23 de jul. de 2015




Por ROBERTO VIEIRA     



Uma manhã de maio de 1988.

Minha mãe recebe o diagnóstico de câncer de mama e sai desconsolada pelo Recife.

O mundo se fez de cinza. Nenhuma palavra de consolo do médico ao lhe dar a notícia.

Mesma manhã de maio de 1988.

Anfiteatro do Hospital das Clínicas.

Eu assisto fascinado a aula sobre câncer de mama. Terminada a aula, vou tirar minhas dúvidas com o professor de bigode e sorriso franco.

Chego em casa para almoçar e encontro minha mãe. Recebo a notícia e examino a radiografia. Filho único, vi minha mãe cuidar de todos na família e esquecer-se de si mesma. O nódulo já tinha algum tempo. Só agora ela decidira em segredo fazer o exame.

Vou com minha mãe ao consultório de Dr. Abreu e Lima. Pelas mãos de Dr. Abreu eu vim ao mundo. Ele nos indica o cirurgião para realizar a cirurgia.

Achei curiosa a indicação. Destino. Peguei o carro e fui com minha mãe até o consultório do cirurgião. Após algumas horas, entrei no consultório, o cirurgião me olhou com um sorriso:

‘Você por aqui?’

Apresentei minha mãe ao professor que me dera a aula na faculdade pela manhã. Ele fez o exame, observou as imagens e foi singelo:

‘Operamos amanhã!’

Lá se vão 27 anos. Minha mãe vai bem aos 82 anos. Conheceu seus netos, viu se formar seu filho, aguarda ansiosa a chegada do aniversário em outubro.

Dr. Antônio Figueira faleceu esta semana aos 68 anos.

Assim é a vida e a medicina. O médico que cura e salva é o mesmo médico que se torna paciente um dia e diz adeus.

Jamais pude agradecer a Dr. Antonio suficientemente o presente que ele me deu.

Eu que não acreditava em Santo Antonio, tive a honra de conhece-lo.


Em corpo, alma e jaleco... 


Um comentário:

  1. O Dr. Antonio Figueira não poderia, decerto, merecer melhor necrológio.

    ResponderExcluir

Comentários