28 de ago. de 2008




Durante meu tempo no exército, aprendi a admirar os antigos pracinhas. Ouvia suas histórias. Histórias de luta por um ideal esquecido nas planícies do mundo atual.

Quem puder visitar as ruínas do edifício dos pracinhas no Largo do Carmo, perceberá que a honra neste mundo é recompensada com esquecimento.

Quem não acredita no sacrifíco destes homens, viaje.

Dê uma passada em Monte Castelo na Itália no mês de fevereiro, pleno inverno. Imagine-se soldado, fuzil nas mãos, alemães nas trincheiras, morte nos olhos. Sinta o frio cortante no vento que sopra, inclemente.

Talvez então compreenda.

O conto é uma homenagem a todos os pracinhas. E ao saudoso Capitão Paiva.

Por ROBERTO VIEIRA

O corpo magro e o olhar distante não traíam a idade do homem sério, vestido com um terno antigo como o seu olhar. Seus passos largos foram se tornando hesitantes à medida que se aproximava o final da rua do Aragão. Dobrando à esquerda pôde observar a velha Igreja de Santa Cruz. Lembrou das festas de Santana, as festas de N.S. do Perpétuo Socorro. Famílias inteiras nas janelas. Outros fogos pelo céu.

Dois de julho.

'Por mais terra que eu percorra/não permita Deus que eu morra/sem que eu volte para lá...'

Enquanto lutava em Monte Valimo, o homem magro se agarrava a uma velha fotografia em branco e preto de uma menina. Conhecia Maria desde pequeno. Olhava para si mesmo e ainda via Maria correndo pela Boa Vista, brincando de boneca, voltando do colégio. Dizendo que um dia iam se casar na Igreja de Santa Cruz.

A igreja estava lá. Por um instante foi como se nada houvesse se transformado. Ele, menino, ouvindo sua avó contando sobre a Procissão do Encontro. Jesus encontrando sua mãe Maria. Depois seguindo pelas ruas do bairro. Os olhos da avó correndo lágrimas. Como eram tolas as mulheres!

Monte Acuto. A fotografia perdida no Monte Acuto, juntamente com um dos seus braços. Já não poderia mais tocar violão, foi seu primeiro comentário. Mas ainda estava vivo, lembrou o oficial-médico que lhe dera a notícia. Vivo. Talvez para efeito estatístico. Por dentro havia sempre um cheiro de óleo e sangue. Um cheiro que resistia aos banhos e às chuvas.

Beber. Começou a beber na Itália. Embriagava-se pelas noites para esconder o medo. Embriagava-se quando ouvia as bombas. Quando queria lembrar simplesmente. Maria. Cada vez mais bebida e cigarros. De repente não conseguia lembrar muito bem o rosto de Maria, mesmo quando fixava sua foto por horas à fio. E depois, sem a fotografia e sem seu braço, ela era apenas um daqueles espaços vazios após a explosão de uma mina terrestre.

'Sem que eu leve por divisa , este V que simboliza ...'

O corpo magro parecia se encolher quando enfim chegou ao bar azul da esquina. O posto de gasolina, o posto de saúde, a escola de música.

Seriam antigas, ou seria tudo parte do novo mundo que viria quando a guerra terminasse? Mas já não vivíamos no Novo Mundo?

Demorou para criar coragem e olhar para a outra esquina. O prédio dos pracinhas deveria estar lá . Quando enfim se decidiu mal pôde acreditar. Seus olhos incrédulos passeavam pelas ruínas. Pelos vidros quebrados. Pela estrutura que parecia a qualquer momento capaz de ceder, como aqueles castelos destruídos pelas bombas na Itália. Então as longas noites de angústia e medo antes das batalhas, o braço deixado numa vala comum em pedaços, os delírios, as febres, as lágrimas, a foto de Maria, a impotência que se seguiu ao terror. Então tudo isso se resumia a um prédio em ruínas, destruído pelo tempo e não por bombas, esquecido no largo de Santa Cruz?

Deus não havia. A cruz daquela igreja simbolizava o nada. Havia apenas dor. Uma dor incalculável. Um sentimento de que a vida lhe tomara tudo. Até o edifício em que os mortos, os braços, os olhos, a carne e o sangue oferecidos em sacrifício deveriam ser lembrados.

Enquanto isso, do outro lado do Largo, uma irmã da Ordem de Santana saí da igreja e observa na distancia aquela cena. Seus olhos não se calam no espanto. E aproximando-se lentamente daquele homem magro e olhar vazio, não pode deixar de reconhecer outros olhos. Os olhos do menino em sua infância. O menino que brincava de espadas, sonhava em ser soldado e em consertar o mundo. O mesmo menino que ao regressar da Itália não fora procura-la jamais, limitando-se a um bilhete espartano: 'Adeus'.

O homem magro e de olhar vazio e distante não pôde perceber que duas mãos cansadas lhe seguravam os ombros, acariciavam o seu cabelo branco, enxugavam-lhe o pranto. As mãos o levam com amor para longe das ruínas, das lembranças. Como se tudo não passasse de um sonho.

E o silencio se fez, no último encontro de um menino e uma menina que nesta vida só queriam ser felizes.


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