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2 de abr. de 2013






Rigoberto Souza regressa a um novo mundo.

Seis anos de exército.

Um ir e vir constante. Chegadas e despedidas.

Pediu pra sair.

Recife, Campina Grande, João Pessoa, Rio de Janeiro.

Itália.

Pede baixa.

A Constituição permitia a quem lutara na Itália um bom emprego na Previdência. 

As noites eram longas.

Tiros. 

Fuzis.

Você deixa a guerra mas a guerra se recusa a abandonar você.

Serão quarenta e dois anos comissionado como fiscal na Previdência.

Artigo Suplementar. 

Um ano. 

Concurso e exame de admissão no colégio estadual de Natal.

Aprovado, faz curso científico em Recife, cursando os três anos no colégio Pedro Augusto.

Vestibular para odontologia.

Medicina ia demorar muito tempo. 

Também pensou fazer engenharia em Coritiba.

Mas chega o Ano Santo de 1951.

E em fevereiro de 1951 chega a Faculdade de Odontologia. 

1951 que também trouxe o amor ao coração de Rigoberto...

26 de mar. de 2013







Após três dias da chegada a Nápoles.

Desembarcar e rumar até Livorno.

Numa barcaça de desembarque de infantaria (LCI).

Tempestade. Frio.

Não era permitido vomitar no no mar.

Para não deixar vestígios.

A ordem era vomitar num tonel – se desse tempo.

Fumar era proibido.

Noite.

A barcaça ficava parada no mar.

Minas.

A comida era a mesma ração de terra.

Rigoberto não conseguiu comer pela dor do abscesso no pescoço.

Livorno estava pior que Nápoles.

Mais destruição.

Mais perto do front.

Pontas de cigarro disputadas a tapa pelo italianos.

'Mangiare, mangiare!'

Quarenta e cinco dias sem tomar banho.

Primeira refeição nos arredores de Pisa.

Primeiro banho em Porretta Termi, de banheira.

Depois do banho.

Perdeu a faca de trincheira.

Mas não foi punido, não havia punição ao perder o armamento.

A guerra explodia no horizonte.

7 de mar. de 2013




19 de fev. de 2013




Por que a vida segue determinado rumo? Somos donos e heróis de nós mesmos? Apenas um tolo acha que sim.

Sêneca ensinava:

'O destino conduz a quem consente; arrasta a quem resiste...'






Segundo R.I.

Uma noite acordado.

Os soldados cariocas sonhavam com a expulsão.

Fugir da guerra.

Rigoberto desejava ao contrário, servir a Pátria. Mas ainda não descobrira como.

Segundo R.I.. Noite de plantão. Quem dava o plantão, no dia seguinte fica no regimento, porém sem realizar nenhuma tarefa. Após o plantão, o sargento Rigoberto descobre que a Força Expedicionária Brasileira (FEB) precisava de motoristas.

Rigoberto não dirige.

Mas fica observando o teste de quem desejava dirigir na FEB.

O capitão paraibano Geraldo de Alvarenga Navarro chega.

Olha pra Rigoberto, e pergunta: 'Você é motorista, sargento?'

Rigoberto diz que não.

O capitão parece não ouvir.

'Entre no carro!'

O capitão manda ele dirigir pra frente.

Rigoberto lembra do que haviam feito os militares durante o teste.

Passa  a marcha.

O carro vai pra frente.

O capitão manda ele dar ré.

Rigoberto passa a marcha e o carro vai pra trás.

O capitão manda ele sair do carro.

No dia seguinte, o sargento Rigoberto é convidado a fazer sua declaração de herdeiros.

A Itália era uma realidade...

Rigoberto agora tinha seu destino ligado a Companhia de Canhões Antitanque.

Embora jamais houvesse avistado um tanque na vida...





14 de nov. de 2012






A Segunda Guerra Mundial chegou devagarinho aos jornais. O dinheiro para a cobertura esportiva foi minguando, assim como foi rareando o dinheiro para o futebol profissional. Os campeonatos foram esvaziados, as excursões se tornaram coisa de louco – vide a viagem suicida de navio do Santa Cruz ao norte do país.

As atenções estavam voltadas para os palcos da guerra, entre os quais, a costa brasileira, com submarinos do Terceiro Reich afundando e metralhando nossos compatriotas. Enquanto Rudolf Hess planava sobre Glascow, sendo capturado ao pisar em solo britânico, a bola buscava sobreviver em gramados pernambucanos. O Sport de Ademir Menezes e Pirombá era o grande time de 1941, metendo medo até nos grandes do sul do país. Só quem não tinha medo era o América de Leça, Capuco, Edgar e Pinhegas, trunfo mais que suficiente para levantar o Torneio Início daquele ano.

