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6 de set de 2018





POR ROBERTO VIEIRA

João Pessoa foi assassinado na Confeitaria Glória, em Recife, no dia 26 de julho de 1930. O autor do atentado foi João Dantas. Alguns supõe que a motivação era passional - João Pessoa tornou pública a correspondência de João Dantas com sua amante, Anaíde Beatriz. Outros afirmam que a motivação era apenas política.

O assassinato mudou a história do Brasil. O candidato Getúlio Vargas, derrotado nas eleições presidenciais, beneficiou-se do episódio e comandou a Revolução de 30, escrevendo os destinos do Brasil durante 15 anos.

O atentado da Confeitaria Glória levou ao Estado Novo.

Vinte e quatro anos depois, outro atentado abalou a democracia brasileira. Capangas à serviço da guarda pessoal de Getúlio Vargas balearam o jornalista Carlos Lacerda. Lacerda sobreviveu, mas o atentado da Rua Toneleros enterrou o segundo governo Vargas, o qual se suicidou no dia 24 de agosto de 1954.

Vargas que assumiu o poder na esteira de um atentado se despediu no escândalo de outro atentado.

Seis décadas depois, uma facada mergulha o Brasil na noite democrática. Adélio Bispo de Oliveira repete os passos de João Dantas.

Jair Bolsonaro não é João Pessoa. Sua morte não muda o nome de Juiz de Fora nem a biografia de Ariano Suassuna.

Porém, o episódio ocorrido em Minas Gerais, carrega em si o poder de modificar a história. Como os assassinatos de Gandhi, Kennedy e Luther King.

Porquê a história jamais será a mesma depois do dia 6 de setembro de 2018. Um dia tão inesperado quanto aquele 26 de julho de 1930 na Confeitaria Glória.

25 de ago de 2018




Por ROBERTO VIEIRA


Ao contrário do que muitos pensam, o presidente Getúlio Vargas continuou escrevendo seu diário pessoal mesmo depois de 1942. Os textos nunca foram liberados para publicação. Os últimos escritos do diário presidencial tratam exatamente do seu último dia de vida...



 24 de agosto de 1954

A solidão do quarto é o que resta. Maior que a solidão dos pampas ou do exilio. Hoje seria aniversário dele, com seu sorriso e sua maneira de ver o mundo como uma bola de futebol ou uma fórmula química. Vinte e poucos anos de idade não é idade para se morrer, embora haja tanta bala e covardia nesse mundo. Mas um homem deve morrer de pé, com a arma na mão ou cavalgando pela vida. Ele morreu derrotado pelo inimigo invisível que o pai tentou ocultar do povo, pelo bem do povo, pela felicidade geral da nação, a mesma nação que agora me apunhala pelas costas.

Não é verdade. Eu sei que não é verdade. O povo me ama e admira; o homem comum que teve pela primeira vez os direitos reconhecidos em meu governo me ama como a um pai... curiosa essa analogia... como a um pai.

Meu filho andava solto pelas ruelas de São Borja. Sadio. Depois, se viu acarinhado e bajulado pelas moçoilas cariocas e ianques. Sempre simpático e irrepreensível como eu. Água de colônia, cabelo bem cortado, sorriso fácil nos lábios. Mas no momento em que ele precisava de mim eu não estava lá. Fui para Natal me encontrar com o Franklin e deixei meu filho nas mãos do destino. Pai miserável que colocou o país e a guerra adiante das dores do filho. Como Prestes.

Ele me sussurrou que estava tudo bem.  Pensando em mim. Porém, algo me dizia que nada estava bem e nem podia estar. Fingi acreditar. Acreditamos no que queremos acreditar. Em Deus, na Internacional, nos micróbios.

Prestes deve estar feliz, o filho da puta! Anita voltou sã e salva da Alemanha e está por aí. Mas a mãe do Prestes, a tal de Maria Leocádia, partiu pouco depois de Getulinho. Ambos enterrados com funerais de pompa e circunstância. Leocádia com aquele poetinha chileno recitando poemas no calor mexicano. Infelizmente, a repressão não consegue calar as mães. Hoje todos lembram de Leocádia e ninguém lembra do meu filho.

