Rick Blaine chegou incógnito ao Rio. O táxi o esperava no aeroporto. Os ingressos no hotel. Um uísque pra acalmar e depois, Maracanã.
Rick estava vestido de branco, o branco da LDU. Mas a visão do Maracanã o fez lembrar aqueles últimos minutos em Paris. Muita festa antes da derrota.
Ninguém perde e comemora como os franceses!
Ela estivera ali mesmo no Rio nos anos 40. Filmando. Rick se sente reconfortado. Mas a confusão do árbitro argentino com os fotógrafos parece exótica.
Mal deu tempo de sentar nas cadeiras: Gol do Equador!
Cadê a Linha Marginot Tricolor?
Quando Washington perdeu o gol cara a cara deu pena da cara do Chico Buarque.
Mas aí Thiago Neves marcou.
O jogo podia estar 3 x 3. Basquete. Rick começou a lembrar dos jogos de xadrez com Bogart. Era mais cerebral.
Mas bem menos divertido.
Porque essa é a final mais doida da Libertadores em 49 anos de torneio.
Fluminense 2 x 1 na cobrança de um lateral: Thiago Neves.
Esse rapaz devia trabalhar na Resistência...
Rick esteve pela primeira vez no Maracanã em 1950. Nas touradas. Foi levado pelo Mario e pelo Nelson, dois tricolores roxos. O Equador havia perdido por 9 x 1 para a seleção brasileira um ano antes. Mas Rick não pensava no futebol, apenas ficava imaginando aquele gigante tropical erguido no meio da selva para uma derrota.
Berlim tinha muito de Maracanã.
O primeiro tempo se encerra. Rick tenta conseguir um escocês, mas a Lei Seca prevalece. O Rio se parece cada vez mais com a Chicago dos seus dias de colégio. Tudo que um menino precisava aprender pra se dar mal na vida ele podia aprender em Chicago.
Mas Rick resistira. Romanticamente. De revólver em punho.
O futebol brasileiro já vivera momentos melhores. Romanticamente. Hoje, só chuteiras em punho.
O estádio recebe o segundo tempo inquieto. Como numa guerra, não se sabe quem será o vencedor. Principalmente uma guerra onde os exércitos se encontram perdidos, sem mapa, sem bússola, sem bola. Espasmódicos ataques bem sucedidos em um mar de erros de cálculo.
"Quem tiver o mínimo de cabeça vence o duelo!", pensa Rick.
Mas são todos muito jovens, como em todas as guerras. Guerras que poupam os velhos como Rick.
11' do segundo tempo e Thiago Neves marca seu terceiro gol. O goleirinho da LDU é ridículo, qualquer chute entra.
Os olhos de Blaine passeiam pela multidão em festa. 8 de maio!
E ele em Vichy.
Prorrogação. Foi assim que ele se sentiu com a Guerra Fria. Tantos anos de luta e mortes e quando tudo parecia acabado, tudo recomeçava.
Um cigarro é aceso pelos velhos tempos. Ela usava uma rosa na lapela. Seus lábios eram vermelhos. A Hungria caía nas mãos dos russos. Lazslo saía matando seus inimigos nazistas e simpatizantes. O democrata era um déspota afinal. E não necessariamente esclarecido. Como o gol da LDU nos últimos momentos da prorrogação, anulado por que? Todos queriam os pênaltis.
Todos queriam os pênaltis. No Maracanã lotado, Rick Blaine compreende pela primeira vez que a guerra nunca terá fim. Como uma Libertadores infinita. Não existe um vencedor no final das contas. Todos anseiam pela guerra.
Rick acende outro cigarro e vai descendo os degraus do velho estádio. Os gritos e silêncios da multidão se misturam entre as suas lembranças. Como o último de uma espécie, ele resiste. Até quando, ninguém sabe. Na guerra já não existem mocinhos, a não ser os fabricados pela mídia. No Brasil, os mocinhos vestem grená. No Equador, se vestem de branco. O mundo perdeu a inocência.
Alguém sussura que Thiago Neves perdeu um pênalti. Pelo menos a vida continua a mesma. Um dia herói, no outro vilão. Rick não gostava dessa dicotomia. Preferia a vastidão do seu bar em Quito. A vastidão da cordilheira. A alegria e a tristeza resumida em um jogo de futebol servia para esquecer por alguns momentos as mortes, os exílios. O amor.
Mas o amor continuava sendo a sua maior amizade. Um amor perdido na distância.
E o Maracanã desde 1950 conservava um amargo sabor de derrota para aqueles que o amavam... Um amor perdido na distância.
Barbosas, Washingtons e Thiagos.




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