REMINISCÊNCIAS (Do Jornal do Commercio, edição de 11/05/03)
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Por LUCÍDIO JOSÉ DE OLIVEIRA
Luiz Vitorino de Souza, 78 anos, é o nome de batismo e o que consta do registro civil do grande zagueiro de área Lula, talvez o maior do futebol pernambucano em todos os tempos.
Lula nasceu no Recife a 5 de abril de 1925. Aos 15 anos, em 1940, depois de passagem rápida pelo juvenil, era o dono da área do Tacaruna, time suburbano. A Federação Pernambucana de Desportos Terrestres, como era chamada a nossa FPF de hoje, mantinha nos anos 40 uma Liga Suburbana, na verdade a Segunda Divisão do nosso futebol. Como a cidade era grande, e grande era também o número de clubes ditos de subúrbios, eles eram divididos em dois grupos, os da Zona Norte e os da Zona Sul. Os campeões de cada uma das duas zonas encontravam-se no final da temporada, na decisão do título de campeão da Segunda Divisão.
Era ali, no subúrbio, onde se encontrava o grande celeiro do futebol pernambucano, por razões óbvias muito mais de que no Interior, a começar pela proximidade com o que ocorria na Primeira Divisão, o verdadeiro Campeonato Pernambucano, disputado todo ele apenas por times do Recife e em campos da Capital, daí ser chamado também de campeonato citadino. Ateniense, Tabajaras, Magarefe, Tacaruna, Odeon, Elmo, Motocolombó, Ipiranga, alguns dos times suburbanos de maior evidência. O Tacaruna, da Zona Norte, era sem dúvida um dos maiorais dos anos 40, precisamente quando contou em sua defesa, no miolo da área, com a presença do grande zagueiro Lula. Foi campeão em 1944, 1945 e 1947. Em 48 - pelo futebol que vinha jogando já não podia esperar mais - Lula estava no Náutico. Nos Aflitos, ficaria toda uma década, disputando jogos do campeonato até 1958. Em Rosa e Silva, por longos dez anos, foi o senhor da grande área.
Três dados da biografia de Lula chamam a atenção, marcam o seu perfil e definem o que representou o extraordinário jogador para o futebol pernambucano:
1º: Lula jogou por apenas dois clubes. Em 17 anos de atividade, vestiu apenas a camisa do Tacaruna e do Náutico. Além das duas jaquetas, somente a da seleção pernambucana, no seu tempo convocada quase todo ano para as disputas do Campeonato Brasileiro. No Náutico é um recordista de jogos com a camisa do time principal: 352 partidas (1948-59).
2º Como defensor do selecionado estadual, também um recorde: chegou à marca dos 26 jogos, superando com folga o goleiro Vicente (20 participações), bem como a Siduca (18 partidas), os que dele mais se aproximam, todos figuras mitológicas do nosso futebol. A história de Lula com a camisa alviazulina da seleção pernambucana tem ainda uma particularidade, também com jeito de recorde: sua participação aconteceu de maneira absolutamente contínua. Ou seja, desde sua estréia, em janeiro de 1950, jogo contra a Paraíba, até a partida de sua despedida, em fevereiro de 1957, Pernambuco x Minas Gerais, o zagueiro do Náutico não esteve ausente em nenhuma partida. Uma só que seja! E mais: em nenhum desses jogos foi substituído, não ficando de fora um minuto sequer em nenhum jogo da seleção estadual no seu tempo.
3º O terceiro dado é de ordem estritamente técnica. Lula era canhoto em termos absolutos. Com o pé direito era incapaz de um passe a um companheiro, por mais próximo que o mesmo estivesse. Jamais uma rebatida de dentro da área, tiro de meta nem falar, com a direita. Tudo, mas tudo mesmo, tinha que ser resolvido por Lula com a perna dita sinistra. Para ele, muito pelo contrário, a boa. Hoje, dificilmente teria vez na posição de zagueiro de área pela direita. Seria, por sua excelente técnica, levado a jogar pelo lado esquerdo, como terceiro zagueiro ou como ala, jamais como zagueiro central, onde se celebrizou ao lado de Caiçara. Uma dupla de zaga que virou legenda do nosso futebol, completando-se na composição do trio final Manuelzinho (ou Vicente), Caiçara e Lula. Trio final obrigatório da seleção e titular absoluto do Clube Náutico Capibaribe dos anos 50.
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