Por
ROBERTO VIEIRA
A
presente carta é dirigida ao técnico Mancini e seus comandados.
Muita gente imagina que o futebol é apenas um jogo. Mas o futebol
vai muito além das quatro linhas. Como qualquer outro aspecto
relevante da vida, o futebol possui história.
E
sem conhecer a história não nos reconhecemos como personagens na
divina comédia humana...
11
de agosto de 1974.
Estádio
do Arruda.
Trinta
e três mil pagantes.
O
Santa Cruz era pentacampeão estadual.
O
Santa Cruz prestes a igualar o orgulho maior do torcedor alvirrubro:
o
Hexacampeonato da geração Bita, Brondi e Salomão.
Do
outro lado do campo, estava justamente o Náutico.
Equipe
reconstruída artesanalmente por Sebastião Orlando, diretor de
futebol.
Mestre
Sebastião trouxera o técnico Orlando Fantoni para os Aflitos.
Fantoni
que se revelara tão grande técnico quanto fora jogador.
Neneca
do América-MG chegara para o arco.
Neneca
cotado para a seleção brasileira.
Betinho
e Fernando Santana do Santa Cruz.
Jorge
Mendonça do Bangu.
Nas
três primeira rodadas do certame estadual.
Jorge
Mendonça marcara nada menos que dez gols.
Oito
deles numa única partida, diante do Santo Amaro,
igualando
o recorde de Pelé.
Pelé
manda um telegrama de felicitações a Jorge Mendonça.
Quarta
rodada do estadual.
Aos
27 minutos da primeira etapa, o ponteiro Wilton do tricolor é
expulso.
O
Santa está com dez homens em campo.
O
Náutico já era considerado superior desde o Brasileirão anterior.
Uma
bela campanha.
Sempre
superior ao adversário.
Mas
é o Santa que corre mais em campo.
É o
Santa que segura o rojão.
E
marca seu gol aos 24 minutos do segundo tempo.
Gol
do formidável Luciano Veloso.
Tempo
que passa, o Santa vence.
Desolação
nas hostes alvirrubras.
No
vestiário, o sempre religioso Fantoni perde as estribeiras:
'Covardes!'
Fantoni
que era tido como um tio querido pelos atletas.
O
Recife começa a gozação.
O
time do Náutico era covarde.
Jorge
não era de nada.
Neneca,
um frangueiro.
A
zaga Beliato e Sidclei, uma avenida.
Vasconcelos,
uma moça.
Paraguaio
era bom como dentista.
Mestre
Sebastião Orlando olhou nos olhos de Fantoni.
O
time era bom.
Mas
agora, muito mais que a técnica, era necessário o coração.
Será
que aquele time tinha coração e alma de vencedores?
Será
que iriam superar o tabu diante do poderoso Santa Cruz?
Ou
será que iriam sucumbir diante da história?
Frágeis
personagens da divina comédia humana?
No
jogo seguinte contra o América-PE.
Dedeu
marcou duas vezes e acordou a equipe do drama vivido no Arruda.
O
Náutico venceu por 4x1.
Mas
no jogo seguinte.
Empatou
o Clássico dos Clássicos diante do Sport: 0x0
Praticamente
entregando de mão beijada o turno aos tricolores.
Porém...
a história é tortuosa de vez em quando.
Foi
naquele empate contra o Sport em 0x0.
Que
Neneca decidiu que não iria mais tomar gol.
Era
o dia 28 de agosto de 1974.
Neneca
só foi levar um gol novamente quase três meses depois.
O
Náutico jogando o que sabia e o que não sabia.
Perseguindo
o Santa Cruz campeonato afora.
Empatando
dois Clássicos das Emoções.
Querendo
dar o troco.
Mas
o troco se recusando no bolso da Cobra Coral.
Até
o dia 1º de dezembro de 1974.
Um
domingo meio chuvoso.
Aflitos
lotado.
Última
rodada do certame.
João
Havelange nas sociais do Eládio de Barros Carvalho.
Convidado
de honra da Federação.
Era
a chance do troco.
Com
um detalhe terrível.
O
empate daria o Hexacampeonato ao tricolor.
Tricolor
que saiu na frente com um tento de Zé Carlos.
Fantoni
observou o semblante dos seus comandados.
Não
havia medo.
Havia
apenas a determinação de invadir a Normandia.
Custasse
o que custasse.
Vasconcelos,
Dedeu e Paraguaio balançaram s redes naquele dia.
O
Náutico venceu por 3x1.
Dedeu
passou tantas vezes pelo lateral Celso que este ficou desnorteado.
Grande
promessa da seleção olímpica em Munique.
Celso?
Foi
acusado de estar na gaveta.
Injustiça
com o belo futebol de Dedeu.
Blasfêmia
contra o belo futebol de Celso.
As
coisas se inverteram de repente.
A
cidadela tricolor desmoronou.
Nas
duas partidas decisivas que se seguiram para decidir o título.
O
Náutico venceu por 1x0.
Gols
de Lima.
Desta
vez, sem aceitar o melhor futebol do Náutico.
O
culpado foi o arqueiro Raul Marcel.
Raul
que nem precisava do futebol pra viver.
Os
covardes se transformaram em heróis.
Heróis
endeusados em Rosa e Silva desde 1974.
Quase
quarenta anos depois.
Os
jogadores carregaram Tio Fantoni nos braços.
Mestre
Sebastião Orlando?
Disse
apenas três palavras.
'Hexa
é LUXO!'
É.
Tem
quem não valorize a história.
Tem
quem não entenda que sem a história somos vazios.
Perdidos.
Ilhas.
Com
a história nos pés e o futebol no coração.
Nenhum
homem é uma ilha.
Nenhum
homem é covarde.
Até
que apitem o juízo final.
A
mão que apedreja é a mesma que afaga.
Mas
antes.
É
preciso escrever com técnica, garra e suor nosso livro da vida.
Finalizando,
meus amigos.
Jorge
Mendonça chegou a seleção brasileira na Copa de 78.
Barrando...
Zico.
Vasconcelos
foi seleção chilena.
Ídolo
dos Andes.
Neneca
foi campeão brasileiro de 1978 no Guarani.
Beliato
foi o herdeiro de Figueroa no Internacional.
E
por aí vai.
Os
antigos covardes de 74.
Se
transformaram em parte inolvidável da história.
Imortais
e invencíveis espartanos do nosso futebol até o final dos tempos...
* Dedicado a Pedro


Roberto, 1974 foi o ano em que nasci. Vi situação semelhante com essa que você descreveu em 1989 (perdemos o 1º pro Santa no Arruda, 1x0); 2001 (quando perdemos a semifinal da Copa NE nos Alfitos para o Sport, 0x1) e 2004 quando de virada perdemos pro Sport nos Aflitos( 1x2, golaço de Almir Sergipe). Em todas esses anos essas derrotas serviram de ensinamentos para a conquista do Título, espero que a de ontem tenha o mesmo fim.
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