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10 de mar de 2018






ROBERTO VIEIRA  

Reza nossa cartilha católica pela modéstia. O próximo sempre deve ser elevado. Os últimos serão os primeiros. Esse blá blá blá que serviu para os cristãos embromarem os romanos. 

O futebol segue a mesma regra. Bom é o adversário. Fulano é o cara. Zizinho era melhor que Pelé. Um lenga lenga de gentilezas medievais antes dos cavaleiros se sangrarem até a morte. Porém, tudo dentro da maior fidalguia. 

A modéstia é então cultuada, principalmente no nosso rincão brasileiro de João melhor que José da chuteira pra fora. 

Eis que o craque Juninho Pernambucano decidiu contrariar os preceitos maternos e se declarou melhor cobrador de faltas que Zico. Disse ou não disse, não vem a questão. O direito é dele de puxar brasa pro salmão dele. O resultado era previsível. Pau em Juninho nas redes sociais. 

Juninho que tocou num fato histórico: Zico nunca fez gol de falta na Champions. 

Não cabe entrar no mérito da afirmação de Juninho. Ele acha que batia falta melhor que Zico. Ponto final. Os vascaínos também vão achar. Os flamenguistas dirão que é heresia. A polêmica deve entrar pela noite. 

Zico irá sorrir em Quintino. Passarinho. Gênio do futebol e da vida. 

Faz parte. Mas terrível será aquela nuvem de torcedores impregnados por Dona Modéstia, gritando de forma ululante:

'Pedante! Metido a besta! Boçal!'

Todos hipócritas e fariseus, esquecidos do que dizia o sábio Mário Quintana nas tardes de frio portoalegrense:

'A modéstia é a vaidade escondida atrás da porta...'

PS: A título de curiosidade. Falta pro teu time aos 45 do segundo tempo. Quem você escalaria pra bater? 

Zico ou Juninho?




8 de mar de 2018





Por ROBERTO VIEIRA 

Sete de março. 

201 anos da Revolução Pernambucana.

Pós feriado.

O primeiro feriado oficial desde 1817.

Clássico das Multidões com 13 mil imortais. 

A bandeira de Frei Caneca de luto.

Torcida tricolor se pisoteia.

Leão Coroado assiste a barbárie na Confederação do Equador. 

Polícia. 

Gás pimenta. 

Quarenta feridos no chão da Ilha.

Sete ambulâncias se revezam no atendimento. 

Lá fora.

Como se as tropas do Império invadissem a Província. 

Vândalos travestidos de torcedores ganham as ruas. 

Cruz Cabugá.

Padre Roma. 

Gervásio Pires.

Todas as ruas batizadas com nomes dos filhos da revolução. 

Um jogo de futebol. 

Uma quarta-feira. 

Pernambuco é o palco de um jogo sem vencedores. 

Porquê, como dizia Sastre.

A violência é sempre uma derrota. 

FOTO RENATO BARROS


11 de nov de 2017



Por ROBERTO VIEIRA

O pesadelo chega de repente.
A derrota.
O gol perdido debaixo do travessão.
A lágrima presa na garganta de criança explode.
Lembra do pai.
Um homem não pode chorar.
Enxuga o rosto na camisa suada.
O time adversário explode campeão.
O caminho de casa é longo e inesquecível.
Queria estar longe dali, bem longe.
Tão longe quanto o gol perdido debaixo do travessão.
Duque late no portão.
Ele passa por Duque sem carinho e sem afeto.
Deita na cama e pensa.
Um homem não pode chorar.
Pouco depois chega o pai.
Senta ao lado do filho deitado na solidão:
‘E o jogo, filho?’
O menino conta do gol perdido.
A derrota.
O horizonte perdido.
Olhos úmidos que não devem chorar.
O pai vai na gaveta da velha escrivaninha.
Pega uma revista antiga.
Lá está o garoto de dezessete anos chorando nos braços dos companheiros.
Campeão do mundo.
Lágrimas aos borbotões.
Pensamento no pai nas Minas Gerais.
‘Filho, um craque também chora!’
O filho explode em um oceano de lágrimas e sentimentos.

Imunes aos gols e ao tempo.

29 de ago de 2017




Por ROBERTO VIEIRA


O menino Chico Buarque recebe a notícia.

Dez anos de idade.

Chico não era Pagão.

Para seu desencanto o que era encanto acabou.

Chico que tinha fé nos gols.

