Por ROBERTO VIEIRA
Estava sentado sozinho no parque. Final de tarde. Um senhor
de uns oitenta anos sentado do lado. Os dois pensando na vida. A imagem do
Hotel Majestic e de Mario Quintana na cabeça. Havia chegado de Porto Alegre com
a solidão de Quintana na cabeça.
O senhor lia um livro de poesias. Curiosamente era o ‘Esconderijo
dos Tempos’, de Quintana. Eita, vida engraçada!
Pensava eu no livro e no que matava as pessoas. Qual o
veneno que ia enrugando o semblante até ficar velhinho e cansado de viver. Estava
triste. Uma tristeza desgramada, daquelas sem ter nem porque pra quem me visse
naquele final de tarde.
O velho senhor do meu lado, adivinhando minhas indagações, não
se fez de rogado. Olhou-me nos olhos, com aquele sotaque de Alegrete nos lábios
e me explicou tim tim por tim o que eu não conseguia adivinhar... e disse algo
mais ou menos assim.
‘O que mata a gente,
meu amigo, não são as balas do inimigo no campo de batalha. Não são as
fogueiras da inquisição e suas mortalhas. Não. O que mata a gente não é o câncer,
o enfarte, a pneumonia nem a tuberculose. Tudo isso faz um mal danado, é
verdade, mas nada disso nos mata posto somos alma antes de corpo.
O que nos mata de
verdade e nos mata aos borbotões, aos pouquinhos, o que nos fere o coração e
vai levando de mansinho aquilo que de mais belo e vivente possuímos é o que
habita dentro de nós. Aqueles que amamos.
O abraço distante, o
beijo negado daquela que habita nosso coração. O sorriso que não vem, a saudade
que não tarda, a cumplicidade perdida no dia a dia dos dias e das noites sem sussurros
e carícias discretas. As camas separadas e as viagens solitárias pelas
madrugadas sem fim. O ‘eu te amo’ que não vem hoje, nem amanhã, nem depois de
amanhã, nem nunca.
O que nos mata é a
conversa do passado, aquela conversa jogada fora sem ter nem por que. Conversa
desaparecida em ois, tchaus, sim e nãos. Sós.
O que nos mata é o
filho que já não vemos, a filha que já não temos e o retrato na parede dos pais
que não nos compreenderam nem nós compreendemos. Os vestígios de palavras
rondando os aposentos na esperança de uma nova chance, quando a vida não
concede novas chances tão fácil assim.
O que nos mata, meu
amigo, é pois esse desamor lento e insidioso, singular e tenebroso, mortal e
venenoso. Mais venenoso que milhares de cascavéis nas trincheiras de quem não
nos ama e não nos quer bem.
Vejo que você não
entende. Não se preocupe, meu amigo. A gente só entende quando a navalha
daqueles que amamos penetra nossa carne profundamente. Um golpe terrível e
singelo, deixando nosso coração de joelhos no meio da sala. Chorando imersos na
penumbra do que já não existe mais.
Portanto, meu amigo,
não tema os fuzis e as metralhadoras dos alemães e seus canhões.
Quem mata é sempre o
fogo amigo...’

SÁBIA E BELA LIÇÃO ! NADA QUEIMA MAIS QUE O FOGO AMIGO...
ResponderExcluirRoberto,
ResponderExcluirO fogo amigo é responsável por muitas baixas nas guerras convencionais. Principalmente quando a artilharia calcula errado e acerta a coitada da infantaria que está com a faca nos dentes. E o que é pior sem saber o que está acontecendo na retaguarda. Um exemplo ainda mais triste é quando nos bastidores tramam o insucesso e a batalha no fronte serve somente aos interesses de poucos. Chico Avelar
Lição de mestre com doutorado, mestrado e outros "ados"! Por isso que a ingratidão fere tanto!
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