18 de mar. de 2013







Por ROBERTO VIEIRA


A presente carta é dirigida ao técnico Mancini e seus comandados. Muita gente imagina que o futebol é apenas um jogo. Mas o futebol vai muito além das quatro linhas. Como qualquer outro aspecto relevante da vida, o futebol possui história.

E sem conhecer a história não nos reconhecemos como personagens na divina comédia humana...


11 de agosto de 1974.

Estádio do Arruda.

Trinta e três mil pagantes.

O Santa Cruz era pentacampeão estadual.

O Santa Cruz prestes a igualar o orgulho maior do torcedor alvirrubro:

o Hexacampeonato da geração Bita, Brondi e Salomão.

Do outro lado do campo, estava justamente o Náutico.

Equipe reconstruída artesanalmente por Sebastião Orlando, diretor de futebol.

Mestre Sebastião trouxera o técnico Orlando Fantoni para os Aflitos.

Fantoni que se revelara tão grande técnico quanto fora jogador.

Neneca do América-MG chegara para o arco.

Neneca cotado para a seleção brasileira.

Betinho e Fernando Santana do Santa Cruz.

Jorge Mendonça do Bangu.

Nas três primeira rodadas do certame estadual.

Jorge Mendonça marcara nada menos que dez gols.

Oito deles numa única partida, diante do Santo Amaro,

igualando o recorde de Pelé.

Pelé manda um telegrama de felicitações a Jorge Mendonça.

Quarta rodada do estadual.

Aos 27 minutos da primeira etapa, o ponteiro Wilton do tricolor é expulso.

O Santa está com dez homens em campo.

O Náutico já era considerado superior desde o Brasileirão anterior.

Uma bela campanha.

Sempre superior ao adversário.

Mas é o Santa que corre mais em campo.

É o Santa que segura o rojão.

E marca seu gol aos 24 minutos do segundo tempo.

Gol do formidável Luciano Veloso.

Tempo que passa, o Santa vence.

Desolação nas hostes alvirrubras.

No vestiário, o sempre religioso Fantoni perde as estribeiras:

'Covardes!'

Fantoni que era tido como um tio querido pelos atletas.

O Recife começa a gozação.

O time do Náutico era covarde.

Jorge não era de nada.

Neneca, um frangueiro.

A zaga Beliato e Sidclei, uma avenida.

Vasconcelos, uma moça.

Paraguaio era bom como dentista.

Mestre Sebastião Orlando olhou nos olhos de Fantoni.

O time era bom.

Mas agora, muito mais que a técnica, era necessário o coração.

Será que aquele time tinha coração e alma de vencedores?

Será que iriam superar o tabu diante do poderoso Santa Cruz?

Ou será que iriam sucumbir diante da história?

Frágeis personagens da divina comédia humana?

No jogo seguinte contra o América-PE.

Dedeu marcou duas vezes e acordou a equipe do drama vivido no Arruda.

O Náutico venceu por 4x1.

Mas no jogo seguinte.

Empatou o Clássico dos Clássicos diante do Sport: 0x0

Praticamente entregando de mão beijada o turno aos tricolores.

Porém... a história é tortuosa de vez em quando.

Foi naquele empate contra o Sport em 0x0.

Que Neneca decidiu que não iria mais tomar gol.

Era o dia 28 de agosto de 1974.

Neneca só foi levar um gol novamente quase três meses depois.

O Náutico jogando o que sabia e o que não sabia.

Perseguindo o Santa Cruz campeonato afora.

Empatando dois Clássicos das Emoções.

Querendo dar o troco.

Mas o troco se recusando no bolso da Cobra Coral.

Até o dia 1º de dezembro de 1974.

Um domingo meio chuvoso.

Aflitos lotado.

Última rodada do certame.

João Havelange nas sociais do Eládio de Barros Carvalho.

Convidado de honra da Federação.

Era a chance do troco.

Com um detalhe terrível.

O empate daria o Hexacampeonato ao tricolor.

Tricolor que saiu na frente com um tento de Zé Carlos.

Fantoni observou o semblante dos seus comandados.

Não havia medo.

Havia apenas a determinação de invadir a Normandia.

Custasse o que custasse.

Vasconcelos, Dedeu e Paraguaio balançaram s redes naquele dia.

O Náutico venceu por 3x1.

Dedeu passou tantas vezes pelo lateral Celso que este ficou desnorteado.

Grande promessa da seleção olímpica em Munique.

Celso?

Foi acusado de estar na gaveta.

Injustiça com o belo futebol de Dedeu.

Blasfêmia contra o belo futebol de Celso.

As coisas se inverteram de repente.

A cidadela tricolor desmoronou.

Nas duas partidas decisivas que se seguiram para decidir o título.

O Náutico venceu por 1x0.

Gols de Lima.

Desta vez, sem aceitar o melhor futebol do Náutico.

O culpado foi o arqueiro Raul Marcel.

Raul que nem precisava do futebol pra viver.

Os covardes se transformaram em heróis.

Heróis endeusados em Rosa e Silva desde 1974.

Quase quarenta anos depois.

Os jogadores carregaram Tio Fantoni nos braços.

Mestre Sebastião Orlando?

Disse apenas três palavras.

'Hexa é LUXO!'

É.

Tem quem não valorize a história.

Tem quem não entenda que sem a história somos vazios.

Perdidos.

Ilhas.

Com a história nos pés e o futebol no coração.

Nenhum homem é uma ilha.

Nenhum homem é covarde.

Até que apitem o juízo final.

A mão que apedreja é a mesma que afaga.

Mas antes.

É preciso escrever com técnica, garra e suor nosso livro da vida.

Finalizando, meus amigos.

Jorge Mendonça chegou a seleção brasileira na Copa de 78.

Barrando... Zico.

Vasconcelos foi seleção chilena.

Ídolo dos Andes.

Neneca foi campeão brasileiro de 1978 no Guarani.

Beliato foi o herdeiro de Figueroa no Internacional.

E por aí vai.

Os antigos covardes de 74.

Se transformaram em parte inolvidável da história.

Imortais e invencíveis espartanos do nosso futebol até o final dos tempos...








* Dedicado a Pedro


Um comentário:

  1. Roberto, 1974 foi o ano em que nasci. Vi situação semelhante com essa que você descreveu em 1989 (perdemos o 1º pro Santa no Arruda, 1x0); 2001 (quando perdemos a semifinal da Copa NE nos Alfitos para o Sport, 0x1) e 2004 quando de virada perdemos pro Sport nos Aflitos( 1x2, golaço de Almir Sergipe). Em todas esses anos essas derrotas serviram de ensinamentos para a conquista do Título, espero que a de ontem tenha o mesmo fim.

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