Por LUCÍDIO JOSÉ DE OLIVEIRA
Num 13 de julho, um Fla-Flu, pela primeira vez no Nordeste, era disputado no Recife. Sem a menor dúvida, o maior acontecimento futebolístico da primeira metade do século passado em toda a região. O Fla-Flu era na época o maior clássico do futebol brasileiro. Nada que chegasse nem perto. Basta que se diga o seguinte: aqui em Pernambuco, o tradicionalíssimo Náutico x Sport, nosso maior clássico, por isso mesmo chamado de “Clássico dos Clássicos”, recebia da imprensa, nas manchetes das páginas esportivas, a honra e a distinção de ser chamado de “o Fla-Flu pernambucano”. Não era pouca coisa. Comum abrir a página de esportes dos nossos jornais e lá encontrar: “logo mais à noite, na Ilha do Retiro, o Fla-Flu pernambucano”. Isso durou até a primeira metade dos anos 50. Caruaru, no interior, seguia a mesma pisada. Em dia de Central x Comércio, o jogão da cidade, o jornal Vanguarda não dava por menos: “no Campo da Rua São Paulo, o Fla-Flu caruaruense”.
Para que o Fla-Flu acontecesse no Recife, foi bolada uma jogada inteligente: o Flamengo chegou na frente, uma semana antes, para dois amistosos, contra Sport e Santa Cruz. Era o aperitivo, abrindo a semana Fla-Flu. Realizado o Fla-Flu, foi a vez dos amistosos do time das Laranjeiras contra os mesmos Sport e Santa Cruz, na mesma ordem de jogos, tudo de acordo com o figurino.
Do livro “Histórias do Futebol em Pernambuco”, do saudoso Givanildo Alves, tiro os dados da ficha técnica dos cinco amistosos:
1) Flamengo 5 x 1 Sport. Data: domingo, 6 de julho de 1947. Gols de Pirilo (3), Zizinho e Jair, para os cariocas, e Amorim (2) para o Sport.
2) Flamengo 1 x 1 Santa Cruz. Data: quinta-feira, 10/7, jogo realizado à tarde, com o comércio funcionando normalmente, público ainda assim numeroso; gols de Eloi, para o Santa, e Zizinho, com a ajuda da mão, diz o cronista, estabelecendo o empate. O jogo ficou interrompido por 10 minutos, os tricolores ameaçaram até abandonar o gramado, não o fazendo em nome dos apelos dos promotores da festa, os dirigentes do Sport. Os erros de arbitragem em jogos contra times cariocas vêm de longe, nunca porém a nosso favor. Mas aí, dizem: o Flamengo, pelo que jogou, não precisava... É sempre assim.
3) Flamengo 1 x 1 Fluminense. Data: domingo, 13/7. Público numerosíssimo. Os portões da Ilha foram abertos às 9 horas. Logo depois de uma da tarde não cabia mais ninguém, todas as dependências do estádio estavam tomadas. Os portões foram então fechados por decisão das autoridades. Flamengo: Luís Borracha, Newton e Norival; Biguá, Bria e Jaime; Adílson, Tião (Perácio), Pirilo, Jair e Vevé; Fluminense: Robertinho, Gualter e Haroldo; Paschoal (Berascochéa), Telesca e Bigode; Pedro Amorim, Ademir, Simões, Orlando e Rodrigues. Gols de Simões e Perácio. Juiz: o pernambucano Argemiro Félix de Sena, o popular Sherlock.
4) Fluminense 2 x 1 Sport. Data: quinta-feira, 16/7. Gols de Berascochéa e Rodrigues. O Flu jogou sem seis titulares, poupados para o jogo de despedida, contra os corais.
5) Fluminense 6 x 3 Santa Cruz. Data: domingo, 20/7, um dia de show de Ademir, autor de quatro tentos. Os demais goleadores do Fluminense: Juvenal e Rodrigues; e Galego (2) e Laerte, de pênalti, para os tricolores pernambucanos.
O time-base do Sport na temporada: Manuelzinho; Chicão e Zago; Vavá, Alheiros e Arnaldo; Carmelo, Zildo, Amorim, Dega e Walfredo. O do Santa Cruz: Rubens; Salvador e Pedrinho; Laerte, Capuco e Rubinho; Guaberinha, Galego, Eloi, Pardi e Siduca.
