20 de mai. de 2014



CÂNDIDO PORTINARI


POR ROBERTO VIEIRA


O filho olhou o pão doce trazido pelo pai e exclamou:

- Eca!

Silêncio do pai.

O filho era muito jovem e estava satisfeito com o jantar. A sala foi se esvaziando na noite, o filho voltou pra brincadeira esperando a chegada da mãe e o pai ficou olhando o pão doce e a mesa posta sobre a sala.

Como explicar a fome a quem nunca sentiu fome? Como demonstrar que aquele pão doce significava um objeto inconcebível para 4/5 da humanidade?

Citando sua mãe e o romano Marcus Cícero?

A fome é o melhor tempero!

Talvez. Mas a época era de abundancia coletiva. Vários sapatos, muitas roupas, brinquedos à beça, quatro televisores pela casa, saídas para shopping centers. Era mesmo difícil falar em fome e sede e sofrimento. O pai pegou o pão doce e comeu. Foi um doce amargo na garganta, um gosto de um tempo que desejava esquecer.

Pois a fome, esta senhora distante da classe média brasileira, a fome fora companheira de dias e noites dos seus pais quando crianças. Ele crescera ouvindo as histórias das privações constantes, do trabalho delirante de sol a sol para conseguir um mísero prato de comida – a emoção de ver o filho único livre daquele fantasma ancestral.

Ele nunca sentira fome. Ele tivera de tudo nos limites das posses dos pais que trabalhavam para fazer do filho doutor. Ele tinha apenas esta memória imaginária da avó amassando bolinhos de feijão com farinha para distrair os olhos encovados da filha caçula. Ele tinha apenas a memória do pai conduzindo rebanho pela noite do interior aos doze anos para escapar do destino inevitável dos pobres camponeses nordestinos.

E era esta memória que calara os olhos diante da frase do filho caçula. Um filho inocente da genealogia famélica dos avós e bisavós.

Sorriu. Pensou em Jorge, professor de português que pegava no pé da turma no colégio afirmando que a educação tem raízes amargas, mas seus frutos são doces. Jorge que se esquecia de atribuir a frase ao gênio de Aristóteles.

Ele iria esperar o filho pequeno crescer mais um pouco. Chegar à idade da irmã. Moravam numa cidade rica e miserável. A fome estava ali bem presente, apesar dos reclames governamentais. Não era mais a fome dos seus pais – mas era fome. Aguardaria um dia na McDonald’s, o milk shake de chocolate, o Big Mac tropical. Aguardaria todo o ritual anglo saxão de comer até estourar os miolos e entraria com o filho no carro.

E como havia feito com a irmã e os irmãos mais velhos, ele iria passear pelos becos da fome e da miséria, do crack e da desumanidade. Pelo pequeno inferno daqueles que dormem pela rua por destino ou por desejo.

E só então, neste momento de perplexidade, quando o filho pedisse para sair correndo daquele inferno sobre seu Jardim do Éden, iria começar a contar a velha história da única galinha daquelas três mulheres no interior da Paraíba, do feijão e da fava carregada nas costas e do orgulho que sentia de ter nascido de pessoas que conheceram tão bem a fome, tão concretamente a sede, tão intimamente a pobreza, que decidiram nunca permitir que seu único filho beijasse o passado.

O filho não compreenderia de supetão. Seriam necessárias muitas quedas, muitos golpes da vida para que a lição amadurecesse em sua alma instagram.

Porém, como acontece com todos os pais e filhos, um dia aquela conversa retornaria numa mesa de jantar.

Juntamente com a saudade e o silencio do pai...  


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