Há 60 anos.
As manchetes dos jornais nordestinos.
Amanheciam com imagens terríveis.
A seca matando homens e animais.
Multidões de flagelados invadiam cidades.
Getúlio Vargas em Petrópolis?
Prometia uma solução.
Duas mil pessoas mortas de fome.
Rumavam para o São Francisco.
Quem sobrevivia, partia para o Sul.
Hoje, é certo.
Bolsa Família e outros auxílios impedem a morte por inanição.
Mas o gado morreu.
As plantações já não existem.
E o sertanejo se ajoelha diante dos agiotas do Poder...
Hoje, na Feira de Caruaru.
Encontrei com o Cego Jacinto.
Vindo lá das brenhas do sertão.
E ele me falou algo mais ou menos assim...
Por ROBERTO VIEIRA
Andando na feira de Caruaru, meio dia, sol de rachar o cano, um canto
me chamou a atenção. Lá estava Cego Jacinto, palmeirense bissexto, declamando
em versos sua indignação...
Favor me explique agora
Quem tanto gosta de bola
As lágrimas do camponês
Vendo a secura do chão
Assassinando sua rês
Enquanto fãs da pelota
Se perdem pelas tevês
Favor me explique agora
Quem tanto gosta de bola
As lágrimas do camponês.
Favor me explique agora
Quem tanto gosta de bola
As lágrimas do camponês
Erguem palácio e mansão
Templos de gol e insensatez
Políticos em véspera da engorda
Entregam o sonho ao freguês
Favor me explique agora
Quem tanto gosta de bola
As lágrimas do camponês.
Favor me explique agora
Quem tanto gosta de bola
As lágrimas do camponês
Arena disso e daquilo
O pobre chorando pela terra
Enquanto seca o São Francisco
Os carros pipa fazem festa
Favor me explique agora
Quem tanto gosta de bola
As lágrimas do camponês.
Favor me explique agora
Quem tanto gosta de bola
As lágrimas do camponês
Meu São José responde a prece
De quem te reza a vida inteira
Crianças brincando de Messi
Na carcaça da vaca estrela
Favor me explique agora
Quem tanto gosta de bola
As lágrimas do camponês.
Trago então uma proposta
A presidente operária
Copa do Mundo dura um mês
E o sofrimento é relicário
Que tal Castelão asa branca
Cariri, fonte nova
A multidão esquecida?
Faz de conta é dirigente da FIFA
Tenho certeza dessa forma
Pensando que tico tico é tatu bola
Assum preto maracanã
Nós transforma o Quinze em Onze
E o sofrimento?
No ontem
Sem hoje nem amanhã...
Pois minha nobre senhora
Que tanto sofreu na história
Eu lhe pergunto outra vez
Favor me explique agora
Quem tanto gosta de bola
As lágrimas do camponês...
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| A morte de Agnelo Junqueira/edição do dia 3 de março de 1953 |