Depois do Fla-Flu no Recife, quando também em terras pernambucanas, copiando o dizer de Nelson Rodrigues, “as multidões despertaram”, outras edições do famoso clássico carioca aconteceram pelo Brasil a fora. Dois anos depois, em 1949, dois jogos em seqüência, em Fortaleza (6/1/49), Fluminense 5 x 2; dois dias depois, em Salvador, o Flamengo dava o troco (5 x 0). Mas aí o Fla-Flu fora do Rio de Janeiro já não tinha mais graça. E até o Rio Grande, em Porto Alegre, no estádio do extinto Cruzeiro, teve o seu Fla-Flu. Aconteceu também em 1949, seis meses depois, a 5 de junho. Ao fim do espetáculo, empate em 1 x 1. Tudo em nome da cordialidade e do equilíbrio estatístico.
A título de ilustração, um pequeno texto de minha autoria, tirado de “Paixão e Fidelidade”, do capítulo no qual narro toda a saga do Fla-Flu jogado no Recife. Conta uma das inúmeras histórias envolvendo torcedores vindo do interior do Estado para ver o jogão de bola. Um jogo que não dava para perder:
Viagem feita com sacrifício, em cima da carroceria de um caminhão, que ônibus não existia fazendo a linha, e automóvel de aluguel naqueles idos era coisa rara em cidade pequena, que dirá numa vila. O sacrifício valia a pena. Afinal tratava-se de assistir ao Fla-Flu. Toda a rapaziada de Cachoeirinha, município de São Bento do Una, estava ali - os que podiam enfrentar os gastos com a passagem, com o ingresso do jogo, o almoço e o lanche da volta. Babá, um jovem endinheirado, doido por futebol, era um dos mais entusiasmados do grupo. Tinha se preparado a capricho. Não podia perder um jogo daquele, viciado que era em futebol.
Na véspera, uma ida a Caruaru, também na boléia de um caminhão, para a compra de um par de sapatos. O que tinha em uso não estava mais em condições de uma viagem à capital para acontecimento tão importante. Na arquibancada da Ilha, ao lado dos companheiros de viagem, depois de acomodado no meio da multidão - público recorde em jogo do Recife, tinha torcedor pendurado até nas mangueiras em torno do estádio -, e não mais suportando o aperto do sapato novo, tal qual o André do chorinho antológico, Babá resolveu aliviar a barra e os pés. Tirou os sapatos. Foi só o que bastou. Veio o gol do Flamengo, a vibração da torcida, o alvoroço tomando conta do estádio. Serenados os ânimos, cadê o par de sapatos, novinho, comprado ontem? O larápio - na época, pré-trombadinha, só existia larápio mesmo - tinha se aproveitado da ocasião e levado os sapatos de Babá, deixando-o apenas de meia e com cara de otário.
A cara de bobo não era para menos. Ter os sapatos surrupiados num campo de futebol... Mas não era tudo. Além de ter que agüentar a gozação dos companheiros na longa viagem de volta, o pior era ter que enfrentar, quando chegasse em casa, a bronca da mãe. Ouvir pela enésima vez, o que já era uma rotina: "estou rouca de dizer, Babá: futebol é mesmo para quem não tem nada pra fazer. Cansei de lhe avisar... Você não ouviu porque não quis".
Para que o Fla-Flu acontecesse no Recife, foi bolada uma jogada inteligente: o Flamengo chegou na frente, uma semana antes, para dois amistosos, contra Sport e Santa Cruz. Era o aperitivo, abrindo a semana Fla-Flu. Realizado o Fla-Flu, foi a vez dos amistosos do time das Laranjeiras contra os mesmos Sport e Santa Cruz, na mesma ordem de jogos, tudo de acordo com o figurino.
Do livro “Histórias do Futebol em Pernambuco”, do saudoso Givanildo Alves, tiro os dados da ficha técnica dos cinco amistosos:
1) Flamengo 5 x 1 Sport. Data: domingo, 6 de julho de 1947. Gols de Pirilo (3), Zizinho e Jair, para os cariocas, e Amorim (2) para o Sport.
2) Flamengo 1 x 1 Santa Cruz. Data: quinta-feira, 10/7, jogo realizado à tarde, com o comércio funcionando normalmente, público ainda assim numeroso; gols de Eloi, para o Santa, e Zizinho, com a ajuda da mão, diz o cronista, estabelecendo o empate. O jogo ficou interrompido por 10 minutos, os tricolores ameaçaram até abandonar o gramado, não o fazendo em nome dos apelos dos promotores da festa, os dirigentes do Sport. Os erros de arbitragem em jogos contra times cariocas vêm de longe, nunca porém a nosso favor. Mas aí, dizem: o Flamengo, pelo que jogou, não precisava... É sempre assim.
