29 de dez de 2016




Por LUCÍDIO JOSÉ DE OLIVEIRA, MDM 

O baú de Valdir Appel não é coisa deste mundo. Começa que tem recortes e fotos de antes dele nascer. Herança do pai ou do tio, baitas goleiros como ele? Ou mania de quem leva as horas de ócio a buscar coisas do passado para fazer bonito o presente? Um dia ele me mandou a reprodução de uma reportagem da extinta e saudosa revista Esporte Ilustrado, do Rio, contando a história do Fla-Flu do Recife. Acontecimento de julho de 1947. Do tempo de Zizinho e de Ademir. Tema de crônica de minha autoria e uma das minhas fixações proustianas. Dele, do Fla-Flu, lembro de tudo, só não me lembro da minha presença nas arquibancadas da Ilha do Retiro, exatamente porque presente lá não me encontrava. Tudo que sei do Fla-Flu histórico é de ouvir dizer. E isso me foi o bastante. Um Fla-Flu que não me sai da memória. Dele, lembro de tudo, até do gol de Perácio, gol que não vi, o do empate do Flamengo. Uma cabeçada sensacional que Robertinho, goleiro tricolor, não viu por onde passou. Gol de uma das figuras mitológicas da Copa do Mundo de minha infância, a da França em 1938, Perácio da mitológica ala esquerda Perácio e Patesko.Quem, daquele tempo, não se lembra?

Mas agora a história é outra. Ele me manda um recorte de um jornal cearense (ou seria revista?), coincidentemente também chamado de Esporte Ilustrado, falando de uma temporada do Náutico em gramados alencarinos. Coisa de 1945, mais de sessenta anos passados... E quer que eu conte como foi a tal temporada alvirrubra no Ceará. Vou atender à sua curiosidade. Comer a isca. Contar tudo como foi, jogo por jogo.

O Náutico fez três jogos na terra de Iracema. A estréia contra o Fortaleza, derrota por 4x2. A segunda partida, contra o Luso, mais uma derrota (1x2). A bem da verdade, jamais ouvi falar desse "luso cearense". Luso, somente a Tuna, de Belém do Pará. Três dias depois, na derradeira partida, a reabilitação, contra o Maguary, o bamba do futebol cearense daquele tempo. Uma bela vitória, até que enfim, Náutico 3x2.

O Maguary era bicampeão estadual (43-44), e segundo registra o Esporte Ilustrado de Fortaleza, tinha acabado de laurear-se campeão de um Torneio Municipal. A partir daquele ano de 45 é que o Maguary foi ficando para trás até desaparecer de vez. Hoje dele não mais se ouve falar. Não é mais sequer um retrato na parede, destino aliás seguido pelo América e pelo Gentilândia, dois outros campeões cearenses dos anos futuros que igualmente desapareceram na fumaça do tempo. Ceará Sporting, Fortaleza e Ferroviário tomaram conta do pedaço.

A temporada do Náutico foi programada para que pudesse ser exibida perante a platéia cearense, a nova ala esquerda timbu: Hermenegildo e Mitotônio. Dois ídolos do futebol de lá, titulares absolutos do Ceará Sporting. Uma maneira também de saldar os compromissos assumidos com a contratação dos dois jogadores. É bom lembrar que o Náutico vinha da perda recente do campeonato de 44, para o América, decidido há pouco, em fevereiro. Perdera o campeonato e sua maior estrela, Orlando, o futuro "Pingo de Ouro" do futebol carioca. Orlando havia trocado os Aflitos pelas Laranjeiras. Nem a final contra o América disputou. Alguma coisa tinha que ser feita pela direção alvirrubra para abrandar a ira da torcida frustrada.

A solução foi contratar de uma só vez Hermenegildo e Mitotônio. Não era pouca coisa. O ponteiro, Mitotônio foi tido pelos analistas de sua terra como "o melhor jogador que já vestiu a camisa do Ceará" (depoimento de Ivonísio Mosca, conhecido e respeitado jornalista de lá, também dirigente e treinador). Eles fizeram a estréia no Náutico antes da ida à Fortaleza, uma semana antes, jogo contra o Great-Western, abertura do campeonato pernambucaco. E logo na estréia, quatro gols de Mitotônio. Vitória do Náutico, 4x1. Era a reapresentação do time de Rosa e Silva depois da perda do campeonato para o América.


O que mais chamava a atenção de Hermenegildo e Mitotônio, ao menos para mim, menino com pouco mais de dez anos, eram os nomes dos dois. Nomes bizarros. Pouco comuns para jogador de futebol. O futebol de tantos Pedrinhos, Sidinhos, Zezinhos e Rubinhos, vinha agora de Hermenegildo e Mitotônio... Mas no Ceará Sporting não era só a ala esquerda que chamava a atenção. Quando em dezembro de 1942, a seleção estadual esteve no Recife, para decidir quem era o campeão do Nordeste na disputa do Campeonato Brasileiro, a linha atacante, toda ela do Ceará, era um desfile refinado de esquisitices: Jombrega, Idalino, França, Hermenegildo e Mitotônio. Isso contudo não impediu de a seleção da terra de José de Alencar ser derrotada (Pernambuco 3x2) e ser devidamente eliminada do certame nacional daquele ano.

Na volta do Ceará, o Náutico perdeu um jogo para o Sport, lembra Valdir, naturalmente consultando o enciclopedista Carlos Celso. Mas cuidou de imediato de ganhar o campeonato. E acabou conseguindo, em cima do América, o mesmo América de Leça, Pedrinho, Capuco e Julinho que lhe tinha roubado o título do ano anterior. Estava quitada a conta recente com o América, na época dono de mais títulos que o Náutico (6x3 no confronto direto). Logo, logo essa outra conta, como tantas outras que vinham do tempo do amadorismo, estaria também zerada.

No domingo da conquista do título, dia 9 de dezembro, na Ilha do Retiro, jogo que fechava o segundo turno, Náutico 2x0 América, os gols foram de Genival e Luiz, na ocasião os titulares da ala esquerda. Não mais Hermenegildo nem Mitotônio, a ala meio titular, meio reserva, naquele distante 1945. Seis meses depois da estréia, acabara-se como por encanto o feitiço dos dois cearenses de nomes esquisitos e de muitos gols dos primeiros jogos. Motivo da ida do Náutico ao Ceará. Coisa que acontece no mundo, por isso mesmo dito encantado, do futebol.





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