6 de ago. de 2015




Por ROBERTO VIEIRA       


O velhinho de Taubaté ouviu um barulhaço no meio da noite:
- Que será, tchê?
O tchê vinha dos tempos de criança do velhinho nos Pampas. Depois tinha casado com uma moça muito formosa de Taubaté e mudara de ares. Passara a ser meio paulista, meio gaúcho. Não esquecera o chimarrão mesmo no verão, porém cultivava a crença infinita da esposa nos políticos de plantão. Agora, a velhinha estava no passado de sua vida. O velhinho, no entanto, se agarrava tenazmente aos fidelismos do seu grande amor.
- Que será, tchê?
Botou os olhos na rua e escutou um panelaço digno dos panelaços da vizinha Argentina nos tempos de Menem. Ou do Chile nos idos do Allende. Dizem que até Pinochet bateu umas panelas enquanto prometia juras de eterno amor ao presidente.
- Mas não pode ser!
O velhinho de Taubaté não entende como podem os brasileiros bater panelas quando a própria presidente veio na televisão, no programa do mais que fidedigno partido dos trabalhadores, garantir de voz plena a recuperação econômica do país. Como podem os brasileiros duvidar de tão genuína demonstração de boa fé? Ainda mais sendo a presidenta meio ‘gaúcha’, tchê!
O velhinho coça a cabeça, consulta os botões, recorda que o ex-presidente Lula também participou do programa, voz sincera, cabelos brancos, olhar patriarcal. Como podem os brasileiros duvidar de semelhante senhor?
Por um instante, o velhinho de Taubaté fica em dúvida. Na mesma hora, agentes secretos do Palácio do Planalto tremem nas bases. Vigiado 24 horas por dia, o velhinho representa os 7% de brasileiros que acham o governo Dilma um esplendor. Além dele, apenas o Luisinho Veríssimo, afilhado da velhinha de Taubaté, o Fernando Morais e o Barretão.
O velhinho olha lá fora. Uma senhora volta pra casa com o filho em febre nos braços. Não havia mais médicos. Não havia, na verdade, ninguém no posto de saúde do bairro. Na porta de casa permanece o Corcel II, parado faz tempo, dinheiro pra gasolina só uma vez por mês.
Em cima da mesa, a conta de luz com a bandeira vermelha. Aquela mesma bandeira vermelhinha parecida com a do PT.
O velhinho de Taubaté não resiste. Pega o retrato da amada velhinha, beija o amarelado da foto, pede desculpas e jura novamente eterno amor.
Depois, agarra uma panela no armário, pega a colher de pau em cima da pia e vai pra varanda de casa bater e bater e bater pela madrugada:

- Antes tarde do que nunca, tchê! 


2 comentários:

  1. Antonio (à espera de Santos x Náutico na primeirona...)7 de agosto de 2015 às 12:58

    Queridos amigos,


    o blog do poeta está em marcha lenta (e até isso é apenas uma ilusão)... só que...

    só que... as visitas são obrigatórias... as fotos, as dicas de livros, os textos são imperdíveis...

    parabéns caro e querido amigo Roberto... das coisas boas da vida... com certeza, este blog e os amigos que participam dele estão inclusos.

    1 abraço a todos.

    Antonio

    P.S. a panela não furou mas que quebrei a colher de pau isso eu consegui...

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  2. Mestre Roberto, lembrei de vc com essa magnífica vitoria do Athletic Bilbao sobre o Barça.

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