7 de jul. de 2008





Por ROBERTO VIEIRA

- É tudo japonês!

- Como?

E o velhinho do meu lado repetia:

- É tudo japonês! Não digo isso por desprezo, apenas constato um fato da vida... É tudo japonês!

Como a arquibancada estava vazia, o velhinho só podia estar falando comigo.

- É isso mesmo que eu estou falando. Antigamente o Náutico ia jogar com o Palmeiras. Vixe Maria! Vinha o Ademir, o Leivinha, o Luís Pereira. Mesmo assim agente segurava o jogo, na raça, perdia por 2 x 1, saía de cabeça erguida. Eles jogavam muita bola.

Fiquei em silêncio.

- Na outra rodada vinha o Cruzeiro. Sabe lá o que é segurar o Dirceu Lopes e o Tostão? Mesmo assim a gente ia pra cima, algumas vezes ganhava. Mas lutava...

Meus olhos se moveram na direção do campo.

- O Internacional tinha o Figueroa, o Grêmio, o Anchetta, o Corinthians, Rivelino, Zé Maria, Baldochi, Mirandinha...

Algumas nuvens voltavam na direção dos Aflitos.

- Mesmo assim a gente lutava. O Elói, o Sidclei, o Paraguaio.

Sorri.

- Hoje, não!

Ele segura a fala pra dar mais força ao texto repetido mil vezes na tarde de segunda-feira:

- Hoje é tudo japonês!

Despede-se com o cigarro aceso e some na chuva que começa a cair.

Eu fico sozinho e imagino que nem time de botão dá pra fazer atualmente. Todo mundo que jogava bola no Brasil foi embora, ficaram apenas os reservas dos reservas. Tudo japonês. Por que então o medo? Por que a súbita impressão de derrota nos corredores antes de entrar em campo.

No campeonato brasileiro de 1971, a seleção brasileira em peso atuou. Todos estavam em território nacional. Hoje, quase ninguém. Não tem Pelé, não tem Jair, não tem Gerson. Só tem Akira. Lembro de uma edição histórica de Placar. Na capa, o menino Jorge Mendonça observava fascinado o ídolo Garrincha com a camisa do Olaria. Senhor, quanto valeriam aqueles jogadores hoje em dia?

Jair, Paulo César, Edu, Marco Antonio, Jorge Mendonça... Garrincha? E a gente com medo de Marcinho?

Comecei a murmurar na arquibancada deserta dos Aflitos, como um mantra, a triste verdade contemporânea:

- É tudo japonês!

Quem sabe Leandro San nos ouça.



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