30 de dez de 2016




Por ROBERTO VIEIRA



Foi tudo um sonho.

O Náutico nunca existiu.

Timbu é apenas um delinquente marsupial alcoolizado.

Rosa e Silva, avenida de portugueses e ingleses.

Aflitos, conjunto de apartamentos pequenos burgueses.

Foi tudo um sonho.

Custei a acreditar, mas tudo foi um sonho.

As regatas, as moçoilas no Capibaribe, as sombrinhas.

Minha mãe apaixonando-se pelo Náutico às margens do rio.

A antiga garagem.

A sede abandonada na rua da Aurora.

Foi tudo um sonho.

Alfredo de Araújo Santos não importou barcos da Europa.

Nunca houve bailes na Festa da Primavera.

Alfarra e Haghissé não foram amigos.

Ernesto Pereira Carneiro não amou o clube.

Tampouco Neto Campelo e Barbosa Lima Sobrinho.

Antípodas alvirrubros.

Bento Magalhães lembra apenas turfe.

A vitória sobre o Sport em 1909.

A chegada de Cabelli, os gols de Fernando, Arthur e Zezé.

As defesas de Lula Vieira.

Salsa e Salsinha, meu Deus!

Foi tudo um sonho.

José de Francisci patrão?

Nunca, não!

Vanildo da Cunha Antunes ilusão de ótica.

Marly Avila Neves e Adriana Salazar, nem pensar.

Quanto alívio devem sentir os tricolores em 34.

Tetracampeões pernambucanos.

Quanta alegria os tricolores em 1939!

Djalma nunca existiu. Nem Epaminondas.

Bermudes foi pura imaginação.

Foi tudo um sonho.

Apaguem o fogo!

Ivanildo não lutou contra chamas.

Fernandinho não percorreu as pontas.

Hélio Mota, Mitotônio e Hermenegildo?

Suposições idiomáticas.

Otávio da Rosa Borges e suas cestas.

Jamais.

Foi tudo um sonho.

Eládio nunca pisou num campo de futebol.

Tará e Orlando, idem.

Ivson jamais chutou uma bola.

Foi tudo um sonho.

Mas por que esse vazio?

Por que essa angústia no peito?

Por que esse delírio de uma quinta-feira?

Recife tem apenas dois clubes.

Binário.

Não existe e jamais existiu maracatu Timbu Coroado.

“Zé Carlos é pura abstração!”

Podem dormir sossegados os adversários.

Bita nunca portou rifle:

“Ah, Gilmar como viveste mais sossegado!”

Nado jamais driblou o real.

Nado é nada.

Gena, Salomão, Ivan Brondi?

Quem são eles?

Gílson Saraiva, volta pra tua Hematologia!

Duque só no dominó e na zaga do Fluminense.

O abraço de Porfírio e Gentil Cardoso é lenda.

Lula Monstrinho vive nas Alagoas.

Marinho Chagas aposentou-se Alecrim.

Jorge Mendonça casou com Moça Bonita.

Vasconcelos jamais avistou os Andes.

Fantoni voltou pra Lazio.

Muricy Ramalho treina o XV de Poti.

Vermelho e branco é o orgulhoso Centro Limoeirense.

Da união de duas cores é balela.

Foi tudo um sonho.

Foi tudo um sonho.

Foi tudo um sonho.

Foi tudo um sonho.

Foi tudo um sonho.

Foi tudo um sonho.

Repito seis vezes a frase até acreditar.

João de Deus apenas o Papa.

Bonzão é supermercado.

Lucídio José de Oliveira nunca saiu de Bonito pra ver um jogo.

Carlos Celso Cordeiro pesquisa hidrelétricas no Xingu.

Givanildo Alves escreveu sobre basquete.

Lenivaldo Aragão ama só o Ypiranga.

Mas parece que também sente falta de alguma coisa.

Foi tudo um sonho.

Cadê Ramos?

Cadê Ede?

Cadê Rato?

Segura eles que senão é Kuki na certa.

Kuki?

O chute sai indefensável.

Foi tudo um sonho.

Sebastião Orlando toca pra Alfredo Gonzalez.

Bizu, Nivaldo, Augusto e Erasmo sem Roterdã.

Era um, era dois, era três...

Era gol que não acabava mais.

Vai que já é tua Taffarel!

Foi tudo um sonho.

Na imensa metrópole do século XXI não existem Angusturas.

Escaleres alvirrubros não navegaram em 1903.

Pimpão, tu foste uma ilusão.

Mas então, por que essa tristeza?

Esse sentimento de que parte do coração nos chora?

Por que milhares e milhares de pessoas não sorriem?

Não explodem de alegria na canção do gol?

Talvez.

Apenas talvez.

O Clube Náutico Capibaribe seja bem mais que um sonho.

Um sonho que deságua no oceano da paixão infinita.

Um sonho com a dimensão do horizonte perdido.

Foi tudo um sonho.

É verdade.

Os 110 anos do Clube Náutico Capibaribe foram apenas um sonho.

O mais belo sonho que sua imensa torcida jamais sonhou.

Porque, em verdade, meus amigos:

110 ANOS É LUXO!

E a vida, como o futebol, é de quem aprendeu a sonhar...


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