O sorteio do Torneio colocou o América frente ao Santa Cruz. Um córner na prorrogação deu a vitória ao clube esmeraldino que assistiu de camarote a vitória do Náutico sobre o Sport, campeão de 1940 e favorito ao troféu. Por força do regulamento, as finais do certame foram marcadas para oito dias depois. O América passou pelo Great Western e o Náutico bateu o Flamengo. Na finalíssima, o América venceu o Náutico na prorrogação pela diferença de um córner. 


Já em 1943, Julinho estava lá para colocar classe no ataque americano. O título estadual fugiu pelas brigas incessantes da Federação Pernambucana – os rubro negros levando a taça pra casa com parte do campeonato ainda por disputar. Restou ao América ser campeão do menor Torneio Início da história. Apenas quatro equipes apareceram para disputar o troféu: o próprio América, o Great Western, o Flamengo e o Sport. A guerra impregnava o desporto na mesma intensidade com que tomava conta do planeta Terra. As equipes brigavam no gramado e nos bastidores; bola mesmo, pouca gente lembrava de jogar.  

13 de nov. de 2012






O que você escreveria no meio do nada?

Cercado de incertezas e guerra?

Diante do exército alemão que lutava por sua sobrevivência?

No caos remoto da Campanha da Itália?

Talvez lembrasse dos tempos de criança ou escrevesse sobre o sofrimento em terra tão inóspita. Talvez se queixasse da separação e reclamasse das futuras condições da batalha e do rancho reinventado para a tropa brasileira.

Em 1944, uma das cartas do então Sargento Rigoberto é redigida. Escrita no dia 6 de outubro, o texto é simples e objetivo sem espaço para nada além da saudade familiar e do desejo irrestrito de vitória. O fato é surpreendente: naquele 6 de outubro a FEB ocupava as cidades de Fornaci e Coreglia Antelminelli, sendo o instante de puro movimento e incerteza sob a temperatura que insistia em trazer frio e lama para o cotidiano do soldado brasileiro.

Porém, mais inesperado é que três semanas antes, nada daquilo existia. O Sargento Rigoberto fora convocado pela sua discutível habilidade na direção de um jipe.


A vontade de ajudar o Brasil na guerra era grande. O Sargento Rigoberto vai até o centro de recrutamento da Força Expedicionária perto de Deodoro. Lá é recebido por um Major de mau humor que vai logo perguntando quem ele é, de onde vem, se deseja ir pra Itália numa aventura. 

Rigoberto é informado que não tem vaga. 

O Major era João de Oliveira Cintra, enteado do General Dutra casado em segundas núpcias com Dona Santinha.

Só que o destino faz sua estrada na vida dos homens. No universo de soldados que não desejavam ir para a guerra, Rigoberto descobriu que faltavam motoristas ao Exército Brasileiro. Por uma destas manobras do destino, durante um dos exames para motoristas na Campanha da Itália, Rigoberto assistindo curioso as manobras, o capitão paraibano Geraldo de Alvarenga Navarro olhou para o Sargento Rigoberto e não se fez de rogado:

'Você é motorista, Sargento?'

Rigoberto se aboletou no jipe e sem nunca ter dirigido um veículo, acertou a primeira marcha e a marcha ré apenas com a experiencia de observar os motoristas no quartel.

No momento seguinte, Rigoberto concluía sua declaração de herdeiros.

Sem nunca ter visto um canhão anticarros, Rigoberto estava escalado como motorista da Companhia de Canhão Anticarros.

A Itália passava a ser realidade.



O JIPE DO SARGENTO RIGOBERTO





6 de nov. de 2012





Todas as cartas eram censuradas. As cartas de amor. As cartas de pai pra filho. De filho pra pai. Cartas contando o prosaico da guerra. Cartas desesperadas e com medo. A censura que já estava estabelecida pelo Estado Novo, ganhava contornos heroicos. Censurava-se pelo esforço de guerra, contra os inimigos da Quinta Coluna...



Um mês na Itália e nada de cartas e notícias de casa. O serviço postal brasileiro não estava adaptado ao esforço de guerra e o moral das tropas se ressentia profundamente do fato. Era do conhecimento de todos a necessidade do afago sentimental contido nas mensagens vindas do lar distante. Mas a censura brasileira foi longe demais. Cada carta era considerada uma provável missiva de um espião. Cada página era revirada demoradamente a procura de pistas que pudessem denunciar as manobras no campo de batalha italiano.

Ironicamente, outra fonte de atraso na correspondência foi  causado por uma ideia 'genial' dos brasileiros. Reservar todo o carregamento de cargas para o derradeiro transporte aéreo, visando economizar combustível. De tal forma, os militares brasileiros passaram dezembro e janeiro imaginando-se ignorados pelas famílias. Notícias mesmo apenas a partir de fevereiro de 1945, quando milhares de envelopes foram despejados sobre os desesperançados pracinhas.

Foi desta maneira que a censura alcançou a distante Sabugi. O envelope verde amarelo de Rigoberto sendo escrutinado pelos militares antes de chegar as mãos do Sr. João Alfredo de Souza na Paraíba do Norte.

