Por ROBERTO VIEIRA
Era o melhor dos jogos, era o pior dos jogos. Era a época de ouro do futebol, era o tempo das chuteiras de cravos infinitos. Era o tempo em que os torcedores tinham fé, era o tempo da incredulidade absoluta nos juízes.
Era o tempo dos revólveres em punho.
A cidade de Nueva Guatemala de la Asunción estava em festa . Os vizinhos mexicanos haviam sido convidados para disputar algumas partidas de futebol no Campo de Marte. Mexicanos que nunca haviam disputado nenhuma partida oficial de futebol na história. Para garantir a lisura do resultado foi contratado o árbitro guatemalteco Jose James, parente distante do famoso bandido americano. Um homem de princípios inabaláveis. E, devemos dizer, bastante temente ao julgamento das massas.
Os astecas concordaram com o arranjo e seguiram viagem de trem ao encontro dos maias. Como nos velhos tempos. Os jornais enviaram seus correspondentes, um deles escrevendo que, naquele encontro esportivo, poderia estar nascendo uma solução para os conflitos humanos: 'Faça gol, não faça a guerra!'
Tolice de repórter.
Enquanto isso, Pancho Villa enviara um telegrama direto de Parral. Desejando boa sorte.
Primeiro de janeiro de 1923. A Guatemala de azul e o Mexico de verde e vermelho se cumprimentam sob a chuva tropical. Dez mil torcedores lotam as laterais do campo. Em casa só ficaram os céticos e os aleijados. Uma imagem de Nossa Senhora da Assunção desfila em volta do campo de grama e terra batida. Uma banda toca o hino dos dois países. Jose James leva um susto quando alguns tiros são disparados em comemoração do evento. Principalmente porque um dos tiros passou raspando pela sua cabeça.
O México na verdade é o time do América. Seus onze jogadores pertencem ao clube mexicano. Sabiamente, o técnico Adolfo Frías Béltran achou por bem manter a base da equipe mais forte do país.
O jogo começa. A Guatemala vai pra cima e sufoca o time adversário. A torcida urra e ameaça invadir o campo. James sua debaixo de seu terno e gravata impecáveis. Quando o gol maia parece uma questão de tempo, Izquierdo recebe um chutão da defesa e corre, corre, corre e toca na saída de Murga: 1 x 0 México.
A torcida fica muda. E olha para Jose James que aponta para o meio de campo. Gol legítimo.
Não há de ser nada! Promessas são feitas, velas acesas.
Bola cruzada na área da Guatemala, Horacio Ortíz sobe sozinho: 2 x 0 Mexico. Aos quarenta minutos do primeiro tempo.
Intervalo. Mexicanos alegres. Guatemaltecos furibundos. Jose James é interpelado pelo representante do General Orellana: 'O general deseja saber como vai ser o segundo tempo?'
Jose James sorri e se finge de desentendido.
Os times voltam a campo. O Mexico se defende e a Guatemala encontra o caminho do gol com Fernando Minondo num chute de fora da área sem defesa para Ignacio de la Garza, goleiro com nome e sobrenome de poeta.
O Mexico ousa atacar e Adeodato Lopez aumenta para 3 x 1 num cochilo de Figueredo.
Dois minutos depois o craque e zagueiro Constantino Kinkie larga a retaguarda e diminui a peleja. 3 x 2.
A torcida explode em delírio e invade o campo. Durante alguns minutos o jogo é interrompido. Rojões explodem nos céus. Milagre!
Não há de ser nada! Promessas são feitas, velas acesas. Agora, a vitória.
A bola passeia na área mexicana, duas bolas acertam o poste, Legarreta salva em cima da linha. Os maias pedem pênalti em Padilla. James faz que não vê. Desastre!
O cronometrista esquece o cronômetro. Os minutos correm, as horas passam, o jogo acaba com a derrota da Guatemala no Campo de Marte já escuro.
Lágrimas dos dez mil torcedores. Os jogadores do Mexico se abraçam emocionados. Orellana olha para Jose James.
James que apitará a segunda partida quatro dias depois. Partida vencida pela Guatemala por 3 x 1.
James que também apitará a negra no dia 7 de janeiro. Vitória do Mexico.
Sua despedida do futebol.
Como eu ia dizendo meus amigos, era o melhor dos jogos, era o pior dos jogos. Era a época de ouro do futebol, era o tempo das chuteiras de cravos infinitos. Era o tempo em que os torcedores tinham fé, era o tempo da incredulidade absoluta nos juízes.
Era o tempo dos revólveres em punho.
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