1 de abr. de 2013






Rhayner, a bola e o gol 



20130401-101648.jpg
POR ZÉ ROBERTO*
Era uma vez um garoto capixaba, de nome Rhayner, que se apaixonou pela bola.
Foi seu primeiro brinquedo e, embora feminino, como a boneca, a mini-cozinha de sua irmã, ninguém se opôs à sua paixão.
Desde cedo saia com ela, dormiam mesmo abraçados.
Em Serra, no Espírito Santo, deram os pés e correram pelos campinhos de terra batida durante toda a adolescência.
Namoraram nos juniores do Grêmio Barueri e juntaram os trapinhos nos profissionais do Clube Náutico Capibaribe, em Recife.
A união seguia bem, estável, prometia chegar até a seleção brasileira se o casal não amargasse uma terrível crise de abstinência.
Há exatos dois anos e 83 jogos disputados, a bola e Rhayner não conseguem um orgasmo, que no futebol é alcançado por um grito de gol.
Embora se esforçassem, a relação tem batido na trave, passado raspando, raras vezes subindo e, muitas outras, nem subindo. Mal chegando perto do gol adversário.
Ah! O gol.
Pobre do futebolista que entrar em campo, qualquer um, na amadora grama sintética do SESI ou na de profissionais de esmeralda do Estádio Raulino de Oliveira, sem pensar em alcançá-lo.
É como se arrumar num sábado à noite, colocar seu melhor perfume, sair a conquistar a pessoa amada e após a corte, deixá-la na porta de casa para o centroavante “companheiro” concluir a jogada.
Ai de quem não persegui-lo à exaustão, não importa a posição, vai viver incompleto, não terá nem prole ou história, vai apenas herdar os abraços que cedeu ao herói artiheiro que a atirou, com violência ou carinhosamente, nos fundos de uma rede.
Quer uma paixão maior que a do Túlio?
Vive a persegui-lo, pouco se importando se as redes se tornaram menos sensuais, fúteis até, mas ele quer continuar alcançando seu milésimo êxtase em motéis armados em estádios vazios.
A solução foi mudar de ares.
Rhayner e a bola trocaram Recife pelo Rio, o Náutico pelo Fluminense.
Recebido com carinho por Abel Braga, apoiado pelos companheiros, o atacante tem procurado conduzir sua parceira com destreza, habilidade, por todos os lados do campo, mas suas penetrações ao gol são concluídas pelo Fred, às vezes pelo Samuel, Rafael Sóbis e, quem diria, até por um tal de Michael.
Sua companheira nunca foi tão infiel.
Jogada aos céus quando carinhosamente foi posta na marca do pênalti, por duas vezes, anda cansada de ser oferecida a um companheiro mais bem colocado.
Se colocar à feição de frente, de lado e ser passada a alguém mais motivado e com um tesão pelo gol que ele parece ter perdido.
A bola pensou até em denunciá-lo pela Lei Maria da Penha, não por maus tratos, mas por abandono.
Mas pensou melhor e vai lhe dar outra chance.
Afinal, o casal tem uma história junto, ainda faltam algumas rodadas para o fim da relação, digo, do estadual carioca e a paixão pode ser reconquistada.
Basta que Rhayner, 22 anos, seja mais amante que co-amante. Mais passageiro que taxista, aponte seu próprio destino e conclua todos os seus atos de criação.
Porque sem tesão, na vida e no futebol, não há mesmo solução.
​​​​​​Zé Roberto, 60 anos, 17 de futebol e raros 83 gols sublimemente alcançados. Ex-jogador da dupla Fla-Flu nos anos 70 e autor do livro “Crônicas de um (ex)jogador”


Um comentário:

  1. Assisti o lance de Rhayner ao vivo,torcendo para que ele fizesse o gol.Mas confesso que ri bastante quando a TV focou em Abel,que olhou pro banco de reserva e disse: "Eu não disse que ia dar em M..." kkk

    ResponderExcluir

Comentários