7 de out. de 2008



São Januário, 1929


Por ROBERTO VIEIRA


O bonde São Januário já viu de tudo um pouco.

Viu Getúlio seduzindo multidões.

Aplaudiu a liberdade de Prestes.

A poesia de Pablo Neruda.

Embora tenha ficado estarrecido quando o caudilho e o cavaleiro se deram as mãos.

Bondinho que chorou pela primeira vez por Olga.

O bonde nasceu vascaíno e amigo do Lelé.

Bonde que sempre amou o Vasco, clube dos negros, pobres, analfabetos, lusitanos, brasileiros.

Bonde das arrancadas do Queixada. Do Expresso da Vitória.

Bonde que perdoou Barbosa antes mesmo da tragédia do 16 de julho.

Mas o velho bondinho anda triste, ressabiado.

Desgostoso com as andanças do tempo.

Os cariocas não viam o velho bondinho triste assim desde que virou letra de música.

Desde que Wilson Batista e Ataulfo Alves disseram que 'boêmia não dava camisa a ninguém'.

Logo a boêmia, princípio da poesia, razão de quem é apaixonado.

Tudo pra fazer um afago no senhor do Catete.

Foram perguntar pro bonde a razão de tamanha tristeza.

O bonde suspirou pesaroso apontando os jornais.

Jornais que estampavam a foto de um antigo presidente declarando-se o único capaz de salvar a caravela de Malta.

E o bonde ficou em silêncio. Torcendo.

Quem sabe esperando uma cabeçada de Bellini. Um lançamento de Danilo. Um cruzamento de Chico.

Um sem-pulo de Dinamite!


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