Em 1949, o América tinha uma equipe poderosa. Amaury no gol, Cido na zaga, Dequinha no meio campo e Buarque no ataque eram jogadores de fino trato. No dia 10 de abril, a equipe abriu o campeonato pernambucano contra o Íbis. Para quem esperava mera formalidade pelo aniversário de trinta e cinco anos do América, a ser comemorado dois dias depois, veio a surpresa da suada vitória esmeraldina por 5 a 3. O destaque foi a atuação do zagueiro Cido, o qual se contundiu sendo deslocado para a ponta-esquerda já que não era permitida a substituição. Na ponta-esquerda, Cido transformou-se em artilheiro, balançando por duas vezes as redes do arqueiro ibiense, Ísaías, salvando o América do empate inesperado.
Eram tempos de muitos gols, enquanto América e Íbis marcavam oito tentos, a seleção brasileira no sul-americano disputado no Pacaembu e em São Januário, disparava um 10 a 1 sobre la frágil Bolívia do goleiro Arraya. Mal sabia o América que dois meses depois iria medir forças contra o Expresso da Vitória, o Vasco da Gama, campeão sul-americano de futebol, base da seleção brasileira favorita ao título mundial de 1950.
No dia 13 de junho de 1949, pleno dia de Santo Antonio, a delegação do Vasco da Gama chega ao Recife sob comando de Flávio Costa. O Vasco retorna de uma excursão ao Ceará, onde havia derrotado o Ceará Sporting pelo placar de 6 a 1. No mês anterior, quebrara a invencibilidade do poderoso Arsenal, invicto em terras brasileiras. Para delírio de quem gostava do bom futebol, seis jogadores da seleção de Flávio Costa se hospedaram no Hotel Central: Barbosa, Augusto, Eli, Danilo, Ademir e Maneca. De quebra, Heleno de Freitas fazia parte do elenco.
A estreia dos vascaínos foi marcada para o dia 16 de junho na Ilha do Retiro. O América acabara de bater o Santa Cruz, campeão estadual em 1948, sob a batuta do técnico Valentim Navamuel. Os bastidores do América eram conduzidos pelo futuro vice-rei do Nordeste, Rubem Moreira. A arbitragem estava a cargo do inglês Cecil Barrick, integrante da delegação carioca, um dos responsáveis por ensinar a correta interpretação das regras do futebol aos jogadores brasileiros em ritmo de Copa do Mundo.
O preço dos ingressos foi acertado em Cr$ 100,00 para automóveis, inclusive com motoristas – naquele tempo na Ilha, automóvel tinha lugar cativo, como num drive-in – cadeiras de arquibancadas Cr$ 80,00, arquibancadas Cr$ 40,00, cadeira de pista Cr$ 30,00, sócios, crianças, mulheres e militares Cr$ 20,00. Os bilhetes podiam ser adquiridos na Sapataria Luso-Brasileira, na rua 1° de março ou na sede da FPF.
Antes do prélio, os dirigentes americanos comandados pelo presidente Anésio Silva e por Rubem Moreira, levam o Vasco da Gama para um almoço regional inesquecível no restaurante Maxime's no Pina.
Por outro lado, o árbitro Cecil Barrick tornou-se atração na cidade. O Diario de Pernambuco solicitou a um de seus colaboradores, professor de inglês e acadêmico de medicina, Laudenor Pereira, a entrevista com o famoso árbitro inglês no Hotel Central. Introdutor da diagonal na arbitragem internacional, condecorado pelo rei britânico durante a final da Copa da Inglaterra, Barrick concede entrevista sensacional, encantado pela beleza do Recife. O episódio marcou a vida do futuro cirurgião vascular e professor universitário Laudenor Pereira, o qual se tornaria também lendário médico do Sport Club do Recife.
O público superlotou as dependências da Ilha do Retiro. O América alinhou Amaury; Doutor e Cido; Julinho, Dequinha e Astrogildo; Isaías, Amaro, Buarque, Valeriano e Dija. O potiguar Dequinha estreando contra a equipe vascaína que ele tornaria a enfrentar em outros tantos carnavais cariocas. O Vasco da Gama formou com Barbosa; Augusto e Sampaio; Eli, Danilo e Jorge; Nestor, Maneca, Heleno de Freitas, Ademir e Mario.
O América jogou o que sabia e o que não sabia. Mas como ultrapassar as defesas de Moacir Barbosa? Como suplantar a linha média com Eli, Danilo e Jorge? Como resistir a um ataque que tinha dois dos maiores atacantes da história do futebol mundial: Heleno e Ademir?
Durante 22 minutos, o sexteto defensivo do América fez uma atuação de gala. Foi então que Ademir deu um dos seus rushs famosos, saudoso do gramado onde dera seus primeiros chutes no futebol profissional. Doutor e Cido não puderam acompanhar o Queixada: Vasco 1 a 0.
Mas o dono do espetáculo foi Heleno de Freitas. Disposto a mostrar que tinha vaga na seleção, Heleno aproveitou rebote de Cido e mandou petardo inapelável nas redes de Amaury aos 24 minutos de peleja. O América mal teve tempo de saber o que estava acontecendo, como boxeador que recebe um direto no queixo e Heleno entrou na grande área americana tabelando com Ademir em velocidade, marcando seu segundo gol na partida.
O primeiro tempo terminou em 3 a 0. O Vasco da Gama satisfeito com o escore. O América sem forças para reagir. A plateia aplaudindo o segundo tempo de bola de pé em pé. O velho Menezes, pai de Ademir, sendo vigiado de perto pelos dirigentes com medo de perderem algum jovem valor para o sul do país. No Rio Grande do Sul, uma bomba explodia entre os torcedores colorados. Tesourinha estava indo para o Vasco da Gama.
O Expresso era mesmo implacável.

Relato magnífico,Roberto.O velho Mequinha contra um dos maiores times de todos os tempos.
ResponderExcluirCarlos Leite.
o pai de ADEMIR era conhecido como MURIÇOCA...
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