Por CARLOS HENRIQUE MENESES
Antes, muito antes de Cristo, lá pelo ano 900 A.C. viveu nas terras de
Jerusalém um homem santo, que reverenciava a Deus, e muitos o chamavam de
profeta. O nome de Elias aparece nas sagradas escrituras como um homem
completamente dedicado ao amor de Deus. Preferia o silêncio e a contemplação.
Quando aparecia em público era para falar de Deus.
Em 1727, o Papa Benedito XIII concedeu permissão à Ordem Carmelitana para
colocar na própria Basílica do Vaticano uma estátua do Santo Profeta Elias.
No cristianismo, o dia 20 de julho é conhecido como o “Dia de Santo Elias”!
O Recife no final do séc. XIX tinha suas terras ocupadas por sítios, um deles o
Sítio dos Matinhos. A classe média alta começou então a urbanizá-lo, loteando e
demarcando suas ruas, surgindo daí a Rua 48, Rua da Hora e a Rua do Espinheiro.
Todo o entorno começou a ser conhecido então com o nome de Bairro do
Espinheiro.
Com a expansão de sua urbanização, o bairro ganhou novas ruas, uma delas
batizada com o nome de Santo Elias, que desembocava na Conselheiro Portela,
caminho para a Igreja Matriz do Espinheiro. O bairro ganhava em beleza e
arquitetura, uma vez que, os casarões erguidos pelas suas ruas chamavam a
atenção de todos. Mas um deles, o de número 260, na Rua Santo Elias ficou
marcado na história de Pernambuco, como o quartel general dos maiores craques
que passaram pelo futebol do nosso estado.
No final do anos 50, o Náutico passou a usar o casarão de Santo Elias como a
concentração de seus jogadores. Tanto os jovens atletas, como os mais
experientes, chegando ao Recife eram alojados em um dos quartos da
concentração. Durante muitos anos o casarão 260 da Rua Santo Elias abrigou um
celeiro de craques alvirrubros. Era o quartel general. Ali ficavam
concentrados, faziam suas refeições, dormiam em véspera de jogo.
Na fachada do casarão predominou por muitos anos a cor bege clara,
janelas e portões vermelhos. Seu pátio interno era usado para estacionamento, e
chegava a guardar dez carros. O casarão era composto pelo térreo e o primeiro
andar.
No seu interior existiam por oito quartos, com duas ou três camas, sendo um
deles, no térreo, o maior de todos com seis camas era chamado carinhosamente de
“Maracanã”! E era exatamente nele que aconteciam as grandes reuniões entre os
atletas, reivindicando bichos e melhorias salariais. Muitos pactos por vitórias
foram fechados no Maracanã.
A cozinha era chefiada pelo Puskas. Dona Maria, uma senhora bem gorda, e de cor
negra era a ajudante do Puskas, arrumando as mesas de quatro lugares, que
ocupavam o refeitório.
Uma grande sala de estar abrigava os atletas para assistirem televisão, bem
como participarem das preleções de Duque. Os jogadores se deslocavam a pé até
os Aflitos para os treinos, e mesmo em dia de jogo. Por ordens de Duque, muitos
deles faziam caminhadas pelas ruas do Espinheiro, após o almoço. “Era para
fazer a digestão”.
Nas horas de folga uma mesa era colocada na calçada para um animado dominó.
Muitos sentavam no meio fio da rua para tirar um “dedo de prosa”.
Mas o que pouca gente sabe, e que corria em segredo de estado vai ser revelado
agora: várias, mas várias foram as noites que o casarão de Santo Elias recebeu
a visita de Pai Edu. Os quartos eram incensados com ervas, passes eram
distribuídos, banhos eram realizados nos jogadores. Todos tinham que tomar um
gole de pinga do Zé Pilintra, e dar uma baforada no charuto do Pai. Nessa hora,
Puskas e Dona Maria ajudavam com cubos de filé grelhado, que serviam como “tira
gosto”.
Muitas são as histórias do Casarão de Santo Elias. Fiquei encantado com todas
elas. Muitas risadas foram dadas nas conversas com Gena e Dr. Ivan Brondi (este
morou na concentração até casar em 1968). Dá para escrever um livro.
Com a chegada da especulação imobiliária, no início dos anos 70 o casarão de
Santo Elias foi demolido para dar lugar a um espigão O Náutico passou a
utilizar três outras casas para alojamento e concentração dos atletas. Uma em
Casa Forte, outra na Torre, e a terceira no bairro dos Aflitos.
Anos depois o Náutico fechou uma parceria com o Hotel Quatro Rodas, em Olinda,
utilizando os apartamentos para concentração, em véspera de jogo. O Náutico de
hoje tem em seu CT um hotel, com modernas instalações, sendo ele o novo QG do
time de Conselheiro Rosa e Silva.
O velho casarão de Santo Elias não existe mais fisicamente. Mas quem viveu
aquela época guarda bem vivo na memória as lendas e causos de um dos templos
sagrados do futebol de Pernambuco.

Retrato de um tempo que deveria servir de lição...
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