* Originalmente publicado na seção de cartas do Estado de S. Paulo em maio de 2007, após a Justiça ordenar a incineração da biografia de Roberto Carlos...
Por
ROBERTO VIEIRA
No início era o verbo.
E o homem criou a censura.
Juntos, verbo e censura percorreram
milênios até chegar aos nossos dias.
Muitas vezes a censura silenciava o
verbo.
Para logo depois o verbo ressuscitar
mais forte.
Faraós censuravam hieróglifos.
Rebeldes egípcios escreviam sátiras.
Quando Césares atiravam rebeldes ao
Coliseu.
Cristãos redigiam o Novo Testamento.
Czares prendiam.
Tolstoi e Dostoievski criavam.
Hollywood vociferava while Chaplin
filmava o Grande Ditador.
Para cada Torquemada, um Bruno.
Até mesmo o inferno de Dante
alimentava-se da palavra de Virgílio.
Hoje, cidades erguem monumentos à
censura.
Sob o silêncio conivente de alguns intelectuais.
Intelectuais que são as primeiras
vítimas da censura.
Há
muito tempo, John Milton dizia:
.
Apenas o acesso irrestrito ao verbo pode
levar o homem a distinguir certo e errado.
Porque só existe liberdade onde existe o
verbo.
Lembrem!
Primeiro os nazistas
queimaram O Capital de Karl Marx.
E disseram ao povo
que estavam queimando o livro, pois estava repleto de mentiras bolchevistas.
Depois eles queimaram
os livros de Sigmund Freud.
Para evitar que os
médicos judeus penetrassem nos sonhos da juventude hitlerista.
Mais adiante, Remarque,
o qual insistia que não havia nada de novo no front.
Pouco depois, era
inverno, chegou à vez de Thomas Mann e sua Montanha Mágica.
Então, em maio de
1933, primavera.
Milhares de obras de
escritores alemães foram queimadas em praça pública por ordem de Goebbels.
Fumando seu cachimbo,
Sigmund Freud ironicamente comentou que o progresso do mundo era deveras
curioso.
Na Idade Média, eles
iriam me queimar.
Hoje queimam meus
livros.
De livro em livro, de
fogueira em fogueira.
.
Os nazistas foram
destruindo cada traço de cultura dissonante.
Até que por fim só
restaram eles próprios e o Mein Kampf.
Eles pereceram.
Já os livros
continuaram sendo lidos e renasceram das cinzas, ainda mais belos.
Hoje em qualquer
democracia podemos ler Marx, Freud, Mann e Mein Kampf.
Entretanto, de vez em
quando, ecos do obscurantismo assustam os que amam as palavras.
Pareceres jurídicos
tomam o lugar das antigas chamas, dando um verniz de modernidade à antiga
inquisição.
O escritor uruguaio
Eduardo Galeano recorda que ‘ditaduras militares não queimam mais os livros.
Elas o reciclam.’
.
Felizmente, a
destruição de uma obra escrita será sempre uma vitória de Pirro,
Como nos revelava o
filósofo Ralph Waldo Emerson.
Cada livro, ao ser queimado, ilumina o mundo.

Nenhum comentário:
Postar um comentário
Comentários