
Por ROBERTO VIEIRA
Ele chegou no aeroporto, entrou no táxi e foi direto para o Maracanã.
Trocou de roupa, calçou as luvas e entrou em campo.
Não conhecia ninguém.
O adversário era o Flamengo.
As bolas chegavam e paravam em suas mãos. Imãs.
A torcida vascaína ficou pasma.
A do Flamengo, possessa.
O time do Vasco era tão ruim que daí em diante a piada era a seguinte:
"Andrada quando joga, joga contra 21 jogadores"
Com ele o Vasco foi campeão em 1970, quebrando um jejum antológico.
Quis o destino que ele ficasse conhecido como o goleiro do milésimo gol de Pelé.
Mas Norberto Andrada foi muito mais.
Ensinou os goleiros brasileiros a jogar no gol. A devolver uma bola. A fechar o ângulo.
Foi bola de prata. Deu lições em revistas esportivas.
Infelizmente para o mundo do futebol existe o submundo da vida.
Norberto Andrada foi acusado de colaborar com a ditadura argentina.
Responsável pelo desaparecimento de dois militantes peronistas em um bar de Rosário no ano de 1983.
Culpado? Inocente?
A justiça argentina vai responder.
Fica para os fãs de Andrada o gosto amargo de pólvora na boca.
Essa súbita impressão de que lhe roubaram um ídolo.
Curiosamente, entre os desaparecidos da repressão argentina figuram vários esportistas:
Miguel Sanchez, Daniel Shapira, Carlos Rivada, além de jogadores do clube de rugby La Plata.
Todos citados no belo livro Deporte, Desaparecidos y Ditadura de Gustavo Veiga.
Livro de bolso para quem ama a democracia, o esporte e a justiça...


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