
Por ROBERTO VIEIRA
18 de junho de 1958.
Na corrida, o príncipe Etíope cabeceia a bola que chega em seu peito. Humilde serviçal. Amante fiel. Bola de meia. O zagueiro galês cerca o moleque mineiro. Britânico. Formal. Implacável. Pontual. Mas o menino do Brasil num passe de mágica gira o corpo. Gira o mundo. Gira a história com seus pés. Os cravos de uma chuteira se erguem contra a genialidade. A força bruta contra a pura arte. Por um instante parece que a clava vencerá novamente o florete.
Aqui se abre um parêntese.
Até os vinte e um minutos do jogo entre Brasil e País de Gales na Copa do Mundo de 1958, o futebol era um esporte primitivo. Por mais que driblassem e fintassem os Morenos, Scarones, Piolas e Stefanos da vida.
Fim do parêntese.
Vinte e um minutos da partida dramática contra os galeses. Um toque sutil. A bola é desviada pelo seu menino paredro. Como na noite de núpcias. Gol. O menino faz o que todos os meninos deste mundo fazem quando marcam um gol. Correu para o seu brinquedo e o envolveu em suas mãos. Gentis. Crianças. Donos.
Os jogadores brasileiros acompanharam em procissão a criança sonhada pelos reis magos Friedenreich, Zizinho e Leônidas. A terra prometida por Mario Filho e Nelson Rodrigues surgiu no horizonte. Repórteres invadiram o campo para documentar a fábula.
O futebol se tornava uma monarquia.
(Um jornalista soviético relatou que o mundo parou durante alguns segundos).
No dia em que o mundo conheceu Pelé.
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