em suas mãos. Fabricada pela companhia Hotchkiss et cie, a Hotchkiss era a favorita do exército francês desde a Primeira Grande Guerra.

O sistema de disparo baseado no uso do gás era revolucionário; descoberto por um nobre austríaco, o barão e capitão Odkolek von Augeza. Tempos depois, ela foi aperfeiçoada por Laurence Benet e Henri Mercie sendo de tal forma leve que podia ser transportada e montada em um tripé. O hiper aquecimento da metralhadora era compensado pelas pausas para recarregar seus cartuchos e pelo sistema de resfriamento baseado no ar e em ranhuras no corpo da arma. Como o aquecimento da metralhadora não era importante em grandes altitudes, a Hotchkiss foi adotada intensamente pela força aérea japonesa nos conflitos asiáticos.

A Hotckiss foi introduzida no exército brasileiro pela missão militar francesa, nos anos 20 - missão que dominaria corações e mentes dos militares brasileiros até a chegada dos novos preceitos norte-americanos na II Guerra.

Consagrada pela sua eficiência, a Hotchkiss protagonizou eventos tão díspares quanto a Revolução Mexicana, a Guerra Civil Polonesa, a Guerra Civil da Espanha e a Revolução Constitucionalista de 1932 no Brasil quando teve papel de destaque na derrota paulista diante da ditadura de Vargas.

Enquanto isso, Rigoberto fora designado para proteger 600 tonéis de combustível para aviação. Ele pudera escolher um a um seus comandados para a ingrata missão, porém as noites eram longas, Rigoberto não conseguia dormir. Um descuido e a mais leva fagulha levaria o Regimento inteiro pelos ares.

Madrugada. Um carro com três homens irrompe pela guarnição atirando. Pânico. Os tiros passam raspando pela carga explosiva. Rigoberto não hesita, deixa seus comandados cuidando dos tonéis de combustível, requisita o primeiro automóvel que passa pelo local e sai no encalço dos bandidos.

Consegue capturar os atiradores na escuridão campinense e conduz o grupo para detenção. O clima já é de guerra, sabotadores por toda parte. Rigoberto imagina submeter os homens ao mau humor da Hotchkiss.

Mas era tudo coisa de rapazes em busca de uma boa farra. Com muito choro e pedidos de clemencia, a turma convence Rigoberto e seus comandados que tudo fora apenas uma infeliz brincadeira da juventude. Os jovens nem sabiam que ali funcionava o depósito do exército.

Rigoberto se comove. Ele que não tinha tempo pra brincadeiras, daquele e de nenhum tipo. Solta os rapazes. Mas decide pedir transferência daquela função dos diabos.

Antes que a próxima brincadeira jogue tudo pelos ares.

Antes que o futuro se transforme em sangue e morte.

Sem perdão...











Brigada Militar Gaúcha, 1932



* A Hotchkiss, embora tenha seu nome originado no fabricante, também possuía a doce ironia da sua pronuncia britânica. O Hotchkiss facilmente confundio com 'Hot Kiss' ou 'Beijo Quente'...





Por ROBERTO VIEIRA


9 de outubro de 1940.

Era um dia frio - chuva implacável.

Londres olhava para os céus.

Liverpool, para os mares.

A Luftwaffe sobrevoava o Canal.

Despejando bombas sobre o sudeste inglês.

Julia chora com seu pequeno bebê.

Noite.

A Luftwaffe alcança Liverpool.

Os prédios tremem.

Três aviões nazistas são derrubados pela RAF.

Julia segura as mãos de Tia Mimi.

O menino se cala.

Filosoficamente escuta as explosões.

A Alemanha invade sua aliada, a Romênia.

É preciso proteger os campos de petróleo.

Julia escuta a voz distante de Winston Churchill.

Recorda de Churchill desfilando em Liverpool.

Sangue, suor e lágrimas.

O menino ganha um terceiro nome.

