
Por ROBERTO VIEIRA
Prezado Caio Júnior,
Antes de mais nada, parabéns!
Aos 43 anos nós podemos tudo.
Então, a hora de mandar os árabes às favas é agora. Depois fica mais difícil.
Depois vem o reumatismo e os cabelos brancos. A lápide.
Sou de um tempo em que os árabes brigavam uns com os outros e deixavam o futebol meio de lado. Até que em 1973 eles começaram a ter dinheiro aos borbotões.
A crise do petróleo derrubou a ditadura no Brasil e, de quebra, levou Rivelino em uma aventura pelas mil e uma noites.
O Flamengo é maior que todo o Oriente Médio. Se brincar, maior que o mundo.
Liderar o campeonato brasileiro com o Mengão, ser hexacampeão brasileiro, não tem preço.
Quem sabe até beliscar uma nova Libertadores das Américas? Ser campeão do mundo?
Tudo é possível no universo da Gávea. De lá se pode avistar Zico e Nunes comemorando a vitória contra o Liverpool.
Infelizmente, prezado Caio Júnior, de lá também se pode avistar a planície.
E a planície é um deserto no mundo do futebol, Caio Júnior. Um deserto sem poços de petróleo.
A paixão do torcedor dura menos que os noventa minutos de um clássico. Dura menos que o tempo de um Roger no Grêmio.
Dura menos que as mil e uma noites do Rivelino.
Rivelino que eu levei para o Rio.
A paixão do torcedor ergue e destrói coisas belas. Como Sampa.
Um dia você é herói. No outro bandido.
O avesso do avesso do avesso do avesso, como dizia o flamenguista Caetano Veloso quando falava do time do Flamengo, campeão de 1974.
Quando falo, penso logo em Zizinho. Zizinho que amava o Flamengo sobre todas as coisas. Zizinho vendido na calada da noite para o Bangu.
Zizinho que podia tudo. Zizinho que eu devolvi à seleção.
Lembro dos milhares de jogadores e técnicos que trocaram a segurança financeira pela paixão.
E morreram pobres e esquecidos.
Felizes são eles!
Ao contrário do que imagina a nossa vã filosofia: Mais vale uma paixão no coração!
Eu sei.
Eu que amei o Internacional. O Palmeiras. O Corinthians. O São Paulo.
Eu que já não posso sentir o amor e o ódio da multidão.
Eu que amei...
Brandão
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