Rigoberto quis escrever sobre a morte em sua volta. Sobre os tiros, as armadilhas, os alemães encastelados em arapucas mortais. Mas não podia. Qualquer frase de cunho negativo seria apagada pelos censores. As palavras sobre a guerra deveriam ser otimistas, repletas de vitórias e júbilo.

Nome da cidade, endereço, qualquer sinal de localização do batalhão? Tudo sumariamente apagado.

Entretanto, na solidão do paraibano perdido na Velha Bota, cercado de incerteza sobre o futuro, a simples lembrança de que alguém lembrava do seu nome na distante Sabugi já era suficiente para desejar viver.

Viver, vencer e voltar pra casa.

E não existe casa mais bela que a lembrança de casa em um mundo em guerra... 



31 de out. de 2012




A noite é quente.

O silencio da noite incomoda o eterno soldado.

Pistóia.

Um gosto de morte passa pelos seus lábios.

Rio Arno.

Rigoberto deseja chamar pelos amigos que ficaram longe no tempo, mas eles não existem mais.

Sepultados entre os mortos de outras batalhas romanas.

Godos, visigodos, longobardos, carolíngios.

Ansiavam pelo dia de retornar ao Brasil.

465 mortos.

13 pernambucanos.

6 paraibanos.

Desaparecendo longe de suas terras.

Na pátria de Dante.

Mas onde as palmeiras?

Onde o sabiá?

Onde o silencio das ondas do mar quebrando no final da tarde?

Pistóia e a Toscana eram apenas lembrança de sofrimento e sangue.

Rigoberto abre a carta.

As cinzas irão repousar no Rio de Janeiro.


A noite é quente.

O silencio da noite embala o eterno soldado.

Pistóia.

Um gosto de Alessandria passa pelos seus lábios.

Florença enfim ficou para trás.

Rio Arno.

Todos estão em casa...

23 de out. de 2012



VATICANO, 1945



O papa Pio XII observa da sacada.

Quatro soldados estrangeiros em solo sagrado.

O silencio do Papa atravessara a Guerra como uma absolvição dos pecados alemães. Pio XII imaginou a Santa Sé destruída. Escombros, fogo, destruição e o fim do cristianismo sob seu governo.

O Vaticano era uma invenção fascista. O Tratado de Latrão celebrara a paz entre os papas e o regime de Mussolini. A Igreja ressurgia com um pequeno território encravado na Cidade Eterna. Outrora potência militar, restava comemorar os dedos e o adeus dos anéis.

Rigoberto observa a vastidão dos muros da Basílica. Sob seus pés repousa Pedro. A guerra se encaminha para seu final. Os leões e os cristãos fingem esquecer seu Coliseu. Mas na Itália a luta prossegue. Comunistas embalam o sonho de dominar toda a península. Transformar a Sé em terreno da foice e do martelo.

Mas o Papa não era culpado pela barbárie européia. Isolado e refém do Duce e do Fuhrer, Sua Santidade esteve a um passo de ser eliminado como parte da Solução Final. Mesmo assim, em 1943, seu discurso pediu pelos judeus em Holocausto. Os nazistas ameaçaram com o cadafalso. Os americanos ameaçaram com o bombardeio. Apenas a negociação dura e fria impedira um desastre de proporções inimagináveis.

Rigoberto fica sério.

O Papa solicitou que as tropas brasileiras visitassem o Vaticano.

O Pontífice desejava abençoar os pracinhas.

Aqueles homens de uma terra onde a Igreja ainda era começo, meio e fim.

Rigoberto faz o sinal da cruz.

Cumpriu o seu dever com honra.

Hora de voltar para casa.

O Papa segue enfraquecido no cargo.

Os jornais começam a denomina-lo 'O Papa de Hitler'.

E a tarde cai sobre o Tibre...

21 de ago. de 2012



2. DANTZIG E POMBAL







Primeiro veio a mentira.

Os jornais publicam a invasão da Alemanha pelas tropas polonesas.

Era o dia primeiro de setembro de 1939, sexta-feira.

Para grande parte do povo brasileiro, a notícia é indiferente.

Qual o significado de uma luta pelo Corredor de Dantzig para quem vive sob um regime ditatorial.

Qual o significado da democracia se Getúlio Vargas é o Pai dos Pobres?

O Brasil tenta se manter neutro em relação aos países em conflito.

A Inglaterra e a França cumprem acordo com a Polônia e entram na guerra.

Os EUA de Roosevelt assistem ao combate silenciosos.

O Japão faz cara feia com Hitler.

Mussolini tem medo.

Longe do Báltico, o rio Piancó desliza calmo na tarde de Pombal.

Antiga terra das tribos Cariri.

Pombal assistiu a muitas batalhas como aquela por Varsóvia.

A terra é árida. Chove pouco.

Quem nasce em Pombal não tem medo da SS...