5 de mar. de 2013




Há 60 anos.

As manchetes dos jornais nordestinos.

Amanheciam com imagens terríveis.

A seca matando homens e animais.

Multidões de flagelados invadiam cidades.

Getúlio Vargas em Petrópolis?

Prometia uma solução.

Duas mil pessoas mortas de fome.

Rumavam para o São Francisco.

Quem sobrevivia, partia para o Sul.

Hoje, é certo.

Bolsa Família e outros auxílios impedem a morte por inanição.

Mas o gado morreu.

As plantações já não existem.

E o sertanejo se ajoelha diante dos agiotas do Poder...





Hoje, na Feira de Caruaru.

Encontrei com o Cego Jacinto.

Vindo lá das brenhas do sertão.

E ele me falou algo mais ou menos assim...




Por ROBERTO VIEIRA


Andando na feira de Caruaru, meio dia, sol de rachar o cano, um canto me chamou a atenção. Lá estava Cego Jacinto, palmeirense bissexto, declamando em versos sua indignação...



Favor me explique agora

Quem tanto gosta de bola

As lágrimas do camponês

Vendo a secura do chão

Assassinando sua rês

Enquanto fãs da pelota

Se perdem pelas tevês

Favor me explique agora

Quem tanto gosta de bola

As lágrimas do camponês.



Favor me explique agora

Quem tanto gosta de bola

As lágrimas do camponês

Erguem palácio e mansão

Templos de gol e insensatez

Políticos em véspera da engorda

Entregam o sonho ao freguês

Favor me explique agora

Quem tanto gosta de bola

As lágrimas do camponês.




Favor me explique agora

Quem tanto gosta de bola

As lágrimas do camponês

Arena disso e daquilo

O pobre chorando pela terra

Enquanto seca o São Francisco

Os carros pipa fazem festa

Favor me explique agora

Quem tanto gosta de bola

As lágrimas do camponês.



Favor me explique agora

Quem tanto gosta de bola

As lágrimas do camponês

Meu São José responde a prece

De quem te reza a vida inteira

Crianças brincando de Messi

Na carcaça da vaca estrela

Favor me explique agora

Quem tanto gosta de bola

As lágrimas do camponês.



Trago então uma proposta

A presidente operária

Copa do Mundo dura um mês

E o sofrimento é relicário

Que tal Castelão asa branca

Cariri, fonte nova

A multidão esquecida?

Faz de conta é dirigente da FIFA

Tenho certeza dessa forma

Pensando que tico tico é tatu bola

Assum preto maracanã

Nós transforma o Quinze em Onze

E o sofrimento?

No ontem

Sem hoje nem amanhã...



Pois minha nobre senhora

Que tanto sofreu na história

Eu lhe pergunto outra vez

Favor me explique agora

Quem tanto gosta de bola

As lágrimas do camponês...



A morte de Agnelo Junqueira/edição do dia 3 de março de 1953



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