28 de jul. de 2015




Por CARLOS HENRIQUE MENESES, MDM           



          O bairro de Santo Amaro está de luto. Faleceu o seu filho pródigo, aquele que durante 68 anos viveu intensamente o dia a dia de uma comunidade.
Ninguém sabe por que, nem mesmo ele, mas desde criança que Geraldo José dos Santos era chamado de Lala pelos familiares e amigos de rua do bairro de Santo Amaro, local onde nasceu e viveu, até hoje.
Lala nasceu em 1946, no pós-guerra. O mundo estava dividido entre o bem (aliados) e o mal (nazistas, italianos, japoneses). Mas bem ali, em Santo Amaro, zona norte de Recife, mais parecia um dia qualquer. Em 12 de Abril a Dona Maria Barbosa dos Santos deu a luz a um menino.
. Ele ria quando dizia que, “nasceu e cresceu no mesmo bairro”, e hoje, já bisavô, ainda morava no mesmo lugar, e até quando morresse ia ficar por lá, pois o cemitério fica em Santo Amaro. “Não precisa pagar nem o carro da funerária”.
Lala era destro, jogava de meia nas peladas de Santo Amaro, no campo do onze, e no campo do vovozinhas. Um dia, ainda com 15 anos recebeu um convite para treinar no Náutico. Seu Bill, olheiro e assistente de Alexandre Borges apostou todas as fichas naquele tampinha.
Logo nos primeiros treinos demonstrou muita habilidade com a bola, além de um potente chute de direita. Alexandre Borges botou seu olho clínico em Lala e disse: No treino de amanhã você vai ser o ponta esquerda do time. Lala seria, aos 18 anos, titular do clube Náutico Capibaribe.
Aquele menino de Santo Amaro, que a família tanto rezou para ele crescer, de repente transformou-se num gigante, reconhecido em todo o Brasil como um dos craques do famoso ataque das quatro letras mágicas (Nado, Bita, Nino e Lala).
Foram anos maravilhosos. Seis títulos consecutivos. Uma participação efetiva em todas as campanhas do Náutico na Taça Brasil. Gols decisivos, alguns deles antológicos. Amigo de todas as horas, fiel escudeiro. Lala era o exemplo do verdadeiro companheiro de clube.
Titular absoluto da camisa onze, só não jogava por motivo de contusão ou expulsão, Lala era presença certa na escalação do time. Nunca trouxe os seus pais para assistir seus jogos, exceto em eventual jogo festivo. Eles ficavam em casa, rádio ligado, torcendo pelo gigante da ponta esquerda, orgulho da família dos Santos.
Lala foi autor de muitos gols defendendo as cores do Náutico. Mas todo jogador tem sempre na memória o gol inesquecível, aquele que entra para a eternidade como o gol de placa. Não poderia ser diferente com Lala. E ele contava este gol com uma riqueza de detalhes que até parece que foi ontem, até parece que o tempo ainda pode voltar.
O jogo foi Náutico e Cruzeiro pelas semifinais da Taça Brasil de 67. O timbu tinha perdido a primeira partida em Belo Horizonte por 2x1. A Ilha do Retiro estava lotada até o teto. Não cabia mais uma alma viva. O Náutico era só pressão em cima do Cruzeiro de Tostão e Cia. Eles não sairiam vivos de Recife. Foi um bombardeio alvirrubro na meta defendida por Raul. No segundo tempo, com o Náutico atacando para o gol da sede, e com o placar 2x0 para o Timbu, houve um cruzamento rasteiro vindo da ponta direita. Nino fez um corta luz e a bola sobrou livre para Lala, na entrada da área cruzeirense.
Ele encheu o pé, soltou uma bomba, um petardo. A bola bateu no travessão, depois no chão e entrou. Raul nem se mexeu. Gol do Náutico! golaço de Lala. 3x0. A Ilha do Retiro explodiu de alegria e contentamento. Lala levou as mãos ao rosto e chorou!
Lala descreve como a noite mais feliz da sua vida no futebol, pois o dia mais feliz foi no jogo do hexa contra o Sport. Lála era uma figura e tanto, alegre, extrovertido, sem papas na língua, sempre com mil histórias de futebol pra contar, todas do Náutico, seu time do coração!
Lala era o responsável pela escolinha do Clube Náutico Capibaribe, no CT Wilson Campos, bairro da Guabiraba. De segunda a sexta, das 08 às 10h e das 14 às 16h era possível encontrá-lo ensinando os fundamentos da bola para uma garotada ávida em aprender, e também ouvir as histórias do tio Lala, todas elas com um final feliz. Afinal, o gigante Lala foi um vencedor no futebol, o orgulho da família dos Santos!
Nós, arquibaldos e geraldinos, aplaudimos de pé a sua despedida do nosso convívio. Obrigado por tudo que você fez pelo nosso Náutico, dentro e fora do campo. Obrigado por ter feito a alegria de milhares de alvirrubros durante seis maravilhosos anos. Obrigado pelos gols que você fez vestindo a camisa número onze. Obrigado pelo seu sangue, suor e lágrimas derramados defendendo o Náutico.

Descanse em paz, amigo Lala! 


2 comentários:

  1. Lala, como um dos grandes craques do Náutico, me deu muitas alegrias.

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  2. Não há nenhuma discrepância entre a minha observação de que Lala ascendeu à equipe principal com 16 anos e a informação sempre abalizada de Carlos Henrique de que ele se tornou titular do Náutico aos 18 anos. Ambas as afirmações são verdadeiras. Realmente, Lala estreou na equipe profissional do Náutico no dia 10 de fevereiro de 1963, em Caruaru, em um amistoso contra o Central cujo placar foi 2 x 2, sendo Lala autor de um dos tentos dos alvirrubros. Nascido em 12 de abril de 1946 (como informa Carlos Henrique), nessa oportunidade tinha apenas 16 anos. Por outro lado, Carlos Henrique está certíssimo quando informa que Lala somente se tornou titular do Náutico, em 1964, quando já tinha 18 anos. Portanto, tudo certo. Esclareço que a minha fonte foi, como sempre, Carlos Celso Cordeiro.

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