4 de jul. de 2008




Por ROBERTO VIEIRA


Foi um daqueles instantes que definiram uma época. A Argentina de Galtieri teve as suas Malvinas. O Brasil de Figueiredo, seu Sarriá. A vitória na guerra ou na Copa daria sobrevida aos agonizantes governos militares. Os caudilhos hipnotizam o povo com sonhos de grandeza. Mas alguém inventou de contar até três antes do tempo. E o que era sonho virou Rossi.

Era a véspera dos meu aniversário de dezoito anos e eu estava longe daqui. Estudante de intercâmbio. Não vi o jogo. Apenas sabia do resultado depois, pelos jornais. Quando sabia. Nesse dia em particular, eu soube do resultado de froma cruel. Ligando a televisão e vendo o placar na tela silenciosa. Fiquei mudo e delirei que ainda haveria um segundo tempo, afinal o Brasil tinha virado o jogo contra a URSS e a Escócia. Mas que nada!

3 x 2 para a Itália. E meus amigos ainda compraram pizza para o almoço. Só então notaram meu semblante pálido, distante, imaginando o silêncio na terra brasilis. Todo mundo perdeu a fome.

Lendo depois os jornais da época que meus pais guardaram para mim, percebi uma unanimidade rara em nosso povo. A unanimidade das guerras. Pesquisa realizada na véspera do encontro contra a Itália considerava nosso escrete imbatível. A única voz discordante na imprensa pernambucana ocorreu na coluna de Paulo Fernando Craveiro. Craveiro que recordou a tragédia de 1950. Craveiro que considerava a Copa de 82 sofrível. Craveiro que cunhou a frase histórica: "Derrota não tem vacina!"

Tal como hoje, a inflação era o assunto do momento. Em uma das propagandas mais hilárias da história do Brasil, o governo Figueiredo comemorava a queda da inflação irreal. De 121% em junho de 1981 para... 97% em junho de 1982. Durma-se com um discurso desses. Arraes cedia o governo para Freire, mas as cicatrizes seguiriam plenas.

Pra complicar vencemos a Argentina de Maradona! Um 3 x 1 que nos conduziu ao absurdo da soberba (como o 6 x 1 contra a Espanha em 1950).

A goleada é a véspera da zebra, diria Gustav Sebes.

No final da década de 70, o Perugia da Itália saiu do anonimato jogando na defesa e com um atacante magistral: Paolo Rossi. Rossi se envolveu com o suborno de um zagueiro adversário e foi severamente punido pela federação italiana. Perto da Copa, a Itália agonizava sem gols. Perdoaram Rossi e o levaram para a Espanha. Mas até o encontro contra o Brasil, Rossi e niente era a mesma coisa. Muitos italianos já se perguntavam o que Bearzot via nele.

Descobriram depois dos 90 minutos no Estádio Sarriá. Rossi balançou as redes brasileiras por três vezes. Um recorde desde a Copa de 1938 quando o polonês Willimowski marcou quatro vezes no Brasil.

O chargista Humberto não perdeu tempo, incorporou o espírito do povo e tascou uma imagem do medo italiano em enfrentar nossos bravos pracinhas. A campanha da Itália ganhava corpo quarenta anos depois. Só faltou inventarem de falar em Monte Castelo novamente. E tome piadinha de que o Brasil ia almoçar lasanha, etc e tal.

Tive esse jogo gravado quinhentos anos. Depois joguei fora. Todo mundo conhece cada momento jogado naquela tarde. Rossi abriu o marcador. O Brasil imaginava que iria virar quando bem entendesse. Sócrates marcou um golaço deslocando Zoff...


Logo depois, Cerezo lanço para o miolo de zaga que ficou sonhando enquanto Rossi tomava a bola e marcava 2 x 1. Telê reorganizou a bateria da escola de samba no intervalo, Falcão empatou em um tirombaço de fora da área.

Foi quando a defesa avançou para roubar a bola dos italianos e Júnior ficou em cima da linha de gol... pedindo impedimento de... Rossi: 3 x 2.



A derrota não tem vacina.

Durante os próximos doze anos o Brasil perseguiria a Copa do Mundo. Uma geração de craques é até hoje execrada por jogadores como Dunga. Zico virou sinônimo de fracasso em mundiais. O futebol sofria mais uma derrota para si mesmo. Derrota tão grande que nem sei como sobreviveu. Espetáculo operístico, transformou-se nos anos seguintes em Bolsa de Valores.

O êxodo de craques brasileiros para o exterior atingiu proporções platinas. A reformulação do futebol brasileiro iniciada por Giulite Coutinho foi pras cucuias.

Mas, se isso serve de consolo, o Brasil acordou cansado e querendo mudanças bem maiores que as mudanças de um jogo de futebol. O Brasil que tinha uma seleção imbatível era o mesmo Brasil que assistia, no dia seguinte a derrota para a Itália, uma invasão em Serra Talhada pelos camponeses esfomeados.

Eu e muitos da minha época começaram a duvidar do milagre brasileiro. Eduardo Galeano na época não escrevia veias abertas em vão. A luta pela redemocratização uniu o país em torno de uma idéia. Ditadura, nunca mais!

Minha história com a Copa de 82 não se encerrava ali. Por uma destas coincidências do destino, quinze anos depois em 1997 lá estava eu em Barcelona. Quando abri o jornal, uma notícia me chamou a atenção. Iam implodir o Estádio Sarriá do Español. Sarriá, palco da tragédia de 1982. Deixei todo mundo no hotel e fui até lá, olhar na tarde catalã, o pequeno teatro do absurdo.

Pedra e solidão exalavam do campo. Os fantasmas brasileiros rondavam a atmosfera mediterrânea. Puxando correntes. Atacando por todos os flancos a meta italiana. Perdendo gols na eternidade de Gaudí.

Peguei sal e joguei sobre a terra.

Só por precaução...



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