1 de mai. de 2013





Por ROBERTO VIEIRA           




Estava sentado sozinho no parque. Final de tarde. Um senhor de uns oitenta anos sentado do lado. Os dois pensando na vida. A imagem do Hotel Majestic e de Mario Quintana na cabeça. Havia chegado de Porto Alegre com a solidão de Quintana na cabeça.

O senhor lia um livro de poesias. Curiosamente era o ‘Esconderijo dos Tempos’, de Quintana. Eita, vida engraçada!

Pensava eu no livro e no que matava as pessoas. Qual o veneno que ia enrugando o semblante até ficar velhinho e cansado de viver. Estava triste. Uma tristeza desgramada, daquelas sem ter nem porque pra quem me visse naquele final de tarde.

O velho senhor do meu lado, adivinhando minhas indagações, não se fez de rogado. Olhou-me nos olhos, com aquele sotaque de Alegrete nos lábios e me explicou tim tim por tim o que eu não conseguia adivinhar... e disse algo mais ou menos assim.

‘O que mata a gente, meu amigo, não são as balas do inimigo no campo de batalha. Não são as fogueiras da inquisição e suas mortalhas. Não. O que mata a gente não é o câncer, o enfarte, a pneumonia nem a tuberculose. Tudo isso faz um mal danado, é verdade, mas nada disso nos mata posto somos alma antes de corpo.

O que nos mata de verdade e nos mata aos borbotões, aos pouquinhos, o que nos fere o coração e vai levando de mansinho aquilo que de mais belo e vivente possuímos é o que habita dentro de nós. Aqueles que amamos.

O abraço distante, o beijo negado daquela que habita nosso coração. O sorriso que não vem, a saudade que não tarda, a cumplicidade perdida no dia a dia dos dias e das noites sem sussurros e carícias discretas. As camas separadas e as viagens solitárias pelas madrugadas sem fim. O ‘eu te amo’ que não vem hoje, nem amanhã, nem depois de amanhã, nem nunca.

O que nos mata é a conversa do passado, aquela conversa jogada fora sem ter nem por que. Conversa desaparecida em ois, tchaus, sim e nãos. Sós.

O que nos mata é o filho que já não vemos, a filha que já não temos e o retrato na parede dos pais que não nos compreenderam nem nós compreendemos. Os vestígios de palavras rondando os aposentos na esperança de uma nova chance, quando a vida não concede novas chances tão fácil assim.

O que nos mata, meu amigo, é pois esse desamor lento e insidioso, singular e tenebroso, mortal e venenoso. Mais venenoso que milhares de cascavéis nas trincheiras de quem não nos ama e não nos quer bem.   

Vejo que você não entende. Não se preocupe, meu amigo. A gente só entende quando a navalha daqueles que amamos penetra nossa carne profundamente. Um golpe terrível e singelo, deixando nosso coração de joelhos no meio da sala. Chorando imersos na penumbra do que já não existe mais.

Portanto, meu amigo, não tema os fuzis e as metralhadoras dos alemães e seus canhões.

Quem mata é sempre o fogo amigo...’ 


3 comentários:

  1. SÁBIA E BELA LIÇÃO ! NADA QUEIMA MAIS QUE O FOGO AMIGO...

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  2. Roberto,
    O fogo amigo é responsável por muitas baixas nas guerras convencionais. Principalmente quando a artilharia calcula errado e acerta a coitada da infantaria que está com a faca nos dentes. E o que é pior sem saber o que está acontecendo na retaguarda. Um exemplo ainda mais triste é quando nos bastidores tramam o insucesso e a batalha no fronte serve somente aos interesses de poucos. Chico Avelar

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  3. Lição de mestre com doutorado, mestrado e outros "ados"! Por isso que a ingratidão fere tanto!

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Comentários