14 de dez. de 2014




Por LUCÍDIO JOSÉ DE OLIVEIRA, MDM


Hoje eu tive saudade do América e de Heleno de Freitas. O América de Natalino, Dimas, Ranulfo e Jorginho. Ano de 1951. Domingo, 4 de novembro. O Maracanã novinho em folha. Jogo América x São Cristóvão. No time do América, na boca do túnel, surge o craque Heleno de Freitas, pela primeira vez na vida entrando no “maior do mundo”. Na década anterior, ídolo do Botafogo, artilheiro do campeonato Carioca em 1942, campeão invicto pelo Vasco da Gama de Flávio Costa, de Barbosa e de Ademir, há bem pouco, em 1949. Titular absoluto do comando do ataque da Seleção Brasileira em toda a década passada, substituindo Leônidas da Silva. Ex-jogador do Boca da Argentina e do Atlético Junior de Barranquilla, da Colômbia. Um craque do continente sul-americano. Um dos maiores. Glorificado em crônica por Armando Nogueira, Mário Filho, mas também por Gabriel García Márquez. Estava no final da carreira, sem jogar há muito tempo. Às voltas com os demônios que haviam se apoderado de sua mente arruinada pela sífilis. Mas não podia abandonar o futebol sem um dia ter pisado a grama sagrada do Maracanã! Assinou compromisso com o América, um dos grandes do futebol carioca. Estreia ansiosamente esperada. Jogou apenas 20 minutos. Foi expulso de campo após se desentender com os próprios companheiros de time num momento extremo de irritação e descontrole emocional. Na ocasião, o América tinha entrado em campo com o que tinha de melhor: Osni, Rubens e Osmar, Ivan, Osvaldinho e Godofredo; Natalino, Dimas, Heleno de Freitas, Ranulfo e Jorginho. E foi derrotado por fim pelo São Cristóvão, 3x1 o placar do jogo. Desse time do América, dois jogadores atuariam depois no futebol pernambucano: Godofredo, como atleta do Santa Cruz, e Dimas, o bailarino Dimas, no Sport e depois no América.
De Heleno, morto precisamente nove anos depois, em novembro de 1970, escreveu o cronista Armando Nogueira: "O futebol, fonte das minhas angústias e alegrias, revelou-me Heleno de Freitas, a personalidade mais dramática que conheci nos estádios deste mundo, o craque das mais belas expressões corporais que conheci."
Ainda de Armando Nogueira: “Heleno morreu sem gestos de paralisia geral progressiva e descansa, hoje, no cemitério de São João Nepomuceno, Minas Gerais, onde nasceu um dia para jogar a própria vida num match sem intervalo entre a glória e a desgraça".


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