Por um destes motivos insondáveis do destino, a
Bahia caiu de amores pelo América e vice-versa. A história teve início no dia 4
de dezembro de 1932, quando o Sport Clube Bahia venceu o América por 2 a 1. O
tricolor baiano tinha apenas um ano de vida, mas já nascera campeão, resultado
da fusão dos atletas do Clube Bahiano de Tênis e da Associação Atlética da
Bahia. O esquadrão da avenida Princesa Isabel virou tormento dos clubes
pernambucanos. Em 1932, o Bahia bateu a seleção pernambucana (5x3), Sport
(2x1), Náutico (2x1), Santa Cruz (3x2) e até o Combinado Náutico/Sport (3x2). A
única derrota do Bahia ante clubes da terra de Frei Caneca naquele ano foi a
goleada sofrida por 3x0 para o Santa Cruz.
A partir deste primeiro encontro, o América refez o
caminho do Bahia em sentido contrário, passando a visitar a Bahia com
assiduidade. O advento do jornalista Hélio Pinto – americano de carteirinha –
aliado ao título magistral de 1944, ensejaram a vitoriosa excursão de 1945,
momento em que Julinho e Capuco só não fizeram chover em Salvador.
Na estreia, o América bateu por 2x1 ao Galícia, time
da colonia espanhola de Salvador. Tal foi o impacto da vitória e do futebol
apresentado, que no dia 15 de março de 1945, o América recebe convite para
enfrentar o clube mais popular da Bahia naqueles tempos, o Ypiranga de
Salvador. A equipe formou com Leça; Deusdedith e Galego; Pedrinho, Capuco e
Rubens; Zezinho, Julinho, Djalma, Edgard e Oséas. O Ypiranga foi escalado com
Muniz; Pitangueira e Gregório; Lourenço, Ferreira e Catita; Americano, Brás,
Palito, Velau e Isaltino. Djalma bate o centro às 21:50 e o América se lança ao
ataque, o Ypiranga equilibra as ações quando aos 5 minutos Djalma arremata com
violência, Muniz rebate e Zezinho inaugura o marcador. Os baianos partem em
busca da igualdade no marcador, conseguida através de um petardo de Isaltino.
Intervalo. O empate não satisfaz o América.
Logo no início da segunda etapa, Julinho serve a
Zezinho que marca seu segundo gol, colocando o América novamente em vantagem no
marcador. A pressão pernambucana não diminui, Djalma cede seu lugar a Valdeque,
o qual não demora a encontrar Oséas cara
a cara com Muniz: América 3x1. Quase meia-noite na capital baiana. O árbitro
Dantas Correia dá por encerrada a peleja.
No dia 17 de março, foi a vez do América travar
batalha contra o Bahia, no clássico dos campeões estaduais de 1944. O Bahia era
calo no sapato alviverde desde 1932. Para sorte dos baianos, Djalma se
machucara no jogo contra o Ypiranga, deixando o comando do ataque aos cuidados
de Valdeque – bom de bola, mas sem o faro de gol do artilheiro do certame
pernambucano. O retorno de Astrogildo na meia cancha era boa notícia. Mas
naquele dia, o meio campo do América foi anulado pelo sangue argentino de Dante
Bianchi. Bianchi que se tornaria, no futuro, técnico e símbolo do esquadrão
alviverde pernambucano.
Sob a batuta de Bianchi, sua picardia e classe, o
Bahia vingou a torcida local com um sonoro 3x0.
Fernando, Louro e Velau
balançaram as redes de Leca e um craque chamado Maneca enlouqueceu o jovem
Pedrinho. Festa nas arquibancadas. Abraços no final do amistoso. Cabe recordar
que o Bahia era uma autêntica seleção baiana nesse dia. Isaltino e Maneca
oriundos do Galícia e Velau, craque do Ypiranga.
Inicialmente marcado para a noite do dia 21 de
março, o prélio diante do Vitória foi adiado para a noite do dia 22 de março,
no Campo da Graça. O rubro-negro vinha de vitoriosa excursão aos estados
vizinhos, onde batera por 8x1 o Sergipe. Aproveitando-se da viagem, o Vitória
trazia para estrear diante de sua torcida o meio-campista alagoano, Joel. Com
Pirricha e Siri no ataque, além de Isaltino, o qual jogara pelo Ypiranga no
segundo jogo do América em Salvador, foi surpresa que o placar ficasse mesmo no
0x0. Os goleiros Leça e Severino, duas barreiras formidáveis ao grito de gol.
Cansado pela sequencia de jogos, o América aceitou
uma revanche contra o Bahia. Não parecia boa ideia, mas os baianos ansiavam por
nova exibição do quadro pernambucano. Julinho era a sensação do momento. Não
sem hesitação, o América foi a campo. E terminou o primeiro tempo vencendo por
1x0, gol de Edgard. Mas na segunda etapa, as pernas já não obedeciam ao
cérbero, Leça foi impotente para impedir os gols de Zéhugo, Jorge, Maneca,
Velau e Camerino. Valdeque deixou sua marca, porém o marcador do Campo da Graça
estampava cruéis 5x2.
Prova da grandeza do América, os jogadores do Bahia
foram carregados nos ombros pelas ruas de Salvador. Retrato inconteste do
respeito ao adversário valoroso derrotado no campo de batalha.
O deslumbramento entre torcedores do Vitória,
Ypiranga, Galícia, Bahia e Botafogo levou o América a homenagem inusitada,
presente imortal ao público da Boa Terra. Com o Campo da Graça lotado, os
jogadores entraram em campo antes da última peleja, uniformizados de forma
antológica: cada um deles com as cores de um clube baiano. Puxando a fila, o
entusiasmado Hélio Pinto, não cabendo em si de alegria. A imagem diz muito mais
sobre a paixão do América e do povo baiano do que mil palavras.
O Bahia não se fez de rogado. Contratou o extraordinário
arqueiro Walter Leça para suas hostes. Leça que se tornaria o maior goleiro da
história do campeão soteropolitano e ídolo de um menino que adorava música e
futebol: Gilberto Gil...

Foto histórica, ecumênica. Coisa rara. O grande América - só podia ser ele! - com a camisa dos times baianaos. Identifico Capuco, Pedrinho, Leça, Julinho, Deusdedith. Grande América, anos 40. O segundo time de todos nós.
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