Por ROBERTO VIEIRA
Uma manhã de maio de 1988.
Minha mãe recebe o diagnóstico de câncer de mama e
sai desconsolada pelo Recife.
O mundo se fez de cinza. Nenhuma palavra de consolo
do médico ao lhe dar a notícia.
Mesma manhã de maio de 1988.
Anfiteatro do Hospital das Clínicas.
Eu assisto fascinado a aula sobre câncer de mama.
Terminada a aula, vou tirar minhas dúvidas com o professor de bigode e sorriso
franco.
Chego em casa para almoçar e encontro minha mãe. Recebo
a notícia e examino a radiografia. Filho único, vi minha mãe cuidar de todos na
família e esquecer-se de si mesma. O nódulo já tinha algum tempo. Só agora ela
decidira em segredo fazer o exame.
Vou com minha mãe ao consultório de Dr. Abreu e
Lima. Pelas mãos de Dr. Abreu eu vim ao mundo. Ele nos indica o cirurgião para
realizar a cirurgia.
Achei curiosa a indicação. Destino. Peguei o carro e
fui com minha mãe até o consultório do cirurgião. Após algumas horas, entrei no
consultório, o cirurgião me olhou com um sorriso:
‘Você por aqui?’
Apresentei minha mãe ao professor que me dera a aula
na faculdade pela manhã. Ele fez o exame, observou as imagens e foi singelo:
‘Operamos amanhã!’
Lá se vão 27 anos. Minha mãe vai bem aos 82 anos.
Conheceu seus netos, viu se formar seu filho, aguarda ansiosa a chegada do
aniversário em outubro.
Dr. Antônio Figueira faleceu esta semana aos 68
anos.
Assim é a vida e a medicina. O médico que cura e
salva é o mesmo médico que se torna paciente um dia e diz adeus.
Jamais pude agradecer a Dr. Antonio suficientemente
o presente que ele me deu.
Eu que não acreditava em Santo Antonio, tive a honra
de conhece-lo.
Em corpo, alma e jaleco...

O Dr. Antonio Figueira não poderia, decerto, merecer melhor necrológio.
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