Não será apenas John.

Nem será apenas Lennon.

O registro é feito como John Winston Lennon.

Uma criança que irá crescer sem pai.

Sem mãe.

Com o rugido de bombas em sua mente.

Como guitarras.

Baterias e rock.

A perfeita tradução de uma geração que sobreviveu ao Apocalipse.

Apenas para cantar o amor...















Churchill visita Liverpool

2 de out. de 2012



Campina Grande nos anos 30/40 já era terra pujante que dominava o sertão paraibano. Sob a administração do prefeito Vergniaud Wanderley, um surto desenvolvimentista toma conta da cidade, segundo exportador algodoeiro mundial, atrás apenas da inglesa Liverpool.

Antes da vitória de Vergniaud nas eleições municipais sobre o arcaico Lafaiete Cavalcanti, a gente elegante e a nata da sociedade local fazia seu footing na Rua Maciel Pinheiro, visitava o Gabinete de Leitura Sete de Setembro, celebrava a vida nos diversos cafés e cinemas das suas imediações.

Mas Vergniaud decidiu mudar a Rua Maciel Pinheiro. Campina Grande assistiria extasiada um conjunto de obras inédito para os padrões nordestinos. Vergniaud  era assim como um JK paraibano, pleno de planos e ambições. Na esquina da Maciel Pinheiro com Floriano Peixoto nasceu um moderno hotel com quatro pavimentos. O Pavilhão Epitácio Pessoa, sede das confabulações da República Velha cede lugar à Livraria Pedrosa, reduto dos novos pensadores políticos. Por fim, a estátua de João Pessoa foi retirada da praça do mesmo nome em prol de um novo tempo.

Porém, nem tudo era progresso na Paraíba dos anos 40. Nesta época e território febril, localizava-se o 40º BC onde foi servir Rigoberto Souza. Nosso herói não teve tempo para avaliar a mudança urbanística local. Logo que foi chegando, teve a sua espera a participação em um inusitado pelotão de fuzilamento - talvez o único no Brasil do século XX.

Tudo começou quando um sargento briga no baixo meretrício e esculacha com o Comandante do 40º BC. O Comandante manda dar um pau no brigão, conhecido como Valdir Borborema. Borborema havia sido incorporado na marra, a cabeça raspada a força. Preso, Borborema se recusou a falar durante o depoimento. O Comandante não se fez de rogado. Mandou formar dois batalhões dando ordem de fuzilamento a Valdir Borborema. Na reserva de armamento, o pelotão carregou em cada fuzil uma bala normal e outra de festim. Madrugada em pé.


Valdir Borborema não arreda o pé nem abre a boca. 

Rigoberto imagina que vai matar o primeiro homem na sua vida.

Na última hora, chega a contra ordem do Comandante, já satisfeito com o suto que pregara no tal de Borborema.

O tenente manda recolher o pessoal.

Quando Rigoberto pensa que o pior já passou, nova missão.

Vigiar 600 tonéis de gasolina de aviação. Todos com algum tipo de vazamento e prontos a explodir ao menor sinal de fagulha...


Campina Grande, anos 40 - Mestre Rigoberto é o primeiro à esquerda


25 de set. de 2012







As metralhadoras eram carregadas por muares. Rigoberto ficou responsável pela condução de um animal com sua respectiva metralhadora 'hotclick'', outro burro levava a placa de morteiro. Os oficiais se deslocando em seus cavalos e os soldados a pé. 

A disciplina do exército brasileiro naqueles tempos é lembrada como 'prussiana' pelo nosso herói. Recém-chegado do meio civil, Rigoberto adaptou-se rapidamente aos novos ares, os quais tinham muito do ambiente familiar rígido e organizado, herança da educação do seu avô. Rigoberto jamais foi punido, sendo considerado exemplo entre seus companheiros. 

