Por ROBERTO VIEIRA

Um dia ela vai ser apenas uma memória.
Um lápis verde desenhando o verde num papel. Um lápis.
Virtual como todas as florestas.
Um dia seu filho vai te perguntar sobre a Amazônia.
Aquele mar imenso oceano de esperança, e de cobiça.
E você vai responder que agora é soja, gado e biodiesel.
Anteontem a Ministra Marina se demitiu.
Marina que era amiga íntima de Chico Mendes.
Chico Mendes cujo corpo cravejado de balas era exibido em praça pública pelos políticos.
Políticos que se renderam aos atributos dos antigos donos do poder.
Como é de praxe para quem chega ao Planalto.
Discordo de vários pontos com a Ministra Marina.
Mas não posso deixar de escrever sobre a sua grandeza.
Pois se ela não nasceu em Garanhuns, também nasceu deserto.
Nasceu areia espalhada pelo vento das migrações forçadas do homem em solo brasileiro.
Nasceu pobre e cega.
Pois quem não lê. Não sabe, não ouve, não vê.
Apenas crê na bondade de um misericordioso ser que há de trazer verde para uma vida cinza.
Empregada doméstica aos dezesseis anos.
Formada aos vinte e seis.
Radicalmente defensora de suas crenças.
Ah, eu não me canso de admirar estes radicais.
Como são livres esses radicais!
Marina defendia e defende a floresta.
De uma forma tão apaixonada que nós a imaginamos... errada.
Pois ter uma paixão tão avassaladora hoje em dia é bobagem.
Inútil paisagem.
Mas eu não me canso de admirar esta Marina que pensa diferente dos articulados articulistas.
Senhores, como é fácil defender o erário.
Como é simples expurgar o agrário.
Ontem, a Marina que é contra as represas.
Contra os latifundiários.
Contra o que pensam as grandes corporações.
Ontem, esta Marina disse adeus.
Vai sem um escândalo político.
Vai deixando os antigos companheiros furibundos.
Vai para o verde onde habitam os que amam a floresta.
Floresta que desaparece a cada dia.
Em si mesma. Ensimesmada. Desamparada. Ozônica.
Pois a Amazônia desde que conheceu o bicho homem branco.
É apenas uma Amazônia ilegal.
Transgênica.
Transamazônica...
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