Por ROBERTO VIEIRA
Nunca esqueci o último
beijo. Não porque tenha sido um beijo especial, daqueles de novela
ou de filmes de Hollywood. Talvez tenha sido justamente a banalidade
de tal beijo, sua aparente e real insignificância.
Os beijos entre nós
sempre foram inesquecíveis. O primeiro, tímido e fugaz, porém
capaz de me arrepiar toda a imaginação. Um beijo apenas na
escuridão do carro parado no acostamento, as mãos se enlaçando em
busca de esperança.
O segundo, dias depois,
mais longo e sofrido. Um beijo de quem se separava definitivamente na
certeza de que o destino já estava escrito.
O terceiro, o quarto, o
quinto, anos passados de angústia e procura por aqueles lábios
infinitos e eternos na nossa memória. O beijo na boca que eu amei
como jamais poderei voltar a amar novamente. Um beijo consumindo a
derradeira faísca de razão no meu semblante.
Nunca entendi porque o
ser humano se beija e porque é o beijo a primeira e última
lembrança de um amor. A troca de carícias entre línguas ofegantes,
a troca de oxigênio entre corpos suados e extenuados pela luta do
breve êxtase no instante em que a carne se sobrepõe ao coração.
O último beijo da
minha vida foi também o mais real, o mais definitivo e o mais vazio.
Ela me beijou como se beija um estranho numa curva da estrada da
vida. Como se beija com protocolo, carimbo e cartório. Com aquele
frio e gélido sibilo do vento na janela de um trem em movimento.
Ali meus cabelos
ficaram brancos. Minha pele enrugou-se em torno do pescoço. Minhas
mãos envelheceram para todo o sempre e eu dobrei meu corpo rumo ao
último trecho desta estrada chamada vida.
Tudo o mais foi nada,
adeus e vazio...

0 comentários:
Postar um comentário
Comentários