As marchas de 24 e 36 quilômetros com equipamento completo eram uma constante durante os quatro meses do curso. Sem direito a cansaço. No final, veio a classificação de acordo com a nota do curso. O 30º e o 31º BC foram levados a Fernando de Noronha no pequeno navio Tupiara, que balançava e deixava todo o pelotão enjoado no mar.. De acordo com a nota obtida no curso era facultado escolher o local de transferência. Rigoberto optou por seguir com o 22º BC em Campina Grande – mais perto de Santa Luzia onde morava a família. 





Quando desceu do trem na estação ferroviária na cidade que dominava o interior paraibano, o jovem percebeu que todo o esforço começava a valer a pena. Naqueles tempos, Cabo era autoridade! 

Como cabo, ajudante do batalhão, Rigoberto trabalhou na administração do 22º BC, sob o comando do capitão paulista Edson Cardoso de Carvalho Leme, que sempre afirmava não haver nascido para ser militar, sendo militar por conveniência, para concluir o curso de medicina.

Nos próximos seis meses, Rigoberto iria realizar o curso de sargento, morando na pensão de Seu Sérgio, pai de Terezinha Lucena.   

22 de set. de 2012





11 de set. de 2012




Revolução de 30 deflagrada, a guarnição do Nordeste possuía apenas infantaria. E lá se foi o jovem tenente gaúcho Ernesto Geisel no comando de cento e poucos homens, quatro muares e quatro canhões 75 milímetros reforçar a região distante do seu rincão natal. A bateria de artilharia cruza a Bahia, passa por Recife e chega ao porto de Cabedelo na Paraíba. O moço aprende a gostar do Nordeste. Viaja até Princesa, conhece o Ceará, auxilia os pobres durante a terrível seca de 1932/33, combate no levante contra o interventor Carlos de Lima Cavalcanti em Pernambuco, organiza uma república com os amigos na praia de Tambaú e assume a secretaria da Fazenda paraibana. Além de organizar as finanças da terra de João Pessoa, Geisel também nomeia um jovem honesto e trabalhador para a coletoria de impostos junto ao coronelato local.





A vida não era fácil nos anos 30 em nenhuma parte do Brasil, muito menos no sertão nordestino. Tempos de Revolução, Vargas e República Nova, o pai de Rigoberto encontra-se com o tenente Ernesto Geisel, secretário de finanças do estado da Paraíba e futuro presidente do Brasil na década de 70.

Geisel promove o pai de Rigoberto ao cargo de escrivão de coletoria e o envia para a cidade de Princesa Isabel na difícil missão de cobrar impostos ao coronelismo local, avesso ao pagamento dos tributos federais.

Pai de oito filhos, apenas uma babá em casa, a violência batendo a porta, Rigoberto acaba se transferindo para a localidade de Patos onde os mesmos problemas com as oligarquias rurais se repetem. A paz só chega em outubro de 1940 quando o pai de Rigoberto assume a coletoria municipal de Santa Luzia.

Enquanto isso, estudando pela manhã, trabalhando a tarde, aprendendo datilografia para realizar o exame de admissão, Rigoberto se viu numa situação complicada aos 14 anos: não havia ginásio em Pombal.

Não tendo como prosseguir os estudos, Rigoberto abandona os livros até os 18 anos de idade e segue nas mudanças de endereço dos pais. Nem o excelente professor Newton Pordeus Seixas, formado em pedagogia e mestre do jovem Rigoberto, consegue evitar o temporário êxodo escolar.

Mas os anos 40 e a habilidade com a datilografia acabam mudando a vida do nosso herói. Tudo pelas mãos do recém-criado XV Regimento de Infantaria e da ajuda do capitão da polícia militar da Paraíba Albertino Francisco dos Santos.

Pegando um trem em Campina Grande, Rigoberto viaja a João Pessoa e fica hospedado na casa do capitão Albertino. Apresentado ao sargento Machado, Rigoberto é incorporado ao Exército Brasileiro na Companhia de Metralhadoras do II Batalhão em Monteiro, sediada na capital do estado.

