6 de nov. de 2012





Todas as cartas eram censuradas. As cartas de amor. As cartas de pai pra filho. De filho pra pai. Cartas contando o prosaico da guerra. Cartas desesperadas e com medo. A censura que já estava estabelecida pelo Estado Novo, ganhava contornos heroicos. Censurava-se pelo esforço de guerra, contra os inimigos da Quinta Coluna...



Um mês na Itália e nada de cartas e notícias de casa. O serviço postal brasileiro não estava adaptado ao esforço de guerra e o moral das tropas se ressentia profundamente do fato. Era do conhecimento de todos a necessidade do afago sentimental contido nas mensagens vindas do lar distante. Mas a censura brasileira foi longe demais. Cada carta era considerada uma provável missiva de um espião. Cada página era revirada demoradamente a procura de pistas que pudessem denunciar as manobras no campo de batalha italiano.

Ironicamente, outra fonte de atraso na correspondência foi  causado por uma ideia 'genial' dos brasileiros. Reservar todo o carregamento de cargas para o derradeiro transporte aéreo, visando economizar combustível. De tal forma, os militares brasileiros passaram dezembro e janeiro imaginando-se ignorados pelas famílias. Notícias mesmo apenas a partir de fevereiro de 1945, quando milhares de envelopes foram despejados sobre os desesperançados pracinhas.

Foi desta maneira que a censura alcançou a distante Sabugi. O envelope verde amarelo de Rigoberto sendo escrutinado pelos militares antes de chegar as mãos do Sr. João Alfredo de Souza na Paraíba do Norte.

Rigoberto quis escrever sobre a morte em sua volta. Sobre os tiros, as armadilhas, os alemães encastelados em arapucas mortais. Mas não podia. Qualquer frase de cunho negativo seria apagada pelos censores. As palavras sobre a guerra deveriam ser otimistas, repletas de vitórias e júbilo.

Nome da cidade, endereço, qualquer sinal de localização do batalhão? Tudo sumariamente apagado.

Entretanto, na solidão do paraibano perdido na Velha Bota, cercado de incerteza sobre o futuro, a simples lembrança de que alguém lembrava do seu nome na distante Sabugi já era suficiente para desejar viver.

Viver, vencer e voltar pra casa.

E não existe casa mais bela que a lembrança de casa em um mundo em guerra... 




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