Ele nasceu no mês de agosto que tantos julgam de azar. Quando vi as fotos do banquete organizado pelo Paulo de Carvalho na posse da presidência da Federação Paulista de Futebol, imaginei que o futebol bem podia ser o caminho que abriria as portas ao meu sucessor. O futebol que absorveu tudo nesse país de saúva e café. A eleição unânime foi apenas um ritual para simular a democracia – essa palavra tão falsa e tão na moda. Mal Getulinho foi enterrado, lá estava o tal de Antônio Carlos Magalhães em seu lugar – eleito por unanimidade também. Porém, na hora da vitória, o Maximiliano Jimenez do Corinthians e o Ênio Juvenal da Portuguesa de Desportos discursaram como Neruda. O capitão Silvio Padilha rasgou elogios ao jovem pacificador do futebol paulista. O pacificador no pulmão de aço. Presidente por alguns dias.

Perguntei aos médicos sobre a alma de meu filho. Onde estava a alma de meu filho? Ninguém podia responder. Meu casamento também acabou ali. Darcy pensando que tinham feito um trabalho para me destruir nos terreiros. As forças ocultas foram mais definitivas que os amores mercenários.

O culpado era eu. Essas mães!

E assim é o Poder. Eu lhes dei meu filho. Eles me ameaçam com voz de prisão. Como se um presidente pudesse ser apeado da sela – já não bastam os washington luíses da vida. Do Poder restou apenas um campo de futebol no interior de São Paulo com o nome de Getulinho.

Mas será que eu deveria ter alarmado meu povo? Mesmo depois da morte de meu filho os jornais continuaram dizendo que estava tudo bem. Que a poliomielite estava resguardada na Argentina e no Uruguai. O Bonifácio Costa visitando as fronteiras gaúchas e proclamando que a pólio pertencia a Artigas. Quantos pais e mães não dormiram em paz acreditando em nossas mentiras? Melhor assim. Afinal de contas, no ano seguinte mandei instalar com o José Londres o Serviço de Poliomielite no Rio de Janeiro. Teve quem fizesse pouco: para que Serviço de Poliomielite se não existe pólio? Não entendiam que era remorso.

Remorso sem alarde, pois não havia certeza de cura nem para o Franklin. Se ainda houvesse uma vacina! Pena que os políticos só gastem dinheiro com armas e com o Poder, indiferentes ao sofrimento. A não ser quando o sofrimento atinge sua própria pele, como no caso do Franklin.

Mais fácil verbas para uma bomba atômica que para uma vacina, Getúlio!

24 de agosto. Onde está o maldito revólver? A vida nos lega dois males. Viver pouco ou viver demasiado. Talvez devesse ter partido ali mesmo com meu filho. Ali, onde morri pela primeira vez. Mas quem disse que não parti? De que me adiantaram a esperteza e a eternidade? Não me queriam e concorri na eleição. Não me queriam e ganhei a eleição. Assumi novamente meu cargo, fiz o melhor que poderia fazer um político nessa nação que só pensa em bola; combati o combate, desta vez com o parlamento – mas o parlamento não quer conversa comigo. Chatô desejando engolir o Wainer! Todos são corruptos nesse país e me querem jogar na lama por eu ser também liberal com o dinheiro e as comissões. Eu que não enriqueci; logo eu que apenas utilizei o dinheiro para lubrificar as mãos que votam e que só votam pelo Brasil com dinheiro em suas contas bancárias.

Deixei minha caneta com o Tancredo. Ele bem que merece ficar no meu lugar algum dia. Mas será que consegue? Terrível será ter um Lacerda comandando esse país. O que será do Lacerda que ainda acredita poder manipular tanques e fuzis apenas com o verbo? Lacerda que terá seus Gregórios presos no pelourinho.

Se Alzira usasse calças!

Melhor partir. A partida está terminada. Xeque-mate! Ou melhor, quase um xeque mate. Resta a última solução, aquela solução que me reservo desde a juventude. Deixar a vida para entrar na tal história. Deixar o mar de lama ferindo de morte o golpe militar. Evitar que o Brasil se torne uma Argentina – Peron não vai durar muito tempo brincando de zerar as contas externas.

Que falta me faz uma Intentona! Maldita República do Galeão!!

Melhor partir. A manhã já chegou e hoje seria o aniversário dele. A carta serve de lembrança. Quem sabe um dia, um destes trabalhadores não comanda este país? Um trabalhador que certamente se interesse por futebol como o Getulinho? Um presidente herdeiro da CLT?

Mas eu acho que se isso acontecer, ele terá o mesmo destino que eu.

Onde está o maldito revólver? Desta vez serei o dono e estancieiro do meu funeral. Minha segunda morte será apenas minha e do povo. Eu que ressuscitei com o voto do povo.

Quem sabe não encontro ainda hoje com meu filho para lhe dar os parabéns?

Quem sabe não descubro que tenho alma, afinal?



NOTA DO AUTOR: Getúlio Vargas Filho nasceu no dia 24 de agosto de 1918. Foi eleito presidente da Federação Paulista de Futebol no dia 14 de janeiro de 1943. Faleceu vítima da poliomielite no dia 2 de fevereiro de 1943. A causa de sua morte foi censurada pelo Estado Novo.

A morte do filho não interrompeu os escritos do presidente em seu diário, mas a partir de 1943, Getúlio se preocupou muito mais em ocultar seu conteúdo, assim como modificou o tom de suas confissões..





POR ROBERTO VIEIRA 


O Beira-Rio está triste.

Inconsolável. 

Claudiomiro se foi.

O artilheiro das primeiras horas.

O artilheiro do primeiro gol.

E a primeira vez ninguém esquece.

Claudiomiro Estrais Ferreira era assim.

Quando o Grêmio dominava os Pampas.

O Internacional assistia a tudo em silêncio. 

Construindo sua vingança. 

O Olímpico era imenso.

Então, o Inter seria maior que o Olimpo.

Todos riam.

Até que surgiu o Beira-Rio. 

E no grandioso estádio, Claudiomiro!

Maior que Eusébio. 

Claudiomiro que foi o princípio do Internacional que dominaria o Brasil.

O Internacional de Gainete, Pontes, Tovar e Sadi.

O Internacional da bóia cativa.

Claudiomiro foi o herói de uma Porto Alegre distante.

Coutinho do Rio Grande. 

O menino que amava doces e gols.

O homem que fez o Beira-Rio sorrir.

Gritar.

Beira-Rio que hoje vai chorar, quintanamente passarinho. 

Suas saudades ao Guaíba. 




10 de mar de 2018






ROBERTO VIEIRA  

Reza nossa cartilha católica pela modéstia. O próximo sempre deve ser elevado. Os últimos serão os primeiros. Esse blá blá blá que serviu para os cristãos embromarem os romanos. 

O futebol segue a mesma regra. Bom é o adversário. Fulano é o cara. Zizinho era melhor que Pelé. Um lenga lenga de gentilezas medievais antes dos cavaleiros se sangrarem até a morte. Porém, tudo dentro da maior fidalguia. 

A modéstia é então cultuada, principalmente no nosso rincão brasileiro de João melhor que José da chuteira pra fora. 

Eis que o craque Juninho Pernambucano decidiu contrariar os preceitos maternos e se declarou melhor cobrador de faltas que Zico. Disse ou não disse, não vem a questão. O direito é dele de puxar brasa pro salmão dele. O resultado era previsível. Pau em Juninho nas redes sociais. 

Juninho que tocou num fato histórico: Zico nunca fez gol de falta na Champions. 

Não cabe entrar no mérito da afirmação de Juninho. Ele acha que batia falta melhor que Zico. Ponto final. Os vascaínos também vão achar. Os flamenguistas dirão que é heresia. A polêmica deve entrar pela noite. 

Zico irá sorrir em Quintino. Passarinho. Gênio do futebol e da vida. 

Faz parte. Mas terrível será aquela nuvem de torcedores impregnados por Dona Modéstia, gritando de forma ululante:

'Pedante! Metido a besta! Boçal!'

Todos hipócritas e fariseus, esquecidos do que dizia o sábio Mário Quintana nas tardes de frio portoalegrense:

'A modéstia é a vaidade escondida atrás da porta...'

PS: A título de curiosidade. Falta pro teu time aos 45 do segundo tempo. Quem você escalaria pra bater? 

Zico ou Juninho?




8 de mar de 2018





Por ROBERTO VIEIRA 

Sete de março. 

201 anos da Revolução Pernambucana.

Pós feriado.

O primeiro feriado oficial desde 1817.

Clássico das Multidões com 13 mil imortais. 

A bandeira de Frei Caneca de luto.

Torcida tricolor se pisoteia.

Leão Coroado assiste a barbárie na Confederação do Equador. 

Polícia. 

Gás pimenta. 

Quarenta feridos no chão da Ilha.

Sete ambulâncias se revezam no atendimento. 

Lá fora.

Como se as tropas do Império invadissem a Província. 

Vândalos travestidos de torcedores ganham as ruas. 

Cruz Cabugá.

Padre Roma. 

Gervásio Pires.

Todas as ruas batizadas com nomes dos filhos da revolução. 

Um jogo de futebol. 

Uma quarta-feira. 

Pernambuco é o palco de um jogo sem vencedores. 

Porquê, como dizia Sastre.

A violência é sempre uma derrota. 

FOTO RENATO BARROS