Por ROBERTO VIEIRA
Não tenho medo da
morte.
Convicções religiosas
à parte, morte para mim é um nada eterno, sem dor, sem amanhãs,
sem ontem.
Um estado de
inexistência atemporal.
Se algum átomo meu
assumir outra forma, será outra forma, não a minha que tem data de
validade.
Não tenho medo da
solidão.
Faz parte da existência
e no dia a dia de trabalho, solidão é o que menos existe, exceto a
solidão de nós mesmos diante do espelho.
Mas hoje, saindo pela
madrugada a procura de um remédio para a aliviar minha dor e náusea,
na cidade de farmácias fechadas com medo da violência, não é que
senti medo da morte e da solidão?
Pois é.
Lá estava eu, só,
nauseado e doente e ninguém sabia ou queria saber se eu estava só,
nauseado ou doente.
O medo apareceu de
repente e se foi de repente.
Durou o tempo exato
para que eu olhasse em seus olhos e fizesse uma careta para
espantá-lo.
Xô!!!!!!!!
Ele se foi.
Mas descobri porque as
pessoas vivem umas ao lado das outras infinitamente.
É o espectro da morte
e da solidão rondando suas portas.
A experiencia foi
importante – talvez agora eu entenda melhor as pessoas em minha
volta.
Voltei para casa e
tomei a medicação.
A dor passou. A náusea
também.
Os filhos dormiam.
Sentei para escrever
meus pensamentos.
Ninguém me perguntou
sobre a dor e a náusea.
O que também é uma
forma de morte.
O que também é uma
forma de solidão.

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