6 de fev. de 2013







Por ROBERTO VIEIRA



Nunca esqueci o último beijo. Não porque tenha sido um beijo especial, daqueles de novela ou de filmes de Hollywood. Talvez tenha sido justamente a banalidade de tal beijo, sua aparente e real insignificância.

Os beijos entre nós sempre foram inesquecíveis. O primeiro, tímido e fugaz, porém capaz de me arrepiar toda a imaginação. Um beijo apenas na escuridão do carro parado no acostamento, as mãos se enlaçando em busca de esperança.

O segundo, dias depois, mais longo e sofrido. Um beijo de quem se separava definitivamente na certeza de que o destino já estava escrito.

O terceiro, o quarto, o quinto, anos passados de angústia e procura por aqueles lábios infinitos e eternos na nossa memória. O beijo na boca que eu amei como jamais poderei voltar a amar novamente. Um beijo consumindo a derradeira faísca de razão no meu semblante.

Nunca entendi porque o ser humano se beija e porque é o beijo a primeira e última lembrança de um amor. A troca de carícias entre línguas ofegantes, a troca de oxigênio entre corpos suados e extenuados pela luta do breve êxtase no instante em que a carne se sobrepõe ao coração.

O último beijo da minha vida foi também o mais real, o mais definitivo e o mais vazio. Ela me beijou como se beija um estranho numa curva da estrada da vida. Como se beija com protocolo, carimbo e cartório. Com aquele frio e gélido sibilo do vento na janela de um trem em movimento.

Ali meus cabelos ficaram brancos. Minha pele enrugou-se em torno do pescoço. Minhas mãos envelheceram para todo o sempre e eu dobrei meu corpo rumo ao último trecho desta estrada chamada vida.

Tudo o mais foi nada, adeus e vazio...    

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