Chico que tinha fé no Major Galopante.

Canhota triunfante.

Puskas que era a fera das feras da esfera.

A Hungria de Puskas derrotada pelo irmão alemão.

Chico passeia na Roma quente.

Verão.

Não acredita em mais nada.

Senão na bola chutada por Rahn.

Em casa, Lizst toca na radiola do pai.

Apaixonada

Apaixonante.

Bela.

Bartók.

O pai vibra silencioso com o milagre de Berna.

Lembrança dos amores da guerra.

Chico nada sabia dos amores e cala.

A expressão da derrota metafísica magiar na alma.

O desejo de liberdade nas ruas de Budapeste guardada.

Devia ser proibido debochar de quem se aventura em língua estrangeira.

Chico desconfia de todas as patentes.

A única verdade verdadeira do futebol.

São as maria-chuteiras.

Os sambas, a construção, o Pedro Pedreiro e as caravanas.

Chico atravessa o século imerso em almanaque.

Anos, meses, semanas.

Para estufar esse filó?

Para cada paralelepípedo da velha cidade onde brincam crianças de bola?

Só.

Parábolas em pentagramas.

O velho e gorducho Major.

Rugas.

Chico agarra o violão.

Chico é Grosics na solidão de mil anos atrás.

Chico desengaveta seus botões.

Para Toth para Bozsik para Czibor.

Para Bozsik para Kocsis para Bozsik.

Para Hidegkuti para Lantos para Puskas.

Gol da Hungria.

Gol da Hungria.

O menino Chico Buarque recebe a notícia.

Angustiado.

Dez anos de idade.

O leite derramado.

Chico vira o jogo da vida no apartamento do velho Rio de Janeiro.

Na paralela do impossível.

A Hungria se torna o Polytheama.

E se é verdade que a Hungria não é invencível.

Também é verdade que o Polytheama sabe apenas vencer.

Pois o menino Chico, como todos os meninos.

Fez de tudo e nada de se esquecer...

19 de ago de 2017



ROBERTO VIEIRA
Era uma noite muito estranha no Brasil de antão. Simonsen explicava que o mercado financeiro podia dormir em paz. Geisel reconhecia o governo português da Revolução dos Cravos – o Brasil foi o primeiro governo no mundo a reconhecer as flores. Chico Buarque tomava todas com alecrim. A Igreja abençoava os capitães lusos e a esquerda sem chumbo. Quatro mil abnegados estavam nas arquibancadas do Brindo de Ouro da Princesa para assistir os meninos do Guarani contra os pentacampeões do Santa Cruz pela primeira vez em Campinas.
O Guarani trazia Tobias no gol – futuro Sport e Corinthians. O soberbo e jovem Amaral estava na zaga. Flamarion de volante. O driblador Lola na meia. Volnei no comando do ataque. O técnico Zé Duarte suando frio no cargo.
O Santa Cruz era um esquadrão. Detinho no arco com Gena na lateral. Levi Culpi de zagueiro com Lula Pereira. Pedrinho fechando a esquerda. No meio? Givanildo e Luciano Veloso. O menino Zé Carlos com Fernando Santana na missão de fazer gols.
Tudo ia correndo para o zero a zero apesar do corre corre. Apesar da noite de frio.
Até que o Santa Cruz sacou Fernando Santana e colocou Paulo Ricardo de líbero. Satisfeito com o placar.
Deu tudo errado.
Fim de jogo, 28 minutos, a defesa tricolor para pedindo impedimento. O juiz José Marçal Filho manda o jogo correr. O ponta Afrânio recebe e cruza para Mingo balançar as redes de Detinho.
Guarani 1x0.
Presos políticos são libertados nas prisões de Caxias e Piniche.
Enquanto a torcida do Guarani cantava animada nos bares de Campinas, uma notícia passa de boca em boca.
A senha para a Revolução dos Cravos veio pelas ondas do rádio em Lisboa. Um disc jóquei que animava as noites lisboetas na rádio católica Renascença botara pra tocar uma música de José Afonso, uma balada contra a Guarda Nacional escrita em 1967. Uma certa ‘Girândola, Vila Morena’.
Era a senha para a revolta em Santarém.
Era o fim do regime salazarista.
Os sonhadores democratas no Brasil pensaram que talvez chegasse a hora de fazer a festa, pá!
Mas havia léguas a nos separar... e o Brasil treinava para enfrentar a Grécia do coronéis.