Por CARLOS HENRIQUE MENESES, MDM
O bairro de
Santo Amaro está de luto. Faleceu o seu filho pródigo, aquele que durante 68
anos viveu intensamente o dia a dia de uma comunidade.
Ninguém sabe por
que, nem mesmo ele, mas desde criança que Geraldo José dos Santos era chamado
de Lala pelos familiares e amigos de rua do bairro de Santo Amaro, local onde
nasceu e viveu, até hoje.
Lala nasceu em
1946, no pós-guerra. O mundo estava dividido entre o bem (aliados) e o mal
(nazistas, italianos, japoneses). Mas bem ali, em Santo Amaro, zona norte de
Recife, mais parecia um dia qualquer. Em 12 de Abril a Dona Maria Barbosa dos
Santos deu a luz a um menino.
. Ele ria quando
dizia que, “nasceu e cresceu no mesmo bairro”, e hoje, já bisavô, ainda morava
no mesmo lugar, e até quando morresse ia ficar por lá, pois o cemitério fica em
Santo Amaro. “Não precisa pagar nem o carro da funerária”.
Lala era destro,
jogava de meia nas peladas de Santo Amaro, no campo do onze, e no campo do
vovozinhas. Um dia, ainda com 15 anos recebeu um convite para treinar no
Náutico. Seu Bill, olheiro e assistente de Alexandre Borges apostou todas as
fichas naquele tampinha.
Logo nos primeiros
treinos demonstrou muita habilidade com a bola, além de um potente chute de
direita. Alexandre Borges botou seu olho clínico em Lala e disse: No treino de
amanhã você vai ser o ponta esquerda do time. Lala seria, aos 18 anos, titular
do clube Náutico Capibaribe.
Aquele menino de
Santo Amaro, que a família tanto rezou para ele crescer, de repente
transformou-se num gigante, reconhecido em todo o Brasil como um dos craques do
famoso ataque das quatro letras mágicas (Nado, Bita, Nino e Lala).
Foram anos
maravilhosos. Seis títulos consecutivos. Uma participação efetiva em todas as
campanhas do Náutico na Taça Brasil. Gols decisivos, alguns deles antológicos.
Amigo de todas as horas, fiel escudeiro. Lala era o exemplo do verdadeiro
companheiro de clube.
Titular absoluto da
camisa onze, só não jogava por motivo de contusão ou expulsão, Lala era
presença certa na escalação do time. Nunca trouxe os seus pais para assistir
seus jogos, exceto em eventual jogo festivo. Eles ficavam em casa, rádio
ligado, torcendo pelo gigante da ponta esquerda, orgulho da família dos Santos.
Lala foi autor de
muitos gols defendendo as cores do Náutico. Mas todo jogador tem sempre na
memória o gol inesquecível, aquele que entra para a eternidade como o gol de
placa. Não poderia ser diferente com Lala. E ele contava este gol com uma
riqueza de detalhes que até parece que foi ontem, até parece que o tempo ainda
pode voltar.
O jogo foi Náutico
e Cruzeiro pelas semifinais da Taça Brasil de 67. O timbu tinha perdido a
primeira partida em Belo Horizonte por 2x1. A Ilha do Retiro estava lotada até
o teto. Não cabia mais uma alma viva. O Náutico era só pressão em cima do
Cruzeiro de Tostão e Cia. Eles não sairiam vivos de Recife. Foi um bombardeio
alvirrubro na meta defendida por Raul. No segundo tempo, com o Náutico atacando
para o gol da sede, e com o placar 2x0 para o Timbu, houve um cruzamento
rasteiro vindo da ponta direita. Nino fez um corta luz e a bola sobrou livre
para Lala, na entrada da área cruzeirense.
Ele encheu o pé,
soltou uma bomba, um petardo. A bola bateu no travessão, depois no chão e
entrou. Raul nem se mexeu. Gol do Náutico! golaço de Lala. 3x0. A Ilha do
Retiro explodiu de alegria e contentamento. Lala levou as mãos ao rosto e
chorou!
Lala descreve como
a noite mais feliz da sua vida no futebol, pois o dia mais feliz foi no jogo do
hexa contra o Sport. Lála era uma figura e tanto, alegre, extrovertido, sem
papas na língua, sempre com mil histórias de futebol pra contar, todas do
Náutico, seu time do coração!
Lala era o
responsável pela escolinha do Clube Náutico Capibaribe, no CT Wilson Campos,
bairro da Guabiraba. De segunda a sexta, das 08 às 10h e das 14 às 16h era
possível encontrá-lo ensinando os fundamentos da bola para uma garotada ávida
em aprender, e também ouvir as histórias do tio Lala, todas elas com um final
feliz. Afinal, o gigante Lala foi um vencedor no futebol, o orgulho da família
dos Santos!
Nós, arquibaldos e
geraldinos, aplaudimos de pé a sua despedida do nosso convívio. Obrigado por
tudo que você fez pelo nosso Náutico, dentro e fora do campo. Obrigado por ter
feito a alegria de milhares de alvirrubros durante seis maravilhosos anos.
Obrigado pelos gols que você fez vestindo a camisa número onze. Obrigado pelo
seu sangue, suor e lágrimas derramados defendendo o Náutico.
Descanse em paz, amigo
Lala!

Lala, como um dos grandes craques do Náutico, me deu muitas alegrias.
ResponderExcluirNão há nenhuma discrepância entre a minha observação de que Lala ascendeu à equipe principal com 16 anos e a informação sempre abalizada de Carlos Henrique de que ele se tornou titular do Náutico aos 18 anos. Ambas as afirmações são verdadeiras. Realmente, Lala estreou na equipe profissional do Náutico no dia 10 de fevereiro de 1963, em Caruaru, em um amistoso contra o Central cujo placar foi 2 x 2, sendo Lala autor de um dos tentos dos alvirrubros. Nascido em 12 de abril de 1946 (como informa Carlos Henrique), nessa oportunidade tinha apenas 16 anos. Por outro lado, Carlos Henrique está certíssimo quando informa que Lala somente se tornou titular do Náutico, em 1964, quando já tinha 18 anos. Portanto, tudo certo. Esclareço que a minha fonte foi, como sempre, Carlos Celso Cordeiro.
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