Por ROBERTO VIEIRA
Foi um sonho de uma noite de verão.
A par Lucídio e Carlos Celso.
Tive dois ídolos no futebol tornado palavra:
Nelson Rodrigues e Armando Nogueira.
Claro que outros me fizeram sonhar.
Mas nunca como estes quatro.
O caso que conto agora é sobre Mestre Armando.
Guardei em segredo.
Mas vale pela saudade.
No dia 29 de março de 2010.
Armando Nogueira se foi.
E eu fui num bar destes que só servem pra beber e curtir dor de cotovelo.
Pra tomar um chopp em sua homenagem.
Em homenagem de uma bossa nova e do adeus do Mestre Armando.
Volto no tempo.
8 de janeiro de 2009.
Um e-mail da Sra. Silvia Schiavon chega.
Ela representa a agência de propaganda paulista Bossa Nova.
O assunto é um comercial para o Museu do Futebol.
No comercial.
Mestre Armando Nogueira leria uma crônica sua.
Concatenada com frases do meu texto 'A Poesia do Futebol'.
Gelei.
Ela queria permissão para usar as frases.
Eu?
Eu daria minha alma pra ouvir Armando Nogueira recitando qualquer frase minha.
Agradeci e concordei com o uso do texto.
Mas - calejado pela vida - calei e guardei em segredo o fato.
Não contei pra ninguém.
Nem pra esposa, nem filho, nem amigos.
Podia não acontecer.
A emoção imensa guardei no coração.
Pouco depois, chegou a notícia.
Mestre Armando estava muito doente.
Já não conseguia gravar o comercial.
Eu não sabia da doença do Mestre Armando.
Fiquei duplamente triste.
Pelo fim do sonho.
E pelo iminente adeus do Mestre.
Quando Mestre Armando se foi.
Foi como se me tirassem a palavra e o verbo.
A muito custo escrevi um texto para o Blog e para o Juca.
Fazendo brincadeira comigo mesmo e meu destino.
Jogando com as palavras 'poesia' e 'futebol'.
No trecho em que lembrava Armando.
No e-mail para Juca Kfouri.
Finalmente contei pra alguém sobre o convite da Bossa Nova.
Agora, conto pra vocês.
Lucídio, Celso, Nelson e Armando.
Seguem sendo tudo que eu queria ser escrevendo.
Bola no chão.
Texto milimétrico.
Sabedoria nos lances na boca do gol.
Infinita benevolência na distribuição de beleza e verso.
Hoje?
Sentado aqui na noite quente de Recife.
Dei de lembrar na solidão e felicidade daquele momento.
Do que não foi.
Lembrar da Bossa Nova e do adeus do Mestre Armando Nogueira.
Que ele descanse em paz.
O FUTEBOL DE ARMANDO NOGUEIRA
Por ROBERTO VIEIRA
Os três maiores cronistas do futebol brasileiro.
Agora batem bola na eternidade.
Primeiro se foi nosso Friedenreich:
Mário Filho.
Palavras e toques exatos, milimétricos.
Inventor do futebol fora das quatro linhas.
Depois partiu seu irmão, Nelson Rodrigues.
Garrincha de frases cortantes e desconcertantes.
Sempre driblando pela direita.
Até que a realidade mostrou-se surda.
Hoje se foi Armando Nogueira.
O menino de Xapuri.
Terra da borracha, da riqueza e da miséria.
Terra onde o menino corria atrás de uma bola.
Nos campinhos na beira do rio.
Armando que foi a síntese da poesia no futebol.
Armando que se deslumbrou com Heleno de Freitas.
Armando que fazia da pauta, latifúndio.
Armando que tal e qual Nilton era muitos sendo um só.
O futebol é jogado com os pés e feito de gols.
Mas se o futebol tem alma.
A alma do futebol está na sua poesia.
Poesia que brota das letras de quem ama o futebol-sonho.
Hoje a poesia do futebol está em silêncio.
E vai permanecer assim por algum tempo.
Pegando carona no também lendário Drummond.
Difícil não é escrever mil poesias como o Armando.
Difícil é escrever uma só poesia como Mestre Armando Nogueira.
A POESIA DO FUTEBOL
Por ROBERTO VIEIRA
“Ademir impõe com seu jogo
o ritmo do chumbo (e o peso),
da lesma, da câmara lenta,
do homem dentro do pesadelo.”
No poema acima, João Cabral de Melo Neto homenageia o ídolo Ademir da Guia.
Poeta e craque em verso severino.
João Cabral poeta, craque e ex-jogador de futebol. Torcedor apaixonado do América-PE.
Ademir da Guia, poeta intuitivo. Decassílabo. Alexandrino. Divino.
O futebol de Canhoteiro também se emaranhou na memória de Ferreira Gullar.
Traduzindo uma parte na outra parte. Será arte?
Fosse o futebol um gênero literário, não seria prosa.
Tão pouco seria um romance com começo, meio e fim.
Fosse o futebol um gênero literário, o futebol seria poesia.
Pois todo jogador de futebol é um poeta.
Há os repentistas como Cafuringa, Rivaldo e Denílson.
Os poetas concretistas Dunga e Zagalo.
Os românticos como Telê, Mário de Castro e Tim.
Os épicos como Barbosa e Heleno de Freitas.
O haikai flamenguista de Radar e do ponta esquerda Júlio César. Breves. Simbólicos.
E como esquecer o Homero do futebol brasileiro, Nilton Santos?
Mas a poesia no futebol brasileiro não se restringe na habilidade com a bola nos pés.
A poesia no futebol brasileiro escorre da pena de Armando Nogueira.
Reluz no anjo de pernas tortas do poetinha Vinícius de Moraes. Ou na poesia cruzmaltina de Carlos Drummond de Andrade.
A poesia no futebol brasileiro ocupa até as crônicas do futebol brasileiro.
Pois não será poesia o texto de Mário Filho e Nélson Rodrigues?
Ou a camisa contra o vento de Roberto Drummond?
No dia 20 de outubro se comemora o dia nacional da poesia.
Outubro, não por acaso mês de Iashin, Charlton, Pelé, Maradona e Mané Garrincha.
Muitos torcedores apaixonados compreendem a poesia no futebol.
Outros tantos, não enxergam poesia nas quatro linhas do gramado. Exigem relatos jornalísticos. Pragmáticos.
Analíticos.
Mas tanto uns quanto outros gritam e choram no instante de um gol.
Rima rica de quem no futebol, simplesmente, amou…


Muitos escrevem...Poucos, raros, pouquíssimos, são Poetas ! ( assim como um Armando Nogueira; assim como um Roberto Vieira )
ResponderExcluirBeleza de relato,Roberto.
ResponderExcluirQue timaço: Armando,CCC,Lucídio,Tostão,Nélson,Mário...e Roberto Vieira!