O Palmeiras estava em ruínas.
Dezessete anos sem título.
Aí... surge a Parmalat.
O Palmeira monta mega times.
Ganha paulistas e brasileirões.
Mas de onde vinha tanta grana?
ISTO É/DINHEIRO responde...
O DIÁRIO SECRETO DA PARMALAT
Escrito no Brasil pelo filho do fundador do grupo, o caderno revela sua angústia com a crise, a venda de jogadores e rastros de um calote de R$ 100 milhões na telefonia
Por Por Leonardo Attuch
ESTÁGIO Stefano cuidou dos negócios no Brasil em 2000
A crônica de uma das mais espetaculares farsas do capitalismo moderno, que produziu um rombo de 14 bilhões de euros, foi escrita no Brasil. Está registrada em letras miúdas, nas 80 páginas de um diário de folhas corroídas pelo tempo. Seu autor é Stefano Tanzi, filho de Calisto Tanzi, criador da Parmalat. O diário, obtido com exclusividade pela DINHEIRO, foi escrito no primeiro semestre de 2000, quando Stefano morou em São Paulo e conduziu as operações do grupo na América Latina.
ESQUEMA PALMEIRAS Stefano era fanático por futebol. Anotou a venda de Asprilla (à esq.) e o salário de Alex
Nele, Stefano registrou sua angústia com os resultados ruins e anotou transações com jogadores de futebol. Em suas confissões, também rascunhou um plano de atuação da Parmalat na telefonia através da empresa Tecnosistemi, criada para instalar a rede da TIM, uma subsidiária da Telecom Italia na área de celulares. Hoje, a Tecnosistemi está em concordata. A empresa deixou um calote de R$ 100 milhões com bancos nacionais e é o foco de uma investigação sobre pagamentos de propinas a autoridades públicas. Apreendido pelos policiais italianos na mansão dos Tanzi em Collechio, vilarejo italiano que foi palco da batalha do Monte Castelo, a última dos pracinhas brasileiros na II Guerra Mundial, o diário é uma peça importante nas investigações conduzidas pelos procuradores italianos e pela juíza Antonella Iofredi, de Parma. Isso porque a Parmalat anunciou aos investidores que o crescimento das vendas e dos lucros no Brasil havia sido próximo a 15% em 2000. Mas entre o que foi dito ao mercado e o que efetivamente aconteceu há uma grande distância. Enquanto os balanços fajutados apontaram lucros, o diário de Tanzi revelou quedas dramáticas nas vendas e prejuízos em toda a América Latina. As fraudes começavam a se avolumar.
RUÍNA ESCONDIDA Aos investidores, a empresa dizia que as vendas cresciam. No diário, Stefano anotava queda de receita em vários negócios da Parmalat
No dia 16 de fevereiro, Stefano fez anotações sobre a Etti, empresa de molhos de tomate que acabara de ser adquirida pela Parmalat. “Há um problema de controle e contabilidade. Parece que não eram desonestos, mas incompetentes.” Em 27 de março, apontou que o faturamento da Batavo, outra subsidiária do grupo, seria reduzido de R$ 352 milhões para R$ 298 milhões. Stefano queixou-se ainda de reduções de venda em várias marcas de leites especiais que haviam sido lançadas. E escreveu que havia ociosidade de até 50% nas fábricas e um problema na estrutura de preços da empresa. Em seguida, fez uma revelação: “Falei com Gianni sobre dinheiro”. O Gianni em questão era Gianni Grisendi, que presidiu a Parmalat nos anos 90 e deixou a empresa para se tornar acionista da Tecnosistemi e presidente da própria TIM, antes de se envolver em mais uma confusão com tempero italiano: a da Bombril. Hoje, com seus bens bloqueados, Grisendi está sendo investigado por fraude, lavagem de dinheiro e evasão de divisas num processo que corre na 42ª Vara Cível de São Paulo. Muitos outros personagens do diário, porém, conectavam-se à empresa indiretamente. Eram jogadores de futebol. Stefano, que presidiu a equipe do Parma, listou a venda de dois atletas de um time que foi patrocinado pela Parmalat: o Palmeiras. Eram o atacante colombiano Asprilla e o lateral-esquerdo Júnior. Mencionou também o contrato publicitário de Ronaldinho, que teria ganho R$ 5,5 milhões para atuar na campanha publicitária dos mamíferos, que vestia crianças como animais de pelúcia. E citou ainda a renovação de contrato do meia Alex, hoje no Cruzeiro, que ganhava R$ 390 mil por ano e pedia R$ 2,5 milhões. Tamanho interesse pelo futebol se explica. Os procuradores italianos estão convictos de que as transações com jogadores eram um meio de desviar dinheiro. Como o valor dos passes não correspondia à realidade, suspeita-se que parte retornava às contas dos Tanzi em paraísos fiscais.
