Por ROBERTO VIEIRA*
Prezado
Conselho Federal de Medicina,
Fui
condenado a morrer em casa.
Não de morte
comum.
Porém, de morte
violenta.
Confesso desconhecer meu crime.
Não fui
sequer notificado.
E,
definitivamente, sou INOCENTE!
Minha mãe deverá estar presente
quando do cumprimento da sentença.
Do meu pai
não se tem notícia.
Dizem que meus avós não querem nem
mesmo ouvir falar de mim.
Não lamento a morte.
Já me
avisaram lá em cima que ela é inevitável mais dia menos dia.
Lamento apenas não chegar a
conhecer um pôr-do-sol.
O barulho
do mar.
Pássaros
cantando ou mesmo uma canção de ninar.
Metade da humanidade gostaria de me
salvar.
A outra
metade diz que não tenho direito à vida.
Chamam isso de democracia.
Liberdade
para as mulheres decidirem o que querem fazer do seu corpo.
Realmente, devo partir.
Seria muito
difícil entender este mundo.
Um mundo
que em poucos minutos.
Irá me
subtrair em milhares de pedaços.
Sangue e
dejetos.
Tudo jogado
numa cesta de lixo.
Aos
Conselheiros que juraram preservar a vida.
Deixo meu último
olhar.
Olhar que
dizem não existir no meu corpo até a 12ª semana.
Não se preocupem nobres senhores e
senhoras.
Sei apenas perdoar...
*
Médico que não reconhece a decisão dos 27 Conselhos Regionais de Medicina. Conselhos
que decidiram concordar com a liberação do aborto até a 12ª semana de gestação,
mesmo em casos alheios ao estupro ou risco à saúde da gestante.

0 comentários:
Postar um comentário
Comentários