3) Flamengo 1 x 1 Fluminense. Data: domingo, 13/7. Público numerosíssimo. Os portões da Ilha foram abertos às 9 horas. Logo depois de uma da tarde não cabia mais ninguém, todas as dependências do estádio estavam tomadas. Os portões foram então fechados por decisão das autoridades. Flamengo: Luís Borracha, Newton e Norival; Biguá, Bria e Jaime; Adílson, Tião (Perácio), Pirilo, Jair e Vevé; Fluminense: Robertinho, Gualter e Haroldo; Paschoal (Berascochéa), Telesca e Bigode; Pedro Amorim, Ademir, Simões, Orlando e Rodrigues. Gols de Simões e Perácio. Juiz: o pernambucano Argemiro Félix de Sena, o popular Sherlock.
4) Fluminense 2 x 1 Sport. Data: quinta-feira, 16/7. Gols de Berascochéa e Rodrigues. O Flu jogou sem seis titulares, poupados para o jogo de despedida, contra os corais.
5) Fluminense 6 x 3 Santa Cruz. Data: domingo, 20/7, um dia de show de Ademir, autor de quatro tentos. Os demais goleadores do Fluminense: Juvenal e Rodrigues; e Galego (2) e Laerte, de pênalti, para os tricolores pernambucanos.
O time-base do Sport na temporada: Manuelzinho; Chicão e Zago; Vavá, Alheiros e Arnaldo; Carmelo, Zildo, Amorim, Dega e Walfredo. O do Santa Cruz: Rubens; Salvador e Pedrinho; Laerte, Capuco e Rubinho; Guaberinha, Galego, Eloi, Pardi e Siduca.
Depois do Fla-Flu no Recife, quando também em terras pernambucanas, copiando o dizer de Nelson Rodrigues, “as multidões despertaram”, outras edições do famoso clássico carioca aconteceram pelo Brasil a fora. Dois anos depois, em 1949, dois jogos em seqüência, em Fortaleza (6/1/49), Fluminense 5 x 2; dois dias depois, em Salvador, o Flamengo dava o troco (5 x 0). Mas aí o Fla-Flu fora do Rio de Janeiro já não tinha mais graça. E até o Rio Grande, em Porto Alegre, no estádio do extinto Cruzeiro, teve o seu Fla-Flu. Aconteceu também em 1949, seis meses depois, a 5 de junho. Ao fim do espetáculo, empate em 1 x 1. Tudo em nome da cordialidade e do equilíbrio estatístico.
A título de ilustração, um pequeno texto de minha autoria, tirado de “Paixão e Fidelidade”, do capítulo no qual narro toda a saga do Fla-Flu jogado no Recife. Conta uma das inúmeras histórias envolvendo torcedores vindo do interior do Estado para ver o jogão de bola. Um jogo que não dava para perder:
Viagem feita com sacrifício, em cima da carroceria de um caminhão, que ônibus não existia fazendo a linha, e automóvel de aluguel naqueles idos era coisa rara em cidade pequena, que dirá numa vila. O sacrifício valia a pena. Afinal tratava-se de assistir ao Fla-Flu. Toda a rapaziada de Cachoeirinha, município de São Bento do Una, estava ali - os que podiam enfrentar os gastos com a passagem, com o ingresso do jogo, o almoço e o lanche da volta. Babá, um jovem endinheirado, doido por futebol, era um dos mais entusiasmados do grupo. Tinha se preparado a capricho. Não podia perder um jogo daquele, viciado que era em futebol.
Na véspera, uma ida a Caruaru, também na boléia de um caminhão, para a compra de um par de sapatos. O que tinha em uso não estava mais em condições de uma viagem à capital para acontecimento tão importante. Na arquibancada da Ilha, ao lado dos companheiros de viagem, depois de acomodado no meio da multidão - público recorde em jogo do Recife, tinha torcedor pendurado até nas mangueiras em torno do estádio -, e não mais suportando o aperto do sapato novo, tal qual o André do chorinho antológico, Babá resolveu aliviar a barra e os pés. Tirou os sapatos. Foi só o que bastou. Veio o gol do Flamengo, a vibração da torcida, o alvoroço tomando conta do estádio. Serenados os ânimos, cadê o par de sapatos, novinho, comprado ontem? O larápio - na época, pré-trombadinha, só existia larápio mesmo - tinha se aproveitado da ocasião e levado os sapatos de Babá, deixando-o apenas de meia e com cara de otário.
A cara de bobo não era para menos. Ter os sapatos surrupiados num campo de futebol... Mas não era tudo. Além de ter que agüentar a gozação dos companheiros na longa viagem de volta, o pior era ter que enfrentar, quando chegasse em casa, a bronca da mãe. Ouvir pela enésima vez, o que já era uma rotina: "estou rouca de dizer, Babá: futebol é mesmo para quem não tem nada pra fazer. Cansei de lhe avisar... Você não ouviu porque não quis".
















