Por ROBERTO VIEIRA
O velhinho de Taubaté
ouviu um barulhaço no meio da noite:
- Que será, tchê?
O tchê vinha dos tempos
de criança do velhinho nos Pampas. Depois tinha casado com uma moça muito formosa
de Taubaté e mudara de ares. Passara a ser meio paulista, meio gaúcho. Não
esquecera o chimarrão mesmo no verão, porém cultivava a crença infinita da
esposa nos políticos de plantão. Agora, a velhinha estava no passado de sua
vida. O velhinho, no entanto, se agarrava tenazmente aos fidelismos do seu
grande amor.
- Que será, tchê?
Botou os olhos na rua e
escutou um panelaço digno dos panelaços da vizinha Argentina nos tempos de
Menem. Ou do Chile nos idos do Allende. Dizem que até Pinochet bateu umas
panelas enquanto prometia juras de eterno amor ao presidente.
- Mas não pode ser!
O velhinho de Taubaté
não entende como podem os brasileiros bater panelas quando a própria presidente
veio na televisão, no programa do mais que fidedigno partido dos trabalhadores,
garantir de voz plena a recuperação econômica do país. Como podem os brasileiros
duvidar de tão genuína demonstração de boa fé? Ainda mais sendo a presidenta
meio ‘gaúcha’, tchê!
O velhinho coça a
cabeça, consulta os botões, recorda que o ex-presidente Lula também participou
do programa, voz sincera, cabelos brancos, olhar patriarcal. Como podem os
brasileiros duvidar de semelhante senhor?
Por um instante, o
velhinho de Taubaté fica em dúvida. Na mesma hora, agentes secretos do Palácio
do Planalto tremem nas bases. Vigiado 24 horas por dia, o velhinho representa
os 7% de brasileiros que acham o governo Dilma um esplendor. Além dele, apenas
o Luisinho Veríssimo, afilhado da velhinha de Taubaté, o Fernando Morais e o
Barretão.
O velhinho olha lá
fora. Uma senhora volta pra casa com o filho em febre nos braços. Não havia
mais médicos. Não havia, na verdade, ninguém no posto de saúde do bairro. Na
porta de casa permanece o Corcel II, parado faz tempo, dinheiro pra gasolina só
uma vez por mês.
Em cima da mesa, a
conta de luz com a bandeira vermelha. Aquela mesma bandeira vermelhinha
parecida com a do PT.
O velhinho de Taubaté
não resiste. Pega o retrato da amada velhinha, beija o amarelado da foto, pede
desculpas e jura novamente eterno amor.
Depois, agarra uma
panela no armário, pega a colher de pau em cima da pia e vai pra varanda de
casa bater e bater e bater pela madrugada:
- Antes tarde do que
nunca, tchê!

Queridos amigos,
ResponderExcluiro blog do poeta está em marcha lenta (e até isso é apenas uma ilusão)... só que...
só que... as visitas são obrigatórias... as fotos, as dicas de livros, os textos são imperdíveis...
parabéns caro e querido amigo Roberto... das coisas boas da vida... com certeza, este blog e os amigos que participam dele estão inclusos.
1 abraço a todos.
Antonio
P.S. a panela não furou mas que quebrei a colher de pau isso eu consegui...
Mestre Roberto, lembrei de vc com essa magnífica vitoria do Athletic Bilbao sobre o Barça.
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