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23 de mar. de 2013







A cidade toda estava lá.

Quase.

Dona Francisca não quis nem ver.

Jogo em 1948 na Paraíba era assim.

Vida ou morte.

Amor à camisa.

Vitória?

Feriado nacional.

Pois com as distancias.

Sabugy era um país.

Derrota?

Tristeza infinita.

Destas que nem chuva no sertão resolve.

O campo de jogo era infinito.

Quente.

Latifúndio dos heróis da cidade.

Entre os tantos heróis daquele dia.

Um herói que vinha de longe.

Um certo Rigoberto.

Depois das batalhas na Itália.

Depois de enfrentar os alemães.

Esse jogo de vida e morte era batalha de menos.

Um Monte Castelo sertanejo.

29 de jan. de 2013






A guerra tinha seu lado espirituoso. Os nordestinos, acostumados com a fome e sede no interior do Brasil, não deixaram de achar curiosa a ração fornecida pelos americanos.

Chocolate.

Biscoito, café e patê.

Frutas havaianas.

Cigarros ianques.

Não fossem as bombas rebentando lá fora, a vida seria um banquete pra quem estava acostumado aos rigores da realidade nacional.

Na península itálica, onde multidões se arrastavam sem ter o que comer, os soldados aliados eram privilegiados.

Uma foto porém, diz muito sobre a diferença entre fartura e felicidade.

Nela, nosso herói Rigoberto observa a câmera de prato na mão.

Hora da bóia.

Mãos feridas pelo rigor do inverno, seu olhar informa que a fome não mata.

Quem mata é a saudade e a guerra.




6 de nov. de 2012





Todas as cartas eram censuradas. As cartas de amor. As cartas de pai pra filho. De filho pra pai. Cartas contando o prosaico da guerra. Cartas desesperadas e com medo. A censura que já estava estabelecida pelo Estado Novo, ganhava contornos heroicos. Censurava-se pelo esforço de guerra, contra os inimigos da Quinta Coluna...



Um mês na Itália e nada de cartas e notícias de casa. O serviço postal brasileiro não estava adaptado ao esforço de guerra e o moral das tropas se ressentia profundamente do fato. Era do conhecimento de todos a necessidade do afago sentimental contido nas mensagens vindas do lar distante. Mas a censura brasileira foi longe demais. Cada carta era considerada uma provável missiva de um espião. Cada página era revirada demoradamente a procura de pistas que pudessem denunciar as manobras no campo de batalha italiano.

Ironicamente, outra fonte de atraso na correspondência foi  causado por uma ideia 'genial' dos brasileiros. Reservar todo o carregamento de cargas para o derradeiro transporte aéreo, visando economizar combustível. De tal forma, os militares brasileiros passaram dezembro e janeiro imaginando-se ignorados pelas famílias. Notícias mesmo apenas a partir de fevereiro de 1945, quando milhares de envelopes foram despejados sobre os desesperançados pracinhas.

Foi desta maneira que a censura alcançou a distante Sabugi. O envelope verde amarelo de Rigoberto sendo escrutinado pelos militares antes de chegar as mãos do Sr. João Alfredo de Souza na Paraíba do Norte.

Rigoberto quis escrever sobre a morte em sua volta. Sobre os tiros, as armadilhas, os alemães encastelados em arapucas mortais. Mas não podia. Qualquer frase de cunho negativo seria apagada pelos censores. As palavras sobre a guerra deveriam ser otimistas, repletas de vitórias e júbilo.

Nome da cidade, endereço, qualquer sinal de localização do batalhão? Tudo sumariamente apagado.

Entretanto, na solidão do paraibano perdido na Velha Bota, cercado de incerteza sobre o futuro, a simples lembrança de que alguém lembrava do seu nome na distante Sabugi já era suficiente para desejar viver.

Viver, vencer e voltar pra casa.

E não existe casa mais bela que a lembrança de casa em um mundo em guerra... 



25 de set. de 2012







As metralhadoras eram carregadas por muares. Rigoberto ficou responsável pela condução de um animal com sua respectiva metralhadora 'hotclick'', outro burro levava a placa de morteiro. Os oficiais se deslocando em seus cavalos e os soldados a pé. 

A disciplina do exército brasileiro naqueles tempos é lembrada como 'prussiana' pelo nosso herói. Recém-chegado do meio civil, Rigoberto adaptou-se rapidamente aos novos ares, os quais tinham muito do ambiente familiar rígido e organizado, herança da educação do seu avô. Rigoberto jamais foi punido, sendo considerado exemplo entre seus companheiros. 

As marchas de 24 e 36 quilômetros com equipamento completo eram uma constante durante os quatro meses do curso. Sem direito a cansaço. No final, veio a classificação de acordo com a nota do curso. O 30º e o 31º BC foram levados a Fernando de Noronha no pequeno navio Tupiara, que balançava e deixava todo o pelotão enjoado no mar.. De acordo com a nota obtida no curso era facultado escolher o local de transferência. Rigoberto optou por seguir com o 22º BC em Campina Grande – mais perto de Santa Luzia onde morava a família. 





Quando desceu do trem na estação ferroviária na cidade que dominava o interior paraibano, o jovem percebeu que todo o esforço começava a valer a pena. Naqueles tempos, Cabo era autoridade! 

Como cabo, ajudante do batalhão, Rigoberto trabalhou na administração do 22º BC, sob o comando do capitão paulista Edson Cardoso de Carvalho Leme, que sempre afirmava não haver nascido para ser militar, sendo militar por conveniência, para concluir o curso de medicina.

Nos próximos seis meses, Rigoberto iria realizar o curso de sargento, morando na pensão de Seu Sérgio, pai de Terezinha Lucena.   

31 de jul. de 2012




Mestre Rigoberto teve a idéia de me convidar a escrever a biografia do seu pai, Dr. Rigoberto Souza, herói da Segunda Guerra Mundial.

Aceitei com sérias dúvidas sobre o desafio pela frente.

Hoje, inicio a publicação da história em capítulos.

O primeiro fala sobre a chegada na Itália.

O livro segue sendo publicado nas terças-feiras no Blog.

O mundo do Blog?

Agora é o Mundo em Guerra...