22 de mar. de 2013







Por ROBERTO VIEIRA*


Prezado Conselho Federal de Medicina,

Fui condenado a morrer em casa.
Não de morte comum.
Porém, de morte violenta.
Confesso desconhecer meu crime.
Não fui sequer notificado.
E, definitivamente, sou INOCENTE!
Minha mãe deverá estar presente quando do cumprimento da sentença.
Do meu pai não se tem notícia.
Dizem que meus avós não querem nem mesmo ouvir falar de mim.
Não lamento a morte.
Já me avisaram lá em cima que ela é inevitável mais dia menos dia.
Lamento apenas não chegar a conhecer um pôr-do-sol.
O barulho do mar.
Pássaros cantando ou mesmo uma canção de ninar.
Metade da humanidade gostaria de me salvar.
A outra metade diz que não tenho direito à vida.
Chamam isso de democracia.
Liberdade para as mulheres decidirem o que querem fazer do seu corpo.
Realmente, devo partir.
Seria muito difícil entender este mundo.
Um mundo que em poucos minutos.
Irá me subtrair em milhares de pedaços.
Sangue e dejetos.
Tudo jogado numa cesta de lixo.
Aos Conselheiros que juraram preservar a vida.
Deixo meu último olhar.
Olhar que dizem não existir no meu corpo até a 12ª semana.
Não se preocupem nobres senhores e senhoras.
Sei apenas perdoar...

* Médico que não reconhece a decisão dos 27 Conselhos Regionais de Medicina. Conselhos que decidiram concordar com a liberação do aborto até a 12ª semana de gestação, mesmo em casos alheios ao estupro ou risco à saúde da gestante.  

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