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11 de nov de 2017



Por ROBERTO VIEIRA

O pesadelo chega de repente.
A derrota.
O gol perdido debaixo do travessão.
A lágrima presa na garganta de criança explode.
Lembra do pai.
Um homem não pode chorar.
Enxuga o rosto na camisa suada.
O time adversário explode campeão.
O caminho de casa é longo e inesquecível.
Queria estar longe dali, bem longe.
Tão longe quanto o gol perdido debaixo do travessão.
Duque late no portão.
Ele passa por Duque sem carinho e sem afeto.
Deita na cama e pensa.
Um homem não pode chorar.
Pouco depois chega o pai.
Senta ao lado do filho deitado na solidão:
‘E o jogo, filho?’
O menino conta do gol perdido.
A derrota.
O horizonte perdido.
Olhos úmidos que não devem chorar.
O pai vai na gaveta da velha escrivaninha.
Pega uma revista antiga.
Lá está o garoto de dezessete anos chorando nos braços dos companheiros.
Campeão do mundo.
Lágrimas aos borbotões.
Pensamento no pai nas Minas Gerais.
‘Filho, um craque também chora!’
O filho explode em um oceano de lágrimas e sentimentos.

Imunes aos gols e ao tempo.

29 de ago de 2017




Por ROBERTO VIEIRA


O menino Chico Buarque recebe a notícia.

Dez anos de idade.

Chico não era Pagão.

Para seu desencanto o que era encanto acabou.

Chico que tinha fé nos gols.

Chico que tinha fé no Major Galopante.

Canhota triunfante.

Puskas que era a fera das feras da esfera.

A Hungria de Puskas derrotada pelo irmão alemão.

Chico passeia na Roma quente.

Verão.

Não acredita em mais nada.

Senão na bola chutada por Rahn.

Em casa, Lizst toca na radiola do pai.

Apaixonada

Apaixonante.

Bela.

Bartók.

O pai vibra silencioso com o milagre de Berna.

Lembrança dos amores da guerra.

Chico nada sabia dos amores e cala.

A expressão da derrota metafísica magiar na alma.

O desejo de liberdade nas ruas de Budapeste guardada.

Devia ser proibido debochar de quem se aventura em língua estrangeira.

Chico desconfia de todas as patentes.

A única verdade verdadeira do futebol.

São as maria-chuteiras.

Os sambas, a construção, o Pedro Pedreiro e as caravanas.

Chico atravessa o século imerso em almanaque.

Anos, meses, semanas.

Para estufar esse filó?

Para cada paralelepípedo da velha cidade onde brincam crianças de bola?

Só.

Parábolas em pentagramas.

O velho e gorducho Major.

Rugas.

Chico agarra o violão.

Chico é Grosics na solidão de mil anos atrás.

Chico desengaveta seus botões.

Para Toth para Bozsik para Czibor.

Para Bozsik para Kocsis para Bozsik.

Para Hidegkuti para Lantos para Puskas.

Gol da Hungria.

Gol da Hungria.

O menino Chico Buarque recebe a notícia.

Angustiado.

Dez anos de idade.

O leite derramado.

Chico vira o jogo da vida no apartamento do velho Rio de Janeiro.

Na paralela do impossível.

A Hungria se torna o Polytheama.

E se é verdade que a Hungria não é invencível.

Também é verdade que o Polytheama sabe apenas vencer.

Pois o menino Chico, como todos os meninos.

Fez de tudo e nada de se esquecer...

19 de ago de 2017



ROBERTO VIEIRA
Era uma noite muito estranha no Brasil de antão. Simonsen explicava que o mercado financeiro podia dormir em paz. Geisel reconhecia o governo português da Revolução dos Cravos – o Brasil foi o primeiro governo no mundo a reconhecer as flores. Chico Buarque tomava todas com alecrim. A Igreja abençoava os capitães lusos e a esquerda sem chumbo. Quatro mil abnegados estavam nas arquibancadas do Brindo de Ouro da Princesa para assistir os meninos do Guarani contra os pentacampeões do Santa Cruz pela primeira vez em Campinas.
O Guarani trazia Tobias no gol – futuro Sport e Corinthians. O soberbo e jovem Amaral estava na zaga. Flamarion de volante. O driblador Lola na meia. Volnei no comando do ataque. O técnico Zé Duarte suando frio no cargo.
O Santa Cruz era um esquadrão. Detinho no arco com Gena na lateral. Levi Culpi de zagueiro com Lula Pereira. Pedrinho fechando a esquerda. No meio? Givanildo e Luciano Veloso. O menino Zé Carlos com Fernando Santana na missão de fazer gols.
Tudo ia correndo para o zero a zero apesar do corre corre. Apesar da noite de frio.
Até que o Santa Cruz sacou Fernando Santana e colocou Paulo Ricardo de líbero. Satisfeito com o placar.
Deu tudo errado.
Fim de jogo, 28 minutos, a defesa tricolor para pedindo impedimento. O juiz José Marçal Filho manda o jogo correr. O ponta Afrânio recebe e cruza para Mingo balançar as redes de Detinho.
Guarani 1x0.
Presos políticos são libertados nas prisões de Caxias e Piniche.
Enquanto a torcida do Guarani cantava animada nos bares de Campinas, uma notícia passa de boca em boca.
A senha para a Revolução dos Cravos veio pelas ondas do rádio em Lisboa. Um disc jóquei que animava as noites lisboetas na rádio católica Renascença botara pra tocar uma música de José Afonso, uma balada contra a Guarda Nacional escrita em 1967. Uma certa ‘Girândola, Vila Morena’.
Era a senha para a revolta em Santarém.
Era o fim do regime salazarista.
Os sonhadores democratas no Brasil pensaram que talvez chegasse a hora de fazer a festa, pá!
Mas havia léguas a nos separar... e o Brasil treinava para enfrentar a Grécia do coronéis.

5 de ago de 2017



Por ROBERTO VIEIRA


Era véspera do aniversário do Sport.

12 de maio de 1954.

Para comemorar seu aniversário.

O Sport Club Recife convidou time famoso.

O Sport Club Corinthians.

O Corinthians chegou em Recife.

Goleou o América.

Empatou com o Náutico.

Achou que ia tomar caldo de cana e voltar com fama de invicto.

Chuva e renda de 764 mil reais em valores atuais.

Corinthians vai de Gilmar; Murilo e Olavo;

Idário, Goiano e Roberto;

Luizinho, Nardo, Carbone, Gatão e Simão.

O Sport veio com Carijó; Bria e Djalma;

Zé Maria, Wilson e Pinheirense;

Carlinhos, Dimas, Ênio, Celli e Ilo.

Luís Zago era o árbitro.

Zago antigo ídolo do Leão.

Surpresa.

Sete minutos e Ilo recebe na esquerda.

A bomba vai inapelável nas redes de Gilmar.

Carijó vira galo de briga.

Bria coloca Simão no bolso.

Zé Maria magistral.

Apenas Cláudio brilha no Timão.

Carlinhos no apagar das luzes faz 2 x 0.

E Zago ainda foi um bom anfitrião.

Fez que não viu o pênalti de Murilo sobre Ênio.

Vargas ganha memorial em Minas.

Ademar se lança ao governo em São Paulo.

Os pracinhas feridos na Guerra lutam por moradia.

O ano de 1954 será antessala de 64.

O Corinthians seria campeão de 54 em 55.

Mergulhando depois num longo jejum da história.

Corinthians que só voltou a sorrir em outubro de 1977.

Quando Geisel venceu a queda de braço com Frota.

Quando 54 era apenas um número na memória...

21 de jul de 2017



Por EDGAR MATTOS, MDM

Para justificar mudanças e fugir das incoerências alguém já sentenciou: “O homem é o erro em busca da verdade”. E outro, talvez um desses escorregadios políticos mineiros, foi mais explícito: “Não tenho compromissos com o erro”.
O fato é que, encarada de uma forma positiva, a mudança pode significar a oportunidade de uma segunda chance.
Assim é que:
- se tem remédio para os desencontros amorosos, mudando-se de mulher (felizmente estou com a mesma há mais de 50 anos...);
-se pode também mudar de partido político ou, pelo menos, de “lado político”, ou mais radicalmente de ideologia. Tantos foram os que, em passado recente, passaram de integralistas a comunistas. Ou, na hipótese mais comum, comunista na Juventude e, depois, conservadores na velhice;
-se pode, também, na busca incessante por (um) Deus, mudar de fé religiosa, às vezes até, de forma bem radical, trocando Jesus Cristo por Maomé, por exemplo;
-se pode, inclusive, mudar de preferência sexual (e até de gênero...), ou ampliando-a para ser “bi”, ou modificando-a para ser “trans” etc.etc – tantas são, hoje em dia, as chamadas “opções”, difíceis até de catalogar...
- se pode, ainda, trocar de residência, de país e até de nacionalidade, abandonando-se definitivamente o torrão natal;
- pode-se mudar de temperamento, amansando-se se dantes violento, ou, ao contrário, ficando-se irascível quando outrora tranqüilo e cordato; acontece...
- pode-se, por doença, regime ou simples envelhecimento, mudar a aparência, fazendo-se obeso o atleta, esquálido o dantes musculoso, feio o que era tido por formoso (sendo difícil o vice-versa, embora haja feiúras que até se atenuam com a idade...);
Todas essas mudanças são possíveis, aceitáveis e até comuns.
A única coisa que não se pode mudar é a torcida por um time de futebol.
Essa é uma opção definitiva, irrevogável (pelo menos quando se tem caráter)
Independentemente dos resultados, apesar dos insucessos, das derrotas, e até das humilhantes desclassificações, não se muda de time.
TRATA-SE DE PAIXÃO QUE NÃO SE ACABA NUNCA.
NÃO MUDA, EXAGERA-SE, CONVERTE-SE EM DEVOÇÃO.
POR ISSO É QUE, NESSA FASE CRÍTICA DO MEU TIME, SINTO NECESSIDADE DE  PROCLAMAR, PERANTE TODOS, A MINHA ABSOLUTA FIDELIDADE A ESCOLHA QUE, DESDE MENINO, FIZ:
SOU NÁUTICO – ACIMA E APESAR DE TUDO !
(e, como dizem os da Fanáutica: ATÉ MORRER!)