31 de dez de 2016





Por CARLOS HENRIQUE MENESES, MDM 

Todos os alvirrubros reverenciam o nome de Baiano. Um dos principais jogadores do futebol pernambucano da primeira metade da década de 80, Baiano era um meia-atacante que gostava de atuar próximo à área e, principalmente, de fazer gols. Destro, excelente cobrador de faltas, dono de um drible curto, bom cabeceador, e possuidor de uma grande visão de jogo.
O Náutico foi Bicampeão em 84/85. Foi a era de ouro de Baiano pelo Náutico. Foi o terceiro maior artilheiro do Timbu, com 181 gols em 305 jogos. Baiano ganhou ainda o Troféu Chuteira de Ouro, como o maior artilheiro do Brasil nos anos de 1982 e 1983. Baiano é o maior artilheiro do Mundão do Arruda, com 128 gols, sendo 70 deles marcados pelo Náutico. É o maior artilheiro do Campeonato Pernambucano, com 206 gols
Toda uma geração de torcedores do Náutico foi formada naquela época, sendo Baiano (capixaba de nascimento) o maior ídolo de uma legião de alvirrubros.
O que pouca gente sabe é sobre o início de tudo. Como Baiano veio parar no Náutico. A sua chegada em Rosa e Silva se deu graças ao trabalho discreto e silencioso de um ilustre torcedor, na época colaborador da diretoria de futebol. O seu nome, José Piauhylino de Melo Monteiro Filho.
Novembro de 1979. A tabela do brasileirão marcava para o Arruda o jogo Santa Cruz x Rio Branco–ES. Fui ao estádio com o meu primo João Eudes para assitir o Santa Cruz jogar. O que vimos foi de encher os olhos. Um baixinho, meio gordinho do Rio Branco com a camisa 8, só não fez chover naquela tarde. Fez 2 golaços e deu o passe para o terceiro, tendo o Santa que correr atrás do prejuízo, se contentando no final com o placar de 3x3. Há, o nome do baixinho era Baiano.
Foi o suficiente. Em fevereiro de 1980 Walmecir José Margon fazia a sua estréia pelo Santa Cruz, num casamento que durou até dezembro de 1981. No início de 1982 ele foi vendido ao Fluminense, mas não teve o mesmo sucesso lá pelas Laranjeiras.
Fez apenas 5 gols em 5 meses. Ficava muitas vezes na reserva. Como a sua alegria era fazer gols, ele vivia um momento triste em sua carreira. Em 16 de maio de 82 o Fluminense veio ao Recife jogar contra o Santa Cruz pela Copa dos Campeões. Baiano estava na reserva do fluminense. O jogo foi no Estádio dos Aflitos. Ainda no hotel da concentração do Fluminense começou um assédio por parte do Sport para levá-lo para a Ilha do Retiro.
Baiano voltou ao Rio de Janeiro junto com a delegação do fluminense, mas com a cabeça voltada para Pernambuco. O assédio do Sport o deixou encantado com a possibilidade do retorno ao Recife. Alguns contatos telefônicos foram feitos dos Aflitos para o jogador, que confidenciou o seguinte: "se tivesse que voltar por espontânea vontade, seria para o Santa Cruz ou para o Náutico"! Baiano guardava mais simpatia pelo alvirrubro que do Sport.
José Antonio Alves de Melo garantia que Baiano desembarcaria na terça-feira à tarde vestido com a camisa do Sport. Tudo acertado entre os clubes. Seriam 300 mil à vista. Ele viajou para o Rio com uma camisa rubro-negra.
Geraldo Uchôa de Moraes pelo Náutico ainda tinha um fio de esperança de ver Baiano nos Aflitos. É aí que entra em cena o herói anônimo que foi o responsável direto pela vinda do artilheiro para o Náutico.
Geraldo Uchôa de Moraes, sabedor da grande amizade existente entre o alvirrubro ilustre José Piauhylino Monteiro Filho e o Almirante Heleno Nunes, ex-presidente da CBD, e ainda com forte influência na entidade, fez um pedido desesperado: Vá ao Rio e traga Baiano para o Náutico. Não temos dinheiro para pagar à vista, mas eu avaliso tudo que for preciso.
No domingo pela manhã chegava ao Rio de Janeiro aquele que, mais tarde, se tornaria no principal responsável pela vinda do maior ídolo alvirrubro dos anos 80. No encontro com o Almirante a conversa rolou solta. Afinal, não é todo dia que grandes amigos separados por grandes distâncias se encontravam. Depois de uma longa conversa regada a muito café, o tiro de misericórdia: o pedido para que o Almirante intercedesse junto ao Fluminense para que Baiano fosse para o Náutico, e não para o Sport.
Na segunda pela manhã o Almirante fez uma ligação para o presidente do Fluminense, Sílvio Kelly dos Santos, e disse que gostaria de ver o Baiano vestindo a camisa do Náutico. Falou que o Náutico pagava a mesma coisa que o Sport estava pagando, só que em 10 promissórias de 30 mil, todas avalisadas pelo dirigente Geraldo Uchoa. Silvio Kelly pediu um tempo, e disse que à tarde ligaria de volta.
No início da tarde da segunda-feira o presidente Silvio Kelly dos Santos, atendendo a um pedido especial feito pelo Almirante Heleno Nunes, assinava a liberação de Baiano para o Clube Náutico Capibaribe, nas condições oferecidas pelo mandatário. Só pediu uma coisa. Que na transação fosse incluído um jovem atacante dos juniores do Náutico chamado Piranha. Isso mesmo, Baiano viria para o Náutico e Piranha, dos juniores iria para o Fluminense.
Piauhylino foi pego de surpresa. Não sabia da existência desse indivíduo em Rosa e Silva. Pediu um minuto, ligou para Geraldo Uchôa, e ouviu do dirigente que o Fluminense poderia levar Piranha, Tucunaré, Tilápia, Traíra, e qualquer outro que porventura quisesse. Piranha, que no Rio foi rebatizado de Ferreira, se mandou de mala e cuia para a Cidade Maravilhosa.
Na terça feira pela manhã havia uma romaria de rubro-negros no aeroporto à espera de Baiano. José Antonio Alves de Melo, responsável direto pela "contratação", levou até a charanga "Bafo do Leão" para os Guararapes.
Do outro lado da Imbiribeira, em frente à loja Imperial Diesel, Geraldo Uchôa aguardava o momento de atravessar a avenida com a charanga de Zezinho do Trombone, os gritos de Zequinha, já bebum e caindo pelas tabelas, as bandeiras da Timbucana, e dezenas de alvirrubros.
Quando pousou o avião vindo do Rio de Janeiro, e Baiano apareceu na escada do avião vestido de alvirrubro, a decepção dos rubronegros foi grande, muito grande. E a alegria e a festa alvirrubra foi ensurdecedora.
O nosso herói anônimo voltou ao Recife apenas no dia seguinte, discreto, como se nada tivesse acontecido. Passou pelos saguão do aeroporto como um mero deconhecido. Muitos são os valores que santificam os heróis. A atividade grandiosa em favor de uma sociedade, o incomparável sentimento de solidariedade, o sacrifício pela causa do dever e da honra, as renúncias profundas objetivando resultados felizes para os outros, tudo isso e muito mais poderia ser dito sobre os heróis anônimos.
Nós alvirrubros temos o nosso herói anônimo. Ele foi o responsável direto por uma página de glórias no futebol do Clube Náutico Capibaribe. Obrigado Dr. José Piauhylino de Melo Monteiro!!!!


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