
Por ROBERTO VIEIRA
O bonde São Januário já viu de tudo um pouco.
Viu Getúlio seduzindo multidões.
Aplaudiu a liberdade de Prestes.
A poesia de Pablo Neruda.
Embora tenha ficado estarrecido quando o caudilho e o cavaleiro se deram as mãos.
Bondinho que chorou pela primeira vez por Olga.
O bonde nasceu vascaíno e amigo do Lelé.
Bonde que sempre amou o Vasco, clube dos negros, pobres, analfabetos, lusitanos, brasileiros.
Bonde das arrancadas do Queixada. Do Expresso da Vitória.
Bonde que perdoou Barbosa antes mesmo da tragédia do 16 de julho.
Mas o velho bondinho anda triste, ressabiado.
Desgostoso com as andanças do tempo.
Os cariocas não viam o velho bondinho triste assim desde que virou letra de música.
Desde que Wilson Batista e Ataulfo Alves disseram que 'boêmia não dava camisa a ninguém'.
Logo a boêmia, princípio da poesia, razão de quem é apaixonado.
Tudo pra fazer um afago no senhor do Catete.
Foram perguntar pro bonde a razão de tamanha tristeza.
O bonde suspirou pesaroso apontando os jornais.
Jornais que estampavam a foto de um antigo presidente declarando-se o único capaz de salvar a caravela de Malta.
E o bonde ficou em silêncio. Torcendo.
Quem sabe esperando uma cabeçada de Bellini. Um lançamento de Danilo. Um cruzamento de Chico.
Um sem-pulo de Dinamite!
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