25 de jan. de 2013




Por LUCÍDIO JOSÉ DE OLIVEIRA, MDM


Bem antes de chegar à elite do futebol brasileiro na metade dos anos 60 com a Taça Brasil e o Robertão, e os jogos na Primeira Divisão a partir da década seguinte, o Náutico já tinha feito história quando, de modo pioneiro para a região, levou seu time para se exibir nos gramados da Europa. Foi em 1953, há mais de meio século. Não era comum, nem fácil até então, excursão de um time brasileiro pelo Velho Mundo. Poucos foram os grandes clubes que chegaram a tanto. Dá para contar nos dedos: sem falar do Paulistano dos tempos do amadorismo apenas Atlético Mineiro, Flamengo, Corinthians e um combinado São Paulo-Bangu, os que tinham se aventurado. E somente agora, nos anos 50, quando as excursões para o continente europeu começavam a acontecer. O combinado São Paulo-Bangu só teve vez porque o time apresentava, como se fora um circo itinerante, a dupla de astros Zizinho e Leônidas, este já em fim de carreira. Não era pouca coisa os dois juntos num só e mesmo espetáculo. O Náutico jogou na França e na Alemanha. Doze jogos, cinco vitórias, um empate e seis derrotas. De todo modo, uma estatística equilibrada.


O time do Náutico era muito bom. Tricampeão pernambucano, invicto em 52, seria campeão mais uma vez em 54. E apenas por um desses erros comuns de arbitragem deixara de ser campeão em 53. E aí, quem sabe, não teria sido hexa com uma década de antecedência. Mas a história que vou contar nada tem a ver com futebol na hora da bola correr dentro do gramado. O retângulo verde da minha história é outro... Conto da maneira como foi ouvida de Genaro, um dos que faziam parte do elenco timbu, lateral esquerdo reserva de Jaminho. E tendo o testemunho de Caiçara, titular da lateral pelo outro lado do campo.

A história, como toda história que se preza, tem um preâmbulo. Começa com Caiçara pondo em dúvida os dotes de intérprete do companheiro Genaro, estudante de medicina. Caiçara lembra que na época falava assim pra Genaro: “Como acreditar em tudo que você passa pra gente, se no papo com os gringos você só fala ‘oui’ e ‘monsieur’?” Depois, a palavra ainda com Caiçara: “Tudo certo, você sabe direitinho onde fica isso e aquilo, que a gente vai chegar lá, não vai se perder. Mas no fim dá tudo errado...”

Mas vamos, finalmente, ao que contou Genaro. O fato aconteceu na cidade de 
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Gelsenkirchen, onde a Seleção Brasileira faria um dos seus jogos, contra o Zaire, em 1974, e que voltaria a ser sede de jogos de Copa em 2006, com o seu Arena AufSchalke, estádio modelo que veio substituir o velho Parkstadion, onde exatamente se exibiu o Náutico em 53. Além de ser bom de bola, o time alvirrubro era também uma seleção de jogadores bons de copo fora do gramado. Vicente, Caiçara, Lula, Jaminho e Alcidésio puxavam o cordão. Manuelzinho era um dos que não ficavam atrás.
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Depois do jogo à tarde em Gelsenkirchen, a costumeira folga para os jogadores darem uma volta pelo centro. Conhecer a cidade à noite, mas nada de ir muito longe. Tudo ali por perto do hotel. O problema era a grana, que era curta. Abel Ventura, o chefe da delegação, e Palmeira, o sisudo Palmeira, treinador da equipe, segurando os dólares. Dinheiro na mão daqueles farristas, e ninguém poderia garantir o bom rendimento do time no jogo seguinte. Daquela vez não foi diferente. Dinheiro curto, mas sempre se arruma um jeito, o que não podia acontecer era perder a oportunidade de uma noitada na Alemanha.

A turminha de sempre. O letreiro luminoso de gás néon, o dos “falsos sonhos nessas noites de verão” da música de Gonzaguinha, indicava que o lugar era ali. Tinham que descer alguns degraus, o salão ficava no subsolo. E tinham que pagar para entrar, pagamento simbólico, a chamada consumação. Genaro, na frente, ia quebrando o galho com o seu francês de ginásio. Lá embaixo, o salão pouco iluminado como convinha. Silêncio de catedral. Uma lâmpada segurada pelos fios que desciam do teto, um abajur enorme arredondado, toda iluminação se dirigindo para a mesa retangular de pano verde com as bolas coloridas.

Era um salão de jogos, disputava-se uma partida de sinuca. Tinham mais uma vez quebrado a cara com o francês de Genaro. Não demorou muito, e um som baixinho foi ouvido vindo do mezanino. A música bem conhecida. O internacionalíssimo “Barril de Chope” abria as portas da esperança. O paraíso estava ali bem perto, era só subir a escada de poucos degraus. No piso acima, também dominava a escuridão. Mas dava, depois de as retinas se adaptarem à falta de luz, para perceber o pianista de costas, corpulento e de ombros largos, deslizando elegantemente os dedos no teclado. Ao seu lado, um moço em pé acompanhava tamborilando com os dedos a melodia.

Aproximaram-se. E quem estava lá no piano? Tendo saído de mansinho, sem dar na vista, lá se encontrava sentado no banquinho nada menos que o boêmio Vicente Lobão,  goleiro do time nos dias de jogo. Ao seu lado, tinham escapulido juntos, o inseparável companheiro Jaminho, saudoso das memoráveis farras vividas nas noites do Pina e arredores, quando a falta de dinheiro na carteira não fazia a menor falta, e não tinha como agora, o idioma estrangeiro para atrapalhar. Nada mais restava fazer a turma de boêmio. A noitada em território alemão chegava ao fim, suave como era a noite. A volta melancólica para o hotel. Amanhã era dia de treino, no dia seguinte outra parada nos gramados da Alemanha.  

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Um comentário:

  1. A Alemanha nos anos 50, pós guerra e pré Beatles em Hamburgo... Imaginar Vicente e Jaminho cantarolando num bar... digno de um script de cinema noir...

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