A guerra na Europa chegava ao Big Ben...


Geisel e Vargas, Paraíba 1933

4 de set. de 2012





Rigoberto de Souza nasceu em Pombal, no estado da Paraíba.

Primogênito de onze rebentos, filho do coletor estadual e músico autodidata João Alfredo de Souza e de Dona Adelziva Bezerra de Souza, agente de correio. Sinal premonitório, Rigoberto é tataraneto de alferes quartel-mestre do Exército Luso Brasileiro.

Como filho mais velho, nosso herói teve a primazia de ser o único matriculado em escola particular. Menino travesso, Rigoberto deu muito tanto trabalho a seu pai, tanto que terminou sendo transferido para uma escola rural no intuito de moldar no ambiente inóspito do novo universo escolar seu gênio rebelde. Mal sabiam que era justamente essa inquietude e bravura precoces, o sinal de luta símbolo de sua existência.  

Na memória de Rigoberto ficaram presentes inúmeros castigos recebidos do pai, João Alfredo. O filho mais velho deveria servir de exemplo aos irmãos. Mas também ficou presente a lembrança do sonho paterno em garantir a boa educação do filho. Além dos primeiros anos em escola particular e dos tempos na escola rural, Rigoberto foi entregue juntamente com o irmão Amauri, aos cuidados de um preceptor particular, o Professor Amadeu, esposo de uma tia-avó.

A CLT – Consolidação das Leis Trabalhistas – não existia. Aos doze anos, o menino teve seu primeiro emprego trabalhando numa fábrica de extração de óleo de oiticica (Licania rigida), planta da família das rosáceas. Rigoberto pesava o fruto que dava um óleo melhor que a mamona. Naquele tempo havia uma refinaria de oiticica no sertão paraibano, sendo o óleo exportado inteiramente para as indústrias de tinta do Brasil e do exterior pela rede viação cearense.

No sertão nordestino de paisagens áridas, cinzentas, dolorosas, a imagem da imensa palmeira de folhas sempre verdes, abrigo no calor inclemente das manhãs sem fim, símbolo da riqueza inexplorada da caatinga, foi o primeiro contato do menino com a beleza, tristeza e desigualdades sociais e econômicas do mundo em revolução do início do século XX. 

22 de ago. de 2012





Por ROBERTO VIEIRA


A Guerra completava um ano na Europa.

O Palestra vivia seus últimos dias.

Palestra líder do certame estadual.

Palestra de um tempo que não existia mais.

Campo escorregadio.

Rio-São Paulo.

O Botafogo do futuro pracinha Perácio chegou ao Pacaembu com o sentimento do mundo.

Chuva torrencial.

Gramado escorregadio.

Noite de 11 de setembro paulistana.

Palestra de Clodo: Carnera e Junqueira;

Carlos, Sidney e Garro;

Luisinho, Canhoto, Elyseo, Lima e Echevarrieta.

Botafogo de Aymoré Moreira; Bibi e Dr. Nariz;

Zezé Procópio, Zezé Moreira e Nacali;

Tadique; Geninho, Paschoal, Perácio e Patesko.

Botafogo que abriu as hostilidades aos 10 minutos.

Gol de Patesko.

Dez minutos depois, Geninho amplia: 2x0.

Os tifosi se agitam.

Canhoto recebe com Nariz na sua cola.

Canhoto descobre Luisinho.

Luisinho chega um segundo antes de Aymoré: 2x1.

Intervalo.

Trincheiras.

Paschoal aumenta para 3x1.


A Guerra completava um ano na Europa.

O Palestra vivia seus últimos dias.

Palestra líder do certame estadual.

Palestra de um tempo que não existia mais.

Campo escorregadio.

Rio-São Paulo.

Buscando forças na alma da Velha Bota.

O Palestra reage.

Sidney de cabeça lança Echevarrieta: 3x2.

Luisinho novamente surge do nada e empata aos 20 da segunda etapa: 3x3.

Um torcedor cai fulminado nas arquibancadas.

Vítima da batalha.

Não vê que Zezé Moreira lança Paschoal que lança Tadique...

Botafogo 4x3.

Carnera se ajoelha em desespero.

Pipi no lugar de Elyseo.

Araraquara no lugar de Nariz.

Echevarrieta dribla Araraquara e bate forte.

Aymoré mergulha na escuridão e a bola beija as redes.

Morteiro.

Palestra 4 x 4 Botafogo.

O árbitro José Ferreira lemos, o Juca, apita.

O Reichstag é atingido por bombas inglesas.

Londres em chamas.

Mussolini bombardeia Jaffa.


Aquele foi o último encontro do Palestra Itália diante do Botafogo.

Com a guerra.

O Palestra virou Palmeiras.

Itália?

O inimigo distante a ser vencido...


Juan Raúl Echevarrieta, El Terrible


31 de jul. de 2012




Mestre Rigoberto teve a idéia de me convidar a escrever a biografia do seu pai, Dr. Rigoberto Souza, herói da Segunda Guerra Mundial.

Aceitei com sérias dúvidas sobre o desafio pela frente.

Hoje, inicio a publicação da história em capítulos.

O primeiro fala sobre a chegada na Itália.

O livro segue sendo publicado nas terças-feiras no Blog.

O mundo do Blog?

Agora é o Mundo em Guerra...







4 de jan. de 2009





Duas fotografias separadas por seis décadas.

Na primeira, o Gueto de Varsóvia.

Na segunda, o Gueto da Faixa de Gaza.

Antes que algum amigo meu, judeu, fique horrorizado, um aviso:

Pouco interessa ao cidadão de bom senso os motivos.

O que importam são as crianças.

E as crianças morrem de fome na Faixa de Gaza.

E as crianças morrem sob bombas na Faixa de Gaza.

Ora como escudos.

Ora, como alvos.

As imagens dos últimos dias nos remetem à Segunda Guerra.

Inevitavelmente.

Os militares palestinos buscam a simpatia do mundo exibindo mártires?

Sem dúvida.

Eles capitalizam a miséria.

A falta de pão.

Miséria plena em território palestino.

Porém, do outro lado, não tem super-herói.

Os militares israelenses buscam o silêncio dos palestinos exibindo a força.

Seus generais políticos só pensam na próxima eleição.

Tudo ocorrendo em solo sagrado.

Sob mesquitas e sinagogas construídas em nome do Senhor.

A diferença entre Varsóvia e Gaza é, cada dia, mais tênue.

Mais vernacular...



8 de ago. de 2008



1936


Mal começa uma Olimpíada e guerra.

O ataque russo a Ossétia do Sul lembrou Barcelona.

Barcelona e a Guerra Civil Espanhola em 1936.

Barcelona foi preterida em 1931 para sede dos jogos. Berlim foi a ganhadora.

Fato normal diante dos acontecimentos. A Espanha estava dividida.

A Guerra Civil explodiria no verão de 1936, época dos jogos olímpicos.

Mesmo assim, 250 mil pesetas foram solicitadas às Cortes para a realização dos jogos alternativos. 250 mil pesetas que não chegaram a ser utilizadas.

O Apocalipse foi mais rápido.

A Guerra Civil explodiu com toda sua violência.

Jornais noticiaram a queima de igrejas. O fuzilamento sumário dos prisioneiros tornou-se rotina. A marinha alemã adormecia na costa espanhola. A Inglaterra evitava se envolver. O Uruguai propunha conversar.

Franco se aproximava de Mussolini.

Alguns atletas já se encontravam nas terras de Cervantes. Mas na terra de Cervantes o tempo era dos moinhos.

Os poetas como Garcia Lorca eram assassinados covardemente.

Guernica estava na próxima esquina.

2008