19 de dez de 2016



 Por CARLOS HENRIQUE MENESES,  MDM

A infância de quem viveu os anos 60 e 70 ficou marcada em cada um de nós, tanto pela liberdade que tínhamos de ir e vir, como pelas brincadeiras e diversões da época. Uma delas, o futebol de botão.

Fui sem modéstia, um grande jogador de botão.  Joguei intensamente dos 8 aos 16, 17 anos. No início eram jogos amistosos enfrentando meus irmãos César, Tatai e Paulinho, com botões de plástico, organizados por times com a foto e o nome dos jogadores. Depois surgiram alguns amigos, nos reuníamos todas as tardes, após o dever de casa da escola, na garagem lá de casa, sempre desocupada, pois o meu pai saía de carro para o trabalho e só voltava à noite.  Algumas vezes chegávamos a jogar a tarde inteira, sendo as partidas disputadas numa mesa de eucatex.

Com o passar dos anos fui me profissionalizando. Passei a comprar botões em sua maioria de chifres, que eram adquiridos na famosa lanchonete A SERTANZINHA, localizada no centro de Recife (Rua da Palma com Matias de Albuquerque), ou na antiga Casa de Detenção, onde atualmente funciona a Casa da Cultura. Alguns outros eram de acrílico, ou mesmo de vidro de avião (estes, os zagueiros, os mais fortes).

Até bem pouco tempo atrás ainda guardava com muito carinho o meu primeiro time, acomodado numa “concentração”, feita de flanela, com os “quartos individuais” para cada jogador.  A cera de carnaúba que era usada para encerar o fundo do botão eu importava diretamente dos Estados Unidos do Ceará. Vinha de Pacajús. Jogávamos com qualquer tipo de bola (gramínea, miolo de pão, plástico, etc..), e a regra adotada era a tradicional leva-leva, sem limites de toques coletivos ou individuais. Foram bons tempos aqueles.

Adotei apenas dois times durante toda a minha carreira de jogador de botão. O Náutico (não poderia ser diferente), e o América-RJ. Mas foi com o América-RJ, na década de 70 que conquistei as maiores vitórias e os principais títulos. De tanto jogar fui pegando o “ponto” para o chute certeiro dos principais atacantes.  Jonas, Orlando, Alex, Mareco e Zé Carlos, Ivo, Edu e Bráulio, Flecha, Jeremias e Gilson Nunes. Esta era a escalação do time base do América-RJ, onde com ele enfrentei Deus e o diabo, na Rua da Hora e em quase toda extensão da Av. Rosa e Silva.  Em alguns torneios os amigos “esqueciam” até de me convidar, para ver se o título ia para as mãos de outros.



Foi nesse cenário que ocorreu “o jogo do século”! 1971, Colégio Marista. Nós tínhamos um orientador educacional fantástico chamado Irmão Júlio. Organizava competições, gincanas educativas, dentre outras atividades.

As Olimpíadas Champagnat aconteciam sempre no mês de junho, uma vez que, no dia 6 de junho comemorava-se o aniversário da morte de São Marcelino Champagnat, o Fundador da Congregação Marista.

Naquele ano a novidade era o torneio de botão, organizado pelo Irmão Júlio. Mais de 80 alunos foram inscritos, cada um com o seu time de botão. Os jogos eram eliminatórios, e mesmo com 13 anos, cursando a 2ª série ginasial entrei tranqüilo no torneio.

O primeiro jogo foi um verdadeiro passeio. Lembro-me de ter vencido por mais de 10 gols, num jogo de 20 minutos corridos. Várias mesas foram espalhadas pelo salão de Judô, onde o Pro Kawamura dava suas aulas de artes marciais. Vários jogos aconteciam ao mesmo tempo.

Fui vencendo um a um os adversários, sem dificuldades, chegando a impressionar quem parava para assistir. Chutes certeiros, pontaria infalível, chegando ao jogo final com méritos. O adversário na final era um aluno do 3° ano científico, um cara bem mais velho do que eu.

Enfrentei uma pressão monstruosa por parte dos amigos do meu adversário, que passaram todo o tempo zoando de mim. Da minha turma só tinha um amigo que, vendo a pressão e coagido pelos grandões, tratou de dar o fora do recinto. Passei a sofrer tortura psicológica, beliscões no traseiro (para ser bem educado), “seqüestraram” o Jeremias, meu atacante, tudo isso com a conivência do juiz do jogo, amigo da turma mais velha. Era um bullying puro e cristalino.

Nesse momento, com o placar adverso e apertado, eu tremia e continha as lágrimas com todas as forças. Mais de vinte, trinta pessoas no salão, todas torcendo pelo grandão, e zombando de mim, com chacotas e tudo mais. Os meus chutes não tinham mais a pontaria certeira. A palheta tremia na minha mão. Vi ali o meu fim. Passei a rezar para que tudo aquilo acabasse logo de uma vez.

A notícia se espalhou rapidamente no colégio, e chegou aos ouvidos do Irmão Júlio. Ele correu para o salão e, quando viu aquela barbárie interrompeu o jogo. Ele deu um verdadeiro sermão nos grandões, mandou todos saírem do salão, só ficando eu, o adversário, o juiz, e ele. Nesse instante eu aproveitei para pedir que devolvessem o Jeremias, mas ele se foi no bolso de um dos hooligans .

Enxuguei as lágrimas, respirei fundo, e dei início a uma virada histórica, com os gols saindo através dos chutes do Edu, meu segundo melhor botão em pontaria. Venci por 9x7, e no final não vibrei, não gritei, apenas corri para me abraçar com o Irmão Júlio, como se ali estivesse a figura do meu pai, meu protetor, e chorei.

Hoje fazem 45 anos daquele histórico jogo. Mas para mim parece que foi ontem!



Um comentário:

  1. Também fui um apaixonado "botonista". Tenho até uma crônica a esse respeito. Como sempre, muito interessante o texto do, também meu amigo e cardiologista, Carlos Henrique. Dela extraio uma alvirrubra conclusão: como seria bom que o Náutico tivesse um irmão Júlio a quem recorrer sempre que estivesse sendo espoliado por árbitros e bandeirinhas...

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