15 de set. de 2013




         

Por EDGAR MATTOS, MDM

                                                         
            O presidente Gustavo Dubeux estava desesperado. Depois de uma campanha bastante irregular as chances de classificação do Sport para ascender à Série A eram reduzidíssimas. Mesmo ganhando todos os jogos que lhe restavam, o que era improvável ante o retrospecto de seu desempenho, ainda assim o clube da Ilha do Retiro dependeria do resultado negativo de outras três equipes. Então, o problema já escapava da alçada administrativa para situar-se na área do sobrenatural, no terreno da fé e do milagre.
            O primeiro a ser lembrado, pelas suas íntimas relações com o clube, foi aquele mesmo Pai de Santo. Mas, rememorando o desfecho do episódio anterior - quando recebera um simples boi quando a promessa era de um búfalo – o Babalorixá não só se negou a ajudar de novo, como advertiu logo: por conta daquela afronta a agremiação rubro-negra estava definitivamente “queimada” com toda categoria, inclusive com os Pais de Santo da Bahia que, por causa daquela inadimplência do Sport, estavam se recusando até a ajudar o Vitória, simplesmente por ter as mesmas cores do clube pernambucano.
            A ala católica da diretoria recomendou que se apelasse para os santos, havendo quem sugerisse a intermediação do Arcebispo Dom Fernando Saburidio, declarado torcedor do Sport. O Arcebispo, no entanto, disse que pela dimensão do milagre era melhor recorrer a um religioso de maior prestígio, no caso o seu antecessor, o aspirante a santo Dom Hélder Câmara. Procurado, D. Hélder lembrou sua opção pelos pobres e, em consequência, seu compromisso com os da série D e C. Ou seja, já estava ocupadíssimo em ajudar o Santa Cruz e nada mais poderia fazer.
            Dubeux então se recordou de que, na adolescência, tinha sido devoto de Nossa Senhora e a ela resolveu recorrer. Ouvindo pacientemente a invocação daquele aflito homem, a Mãe de Deus explicou que, não querendo sobrecarregar o seu Filho, somente lhe fazia um pedido a cada 12 meses. E que, em 2011, resolvera ajudar aquele que se revelasse o melhor pai do ano. No caso, a escolha recaíra em um senhor chamado Waldemar Lemos. Essa resposta agravou ainda mais o desespero do presidente do Sport.  
            Foi aí que aquele diretor sugeriu que se recorresse a São Jorge, um santo desportista que, antes, já prestara serviço ao rubro-negro pernambucano. Embora se recordasse daquele jogo da Taça Brasil,  em que, chateado com o Corinthians, clube do qual é patrono, ajudara o Sport a derrotá-lo, São Jorge explicou que este ano estava empenhadíssimo em fazer do alvinegro paulista campeão do Brasil. E não tinha tempo para mais nada. E indagou: por que vocês não procuram o Padim Ciço, o milagroso do Nordeste ?
            Só que o Padim Ciço logo se escusou,  justificando-se: “ meus filhos, vocês já pensaram no trabalho que estão me dando os times aqui do meu Ceará ? O Fortaleza, já foi aquele drama para mantê-lo na série C; já o meu Icasa e o Ceará foram carga demais para mim; nem eu consegui salvar. Procurem um santo pernambucano”
Depois de muito pensar, os dirigentes rubro-negros se lembraram de Frei Damião que, mesmo ainda não sendo propriamente um santo, tinha uma história de muitos milagres pelos sertões pernambucanos. Frei Damião, ainda mais curvado de que sempre, recebeu os dirigentes do Sport com sua habitual bonomia:
“-Que é que posso fazer por vocês, meus filhinhos ?”
No entanto, ao tomar conhecimento da natureza da reivindicação, suspirou desanimado:
“- Ah, esses problemas do futebol... Este ano procurei, literalmente, carregar o Salgueiro nas costas. Mas o peso foi demasiado para mim. Fiquei ainda mais curvado e nada consegui. Mas, lá na Itália torcia pelo Milan; sou rubro-negro desde a infância e não quero dar um “não” a vocês. Só que esse milagre, do qual vocês precisam, é muito grande. Para merecê-lo, o Sport necessitaria passar por um processo de purificação. Deixem-me a sós com o seu presidente que eu vou explicar o que ele precisa se comprometer a fazer para obter a grande graça da classificação.”
Uma vez sozinhos, disse Frei Damião a Gustavo Dubeux:
-“Meu jovem: você não está tratando com nenhum Pai de Santo. Com as coisas de Deus não se brinca. Então você vai ter que prometer duas coisas.”
- Diga logo, Frei Damião, nós precisamos muito de ir para a série A  Eu farei qualquer coisa que o senhor disser.
- “É muito simples, meu jovem; são duas providências, uma, a curto prazo; outra, a médio prazo. No fim do ano, depois da classificação obtida, você vai botar pra fora esse Saci – evidente personagem do Mal, e demitir o Wanderson Lacerda e toda a diretoria de futebol por cuja incompetência vou ter agora esse trabalho todo.”
 “Agora, a providência a médio prazo:  você vai se comprometer a demolir tudo que estiver construído na Ilha do Retiro...”
“Olhe lá, “seu” Dubeux, se, por acaso, você vier a descumprir essa promessa as piores coisas acontecerão ao seu clube:
·        Homero Lacerda assumirá a presidência do Sport;
·        Berillo Jr. encontrará e divulgará, finalmente, suas anunciadas 200 horas de gravação, e
·        o Náutico será de novo hexacampeão pernambucano”
- Que é que isso, meu Frei, Deus nos livre de tantas calamidades ! Fique certo de que vou cumprir minha promessa – garantiu o apavorado Gustavo.
- Mas veja bem meu rapaz: é pra derrubar o estádio, a sede, os ginásios, o parque aquático, o parque de tênis, tudinho mesmo...
- Pode deixar comigo, meu santo, para usar da linguagem bíblica: não ficará pedra sobre pedra !
- Amém, disse Frei Damião.
E O MILAGRE ACONTECEU...


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