
Por ROBERTO VIEIRA
No jardim do Éden do futebol não havia pênaltis.
Ninguém ousava impedir um gol feito. A malícia repousava fora dos campos ingleses.
Até que um dia a serpente surgiu no paraíso.
E uma bola que ia entrando no gol do Notts County foi salva com a mão. Em cima da linha.
Perplexidade. Pecado original.
E os espertos irlandeses vieram socorrer os beatos ingleses: Que tal botar o goleiro no paredão?
Desde então, os goleiros se tornaram personagens do momento mais shakesperiano do futebol.
Ser ou não ser gol? Eis a questão.
O Corinthians inglês resistiu em sua pureza virginal. Seus jogadores se recusavam a defender um pênalti.
Foram relegados ao paraíso da quarta divisão.
E o futebol viu nascer o teatro. Goleiro que se mexia antes da cobrança sem o juiz ver.
Mestre Arthur que fingia bater na direita e depois mudava de idéia.
Beijo de Valdir Peres no Galo mineiro. Hipnotismo de Amadeo Carrizo. Boxe na relva de Norberto Andrada.
Crepúsculo de Waldemar de Brito nas mãos de Zamora.
Index dos Aflitos.
Porém, diabólica era a paradinha do Rei Pelé. Paradinha aprendida com Lalá nos treinos de Vila Belmiro.
Paradinha tão fatal que foi proibida pelo Santo Ofício.
Paradinha que ressurgiu fatal no futebol atual depois do Concílio Vaticano. Até nos pés do Rogério Hamlet Ceni.
Porque o pênalti, inventado para punir o pecador, tornou-se com o cronômetro dos séculos, glória e redenção.
Tragédia grega para o cobrador.
Milagre para o condenado.
Até o próximo versículo...
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