OS CONSELHEIROS Calisto (acima) e Tonna trataram do plano de sociedade com a TIM e da criação da Tecnosistemi e da Eudósia, empresas de equipamentos
“Parlare com Boss”. O diário de Tanzi também contém revelações sobre a estrutura de poder na Parmalat. Sempre que se via diante de uma decisão difícil, Stefano anotava “parlare com Boss” ou “parlare com Fausto”. O boss – chefe em inglês – era seu pai Calisto. O segundo homem na hierarquia era Fausto Tonna, ex-diretor financeiro. Hoje os dois, assim como Stefano e outros 18 executivos ligados às fraudes, estão presos na Itália. Um dos episódios em que era necessário tratar com o chefe dizia respeito à telefonia. Em março, Stefano escreveu sobre a compra de licenças de telefonia celular no Brasil pela TIM e sugeriu que a Parmalat deveria adquirir 1% do negócio. Além disso, desenhou um esquema sobre as participações acionárias na Tecnosistemi e na Eudósia, empresas que implantaram praticamente toda a rede de GSM da TIM. Em vários países do mundo, os executivos que montaram as filiais da Tecnosistemi haviam atuado antes na Parmalat. Foi o caso de Grisendi, no Brasil, e Rubens Vicente, no Peru. À Justiça, Grisendi disse ter aberto a Tecnosistemi a pedido de Calisto Tanzi. E em todos os lugares, a empresa quebrou, deixando um rombo milionário com bancos e fornecedores. Seu fundador, Mario Mutti, era amigo íntimo de Tanzi e também está sendo investigado.
BRAÇO DIREITO Gianni Grisendi chefiou a Parmalat e a TIM. É um dos principais nomes citados no diário
Desde que foi criada, em 1977, a Parmalat Brasil jamais registrou lucros verdadeiros. Em média, a empresa recebeu aportes anuais de R$ 100 milhões da matriz, que eram usados para mascarar os resultados ruins. “Era um subsídio, uma espécie de mesada”, disse à DINHEIRO o executivo Nelson Bastos, que, em abril deste ano, foi nomeado presidente do Conselho da Parmalat pelos credores. Sua conta é que, em todos esses anos, tenham entrado R$ 3 bilhões no País. Era um dinheiro que vinha dos pequenos acionistas minoritários italianos e dos banqueiros que financiaram a expansão da Parmalat. Isso não significa, porém, que o Brasil tenha se beneficiado com a farsa montada pela família Tanzi. O que se suspeita, na Justiça do Brasil e da Itália, é que parte dos recursos tenha retornado ao bolso dos controladores após aquisições superfaturadas de empresas e remessas ilegais de dinheiro. A CPI do Banestado, por exemplo, levantou indícios de desvios de até US$ 1 bilhão. As empresas usadas para as fraudes seriam a Carital e a Winshaw, ambas
sediadas em paraísos fiscais no Caribe. Só a Winshaw movimentou cerca de US$ 2 bilhões. A tese de muitos procuradores é que, depois da Operação Mãos Limpas, feita em 1993, as empresas italianas tenham passado a usar países como o Brasil para “internacionalizar” suas práticas de corrupção.
sediadas em paraísos fiscais no Caribe. Só a Winshaw movimentou cerca de US$ 2 bilhões. A tese de muitos procuradores é que, depois da Operação Mãos Limpas, feita em 1993, as empresas italianas tenham passado a usar países como o Brasil para “internacionalizar” suas práticas de